quarta-feira, julho 12, 2017

Cai ou não cai?


 Michel Temer vai ou fica? Tudo depende do DEM e do PSDB. O cavalo está passando encilhado para Rodrigo Maia. Por que ele se recusaria a fazer com o Temer o que este fez com Dilma? O paradoxo do traidor é que ele jamais pode exigir fidelidade. A presidência pode cair no colo de Rodrigo Maia. Ele nunca pensou em chegar tão longe. O resto fica por conta do PSDB. Vamos raciocinar juntos. O que desejam os tucanos? As reformas trabalhista e da Previdência. Nada mais. Eis.
Quadro um: para ter as reformas os tucanos precisam manter Michel Temer no poder? Não. A trabalhista já foi. Adeus, Getúlio. A da Previdência, mais difícil, os tucanos podem alcançar com Rodrigo Maia no comando. Qual seria a vantagem de trocar? Obter o fim desejado e ainda se gabar para o eleitor de ter despachado o governo corrupto. Os tucanos estão com a faca, o pão e o queijo nas mãos: podem ter tudo o que sonham e ainda posar de moralizadores e de inimigos da corrupção. O que falta para que compreendam o cenário? Livrar-se do medo de alguma delação imprevista.
Ousar como nunca fizeram até agora. Apenas.
Quadro dois: a mídia está louca para fazer as pazes com o PSDB. Basta um movimento para que os tucanos voltem a ser os queridinhos da chamada mídia hegemônica: expulsar Aécio Neves. Se o PSDB romper com Temer e livrar-se de Aécio, em dois toques, ressurgirá das cinzas como o partido da modernidade, do futuro, da racionalidade e da ética. Estará cacifado para ganhar as eleições de 2018. O mercado gosta do PSDB. A mídia sempre o adorou. A justiça tem uma quedinha pelos tucanos.
É só uma questão de ajuste, de detalhe, de coragem para voar.
Não existe vazio na política. O Brasil foi dominado nas últimas décadas por PT, PMDB e PSDB. Os petistas estão aglutinados em torno de Lula como filhotes que se aninham em busca de proteção. Os peemedebistas zumbem em redor de Temer já em tom de desespero sentindo a boiada se perder. Os tucanos, depois de beijar a lona, podem voltar rapidamente ao palco. Se expulsarem Aécio e abandonarem Temer, pavimentarão o caminho para João Dória em nome da oposição ao surgimento de um aventureiro como Jair Bolsonaro. Terão os tucanos coragem de expulsar o mais dileto dos seus filhos, o jovem, dinâmico, tradicional e moderno neto de Tancredo Neves? Ou temerão que ele caia atirando? Mineiros também disparam quando se sentem em perigo?
Esse é o cenário político brasileiro. Um quadro simples e cristalino: só o mais frio sobreviverá. Tudo depende de quem vai trair primeiro. O PSDB nada tem a ganhar sendo fiel a quem dormiu por anos com o seu principal inimigo. A melancolia de Michel Temer reside no fato de que ele precisa contar com o que jamais deu a alguém: confiança. Na solidão do Jaburu, Temer é um Dorian Gray que se olha no espelho do poder e vê o seu rosto se deformar a cada hora. No cristal perfeito, com pompa e faixa, aparece Rodrigo Maia. Por trás dele, vê-se o ministério: Henrique Meirelles e um bando colorido de tucanos. No Brasil, o poder corrompe, a corrupção empodera e não se perde oportunidade.
Voa mais quem salta do muro. Michel Temer sabe disso.
Michel Temer já saiu da mediocridade para entrar no rodapé da história.
Graças a ele Getúlio Vargas passou do suicídio ao assassinato.
Duas mortes com os mesmos mandantes.JM

terça-feira, julho 11, 2017

Saída de Temer?



