quinta-feira, janeiro 12, 2017

Pedagogia do opressor


Uma passagem do romance do escritor israelense David Grossman, O inferno dos outros, revela um interessante traço do nosso passado pedagógico universal: “Verdade que eu apanhava para valer, mas, big deal, todos apanhavam! Não é? Quem não apanhava naquela época? Era assim! Não se conhecia outro jeito. E daí, isso fez algum mal? Não crescemos bem?
Não nos tornamos gente?” O personagem encarna as justificativas da pedagogia do opressor.
Mas as envolve com certa ironia: “As famílias são assim. Uma hora te abraçam, uma hora te arrebentam com o cinto, e tudo isso é por amor. Aquele que poupa a vara estraga a criança, e creia-me, Dovtcho, às vezes uma bofetada vale mais do que mil palavras. E com isso vocês ouviram o catálogo completo de piadas e ditos espirituosos do meu pai”.
O opressor sente saudades do tempo em que, em casa e na escola, educava-se pela vara.
Sofre com a nostalgia dos “bons tempos” da ditadura.
Exibe o lombo como prova de que apanhar faz bem.
A defesa do trabalho infantil também reaparece como parte do arsenal da pedagogia pelo sofrimento. Contra este tempo lamentável em que aluno bate no professor, o saudoso da pedagogia do castigo relembra os bons tempos em que o professor batia no aluno. A pergunta retorna: “Não nos tornamos gente?” Que gente? Com que valores? Até a doma dos cavalos passou da brutalidade ao adestramento racional. Mas os nostálgicos garantem que ficou menos divertido. Não poder torturar animais em nome do prazer, do lazer e de velhas tradições exaspera muita gente.
Aumenta o volume das críticas ao politicamente correto. Apanhávamos, sim. “Isso fez algum mal?” Será que não? Não terá sido o fim do regime do chicote que está liberando a resposta pelos tantos ressentimentos e traumas? Seria necessário, para evitar desilusões, manter o torniquete apertado impedindo os vazamentos da memória? Era autoridade e respeito o que se tinha nesse passado louvado pelos adeptos da pedagogia do opressor? Ou autoritarismo? No livro de Grossman, num stand-up, um humorista acerta as contas com o imaginário da infância.
Foi humilhado em casa, na escola e no exército. Qual o problema? Todos eram? Salvo os mais fortes. Hoje, o mais forte reclama do “vitimismo” dos mais fracos, que impede a atualização tranquila dos velhos hábitos de imposição da força.
O próprio humor, acostumado a humilhar vulneráveis, ressente-se dos novos limites.
Que chato, a vítima não aceita mais a regra do jogo e se revolta! Denuncia o opressor e interdita a sua lógica.
O humorista de Grossman conta uma piada para acalmar o público: um caramujo foi à polícia fazer um B.O.: “Duas tartarugas me atacaram”, denuncia. O policial de plantão pede detalhes. A vítima responde: “Não lembro. Tudo aconteceu tão rápido”. Na pedagogia do opressor é o contrário: tudo aconteceu tão lentamente. Cada um lembra de tudo. A pressa é do plantonista. Para ele, nada há de anormal nesse tipo de ocorrência. O seu raciocínio é lento.
Ele se identifica com as tartarugas. Confessa:
– Santo esse caramujo não era. Não tem santo nisso!
A pedagogia do opressor valoriza o castigo como método de adestramento, que confunde com educação.
É mais fácil agredir do que convencer.
Muito mais fácil ser autoritário do que autoridade.
De fato, o presente é mais complexo do que o passado.
Vara agora só na justiça. Juremir Machado

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