Interessante que os jornais usem o termo "aliado" para aqueles que dão seu apoio a políticos, líderes, candidatos, membros do Judiciário etc. Depois de tantos escândalos (fora os que ainda virão) não seria mais correto chamar de "comparsa" ? (André Luis Coutinho, de Campinas, SP, no Painel do Leitor da Folha).
***
Num tempo e numa terra em que ninguém mais confia em ninguém, nem no Judiciário, de nada adianta mudar leis ou presidentes.
Michel Temer pode cair mesmo se as novas leis trabalhistas forem aprovadas nesta terça-feira no Senado, pois a questão central permanece: a falta de confiança generalizada, não só no governo, mas nas instituições.
A ironia da história é que a reforma trabalhista representa uma vitória do governo Temer, mas poderá apressar o ocaso porque ele já terá cumprido sua missão no Palácio do Planalto.
"O PSDB está desembarcando independentemente do meu controle e da minha vontade", anunciou na véspera da votação o senador Tasso Jereissati, presidente interino do PSDB, após quatro horas de reunião dos caciques tucanos, na noite de segunda-feira, em São Paulo.
Para não variar, o PSDB nada decidiu, mas Tasso adiantou que o partido só vai esperar agora a votação da admissibilidade da denúncia por corrupção passiva na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, que pode acontecer nesta quinta-feira.
Aprovada a reforma trabalhista, só restaria a previdenciária, mas esta já foi desfigurada e jogada para as calendas, sem que Temer mostre condições políticas para retomar a discussão no Congresso.
Era nelas que Temer jogava sua sobrevivência, depois de ser encurralado pelas delações da Lava Jato, mas agora o establishment já está achando que o atual presidente se tornou um estorvo, e se movimenta abertamente para buscar uma alternativa.
Com a rápida deterioração da governabilidade, a base aliada, os mercados e a mídia já estão se acertando com Rodrigo Maia, o presidente da Câmara e possível sucessor, para manter a atual equipe e o projeto econômico, que é o que interessa.
Em Brasília, no domingo, reuniões para discutir o "pós-Temer" se sucederam durante todo o dia, com a participação de parlamentares da base aliada, líderes partidários, ministros e do próprio Rodrigo Maia.
No final da manhã, depois de uma conversa nada agradável com Temer no Palácio do Jaburu, que durou menos de uma hora, Maia seguiu direto para um almoço oferecido pelo vice-presidente de Relações Institucionais do Grupo Globo, Paulo Tonet, a um seleto grupo de deputados, como relatam Marina Dias e Daniela Lima, na Folha.
Ao longo de cinco horas de conversa, Maia deu como irreversível a queda do presidente Temer. Antes do dia acabar, o presidente da Câmara ligou para os aliados reunidos com Temer no Palácio da Alvorada e os convidou para um jantar com pizza e sopa.
"Em sua casa, Maia falou sobre a conversa com o presidente mais cedo, relatou seu almoço com a direção da emissora e vaticinou o fim do atual governo", segundo a Folha.
Enquanto isso, Temer tinha que se dedicar pessoalmente ao varejão do troca-troca de deputados aliados na CCJ, onde sofreria sua primeira derrota na segunda-feira, com o parecer favorável à denúncia apresentado pelo relator Sérgio Zveiter, do seu próprio partido, um sinal claro do desmanche da base aliada.
Por outra ironia da história, a ciranda da traição dançada em Brasília faz lembrar os últimos dias do governo de Dilma Rousseff antes da aprovação do impeachment.
A grande diferença é que Temer ainda parece contar com a maioria do Centrão, o baixo clero que domina a Câmara, onde a oposição ao presidente precisa de 342 votos para aprovar a denúncia.
Ao contrário de Dilma, seu ex-vice gosta e sabe negociar com deputados.RK

domingo, julho 09, 2017

96 ANOS DE MORIN!




A modernidade representou como nunca o imaginário da unidade, da clareza, da identidade e da eliminação das contradições. O homem moderno queria ser transparente.
Paradoxalmente a modernidade levou da obsessão pela transparência ao culto da visibilidade. Um salto opaco. Ao longo dos séculos, a ciência moderna investiu na dominação da natureza. Aos poucos, no entanto, enormes brechas apareceram: a terra não é o centro do universo, o homem não é um ser soberano a ponto de ter consciência de todos os seus desejos e motivações. Freud cravou uma estaca no coração da vaidade e da racionalidade humanas: há um “continente escuro” aquém e além da racionalidade contaminando e influenciando as ações de cada homem.
Compreender a complexidade, a importância da diversidade, do universal, da relativização e do respeito à diferença e da pluralidade do ser humano exige um olhar generoso, rigoroso, atento ao todo e também à parte. Edgar Morin, sábio, pensador da complexidade – complexo é aquilo que se tece em conjunto, articulando vários fios –, sustenta que precisamos buscar a unitas multiplex. Mas o que é realmente essa unidade múltipla? Ou, dito de outra forma, como conciliar inconciliáveis, equilibrar antagonismos e alcançar unidade na diversidade e diversidade na unidade? Como ser um uno múltiplo? Como comunicar aquilo que parece estar além da comunicação?
A complexidade, pelo “princípio hologramático”, formulado por Morin, baseado em Pascal, explicita o paradoxo todo/parte: a parte está no todo, que está na parte. Para Edgar Morin, intelectual longevo, nascido em 1921, a unitas multiplex remete à complexidade, que implica diversidade, cruzamentos, diferenças, inter, multi e transdisciplinaridade. Esta transdisciplinaridade é muito mais do que uma justaposição de disciplinas, mas um saber produzido para além da compartimentação disciplinar. Ser complexo é buscar, ao mesmo tempo, a explicação (racional, lógica, abstrata) e a compreensão (concreta, relacionada à empatia, ao procedimento de colocar-se no lugar do outro). A complexidade exige pensar o universal e o particular num mesmo movimento. Ou pensar o abstrato pelo concreto e o concerto pelo abstrato. Ser complexo significa defender a importância do universal e do particular, do geral e do singular, do comum entre homens e do que os diferencia.
No livro Minha esquerda, Morin dá uma mostra dessa unidade na multiplicidade e dessa multiplicidade unitária. A epígrafe já diz tudo: “Eu sou um direitista de esquerda. Direitista porque valorizo muito as liberdades, mas, ao mesmo tempo, sou muito esquerdista, pois tenho a convicção de que nossa sociedade precisa de transformações profundas e radicais. Tornei-me um conservador revolucionário. Precisamos revolucionar tudo, mas conservando os tesouros da nossa cultura”.
No Método 5, o conceito ganha corpo: “Quanto mais a diversidade humana é visível, mais a unidade humana torna-se, hoje, invisível aos espíritos que só conhecem fracionando, separando, catalogando, compartimentando. Ou, então, o que aparece aos espíritos abstratos é uma unidade abstrata que oculta as diferenças. Precisamos conceber a unidade múltipla, unitas multiplex. Assim, a diversidade está inscrita numa unidade da vida. Esta, a partir de um primeiro ser celular, diversificou-se fervilhando pelos reinos vegetal e animal. Deve-se essa diversidade, quanto aos animais nascidos da reprodução sexuada, à singularidade oriunda da combinação de dois patrimônios genéticos, mas também ao desenvolvimento próprio e às experiências particulares vividas por cada um até a idade adulta; assim, entre os animais domesticados, as violências sofridas ou as carícias recebidas, determinam caracteres opostos”.
Conceber essa unitas multiplex significa, portanto, apostar na complexidade como visão de mundo e modo de existência, o que só pode ser atingido por meio de uma atitude transdisciplinar, mais do que inter e multi. Edgar Morin explica: “As palavras importam muito e, ao mesmo tempo, pouco. No caso de multi, inter e transdisciplinaridade, cada um desses termos tem uma contribuição a dar, mas nenhum se basta. O importante mesmo é a atitude epistemológica. A interdisciplinaridade junta disciplinas diferentes;  a multidisciplinaridade, articula-as; só a transdisciplinaridade, porém, supera a particularidade, conjuga os saberes e faz com que aportes diferentes trabalhem por um mesmo fim”. Qual fim?
O fim também deve ser uno e múltiplo: proteger o homem e o seu ambiente, o homem no seu ambiente, o meio sem qual o homem não floresce, o homem sem o qual o meio permanece virgem, a virgindade do meio como marca simbólica de uma origem que não pode desaparecer. A ilusão do homem  moderno consistiu em pensar que podia dominar uma natureza de recursos inesgotáveis. Nesse sentido, o homem é complexo é, ao mesmo tempo, mais lúcido, mais modesto, mais pragmático e mais prudente. O homem moderno, na sua simplicidade cientificista, queria construir o melhor dos mundos. As suas utopias eram totalizantes. O homem complexo, como indica Morin, sabe que não pode chegar ao melhor dos mundos, mas nada o impede de trabalhar por um mundo melhor. Eis o desafio.
Edgar Morin prega uma reforma do pensamento. Precisamos aprender a pensar complexamente para tentar responder às incontornáveis questões kantianas: o que podemos saber? O que devemos fazer? O que temos direito de esperar? O que é o homem? Talvez a melhor maneira de responder a essa última questão seja tentar dizer quem é o homem que propõe essa reforma de pensamento, contrariando o primado das especializações, em pleno século XXI. Quem é esse Edgar Morin, uno na sua multiplicidade de personagens, de saberes, de posturas, de visões de mundo e de obras? Tomaremos um homem, Edgar Morin, na sua singularidade para pensar o ser humano na sua universalidade e também na sua relatividade.

Quem é o homem?
    
Pensador pluralista, nascido em Paris, Edgar Morin mescla as ciências humanas com a biologia e a física, entre outras disciplinas do conhecimento compartimentado, para estudar os problemas do mundo contemporâneo. Interessa a ele compreender o mundo vivido com o objetivo de imaginar, longe das certezas e das leis históricas, possíveis  desdobramentos dos imaginários futuros. Morin assegura que o Sujeito é fundamental na construção do presente. Enquanto houver sonho de mudança social, afirma, haverá política, reforma, utopia e transformação.
Entre os livros fundamentais que escreveu devem ser citados com paixão O Cinema e o Homem Imaginário, O Paradigma Perdido, a natureza humana, As Estrelas, os seis volumes do Método, Para Sair do Século XX , Terra-Pátria, Meus demônios e Minha esquerda. Obras plenas de vida, de criatividade e de originalidade. Elogios da inteligência humana e convites ao prazer da reflexão.
     Nos tempos de Jean-Paul Sartre intelectual engajado, os vendedores de certezas encantavam o mundo e afirmavam-se como fenômenos do pensamento. Passada a época das utopias racionalistas que prometiam o paraíso, mergulhadas no irracionalismo metafísico e na arrogância de uma cientificidade insustentável, espalhou-se que não havia mais grandes intelectuais para estudar a complexidade da vida. Magnífico erro. Mera simplificação.
Edgar Morin está aí para provar o contrário. Ele não vende ilusões. Em Meus Demônios, obra na qual resume a sua luta e as ideias obsessivas que o dominaram ao longo de uma vida de aventura intelectual, conta como descobriu, durante a Segunda Guerra Mundial, o marxismo. O encantamento durou pouco. O homem generoso, sempre em busca da tolerância, percebeu, segundo a expressão de Karl Korsch, que o ideário marxista tornara-se uma “utopia reacionária”. Queria ser muitos numa identidade.
Para ele, vive-se hoje a decadência de um tipo de ideia de futuro: “Uma concepção determinista, otimista e crente no progresso. Acreditava-se acriticamente na técnica, na ciência e nos  efeitos benéficos, necessariamente emancipadores, da Razão. Nas nações do socialismo real ou no mundo capitalista, com a mesma intensidade, apostou-se no futuro radioso. A crise não é derivada apenas da queda do comunismo, mas também de um abalo geral de civilização. A instabilidade econômica é global (…) Descobrimos, porém, que a ciência também pode produzir ignorância, pois o conhecimento fecha-se na especialização. A indústria fabrica objetos úteis e também ameaças ao universo como a poluição. Por fim, o fundamento mesmo do futuro radioso não se sustenta mais: ninguém sabe o que acontecerá amanhã. Não há modo de fazer previsões seguras”. Complexidade significa também saber viver na incerteza constitutiva da vida real.
Para Morin os intelectuais e cientistas adoram denunciar o cretinismo dos meios de comunicação de massa e dos incultos, sem jamais admitir que os espíritos simples possuem também um saber e a capacidade de participar intensamente da emoção de um filme, por exemplo, e ainda assim estabelecer a diferença entre ficção e realidade. Os intelectuais, afirma, são alienados, através de uma ideologia abstrata, que não podem suportar a alienação dos outros pelas telenovelas.
Irônico, Morin salienta o essencial: os intelectuais atacam o conformismo e os estereótipos e esquecem que eles mesmos formam uma subcultura convencional, cheia de estereótipos, conformista e preconceituosa. Nenhuma moda escapa-lhe: estruturalistas, marxistas, althusserianos, eliminadores da ideia de homem e de sujeito, “cretinos de todo tipo”, recebem a sua lambada. Solitário, Morin sabe que pouco pode contra os representantes da elitização de um saber impotente em relação à complexidade existencial, mas poderoso enquanto mecanismo de dominação. Ser complexo implica participar de um campo de saber e, ao mesmo tempo, se necessário, entrar em conflito com ele.
Intelectual, sugere Morin, é quem através do ensaio, do texto de revista ou do artigo de jornal, “de maneira não-especializada” (fora do jargão), mas com riqueza de informação, trata dos grandes questões humanas com a finalidade de complexificá-las. Interdisciplinar de fato, Edgar Morin odeia as especializações que não procuram o intercâmbio, perdem a visão de globalidade e esquecem a comunicação com a sociedade. Homens de saber alheios à dialógica da complexidade não passam de gafanhotos – simpáticos, quando isolados; predadores, em bando.
Terra-Pátria, no qual colaborou Anne-Brigitte Kern, ê o livro fundamental para o exame do fenômeno nacionalista do final do século XX. Tudo está nele: pátria, nação, universalismo, identidade, ecologia, política, comunidade, etc. Os mecanismos para a compreensão da complexa rede social contemporânea são fornecidos com a limpidez costumeira ao texto de Morin.
A razão para o seu compromisso com a transformação é simples: “Ninguém vive sem projeções relativas ao devir ainda que seja em nome de seus próprios filhos. A angústia do futuro torna-se um sofrimento do presente. Precisamos operar com uma dialética temporal: pensar o futuro sem abandonar o presente. O futuro está doente. Mergulhamos em um nevoeiro histórico. Isso repercute sobre o presente. Somos seres de raízes e de mudança, de comunidades e de universalização. Quando o futuro está doente, acaba ocorrendo um retorno ao passado. Acontece que o futuro pode ser também erro e superstição. O medo instaura a retomada virulenta, por exemplo, do integrismo religioso. Nossa tarefa é construir um novo futuro, diferente daquele que faliu: um futuro da consciência e da vontade. O amanhã não será oferecido pela história”.
Nos longos invernos parisienses, beber as suas palavras sábias era um exercício fundamental de interpretação da fronteira entre o real e o imaginário. Certa vez, enquanto brincava com a sua gata Herminette, no seu apartamento no tradicional Marais, Morin sintetizou: “Devemos compreender que não somente no plano filosófico, mas também no científico, não existe certeza teórica absoluta. Temos certezas sobre fatos, por exemplo, que tem sol quando tem sol, ou que o sol aparecerá a tal hora amanhã e a tal hora depois de amanhã; assim, talvez, por algum tempo. Essas certezas estão situadas no tempo e no espaço e são biodegradáveis, pois a Terra não girou sempre com a mesma velocidade em torno do sol e em torno dela mesma. Houve um momento em que a Terra não existia; haverá um momento em que o sol explodirá”. Tudo passa. Tudo se renova. Tudo é ciclo.
A incerteza está na base da investigação “científica” e da descoberta de novos conhecimentos: “Nossas certezas não são eternas. Nenhuma teoria científica – e aí reside, creio, a importância da contribuição de Karl Popper – está segura de ter certeza absoluta. Aquela que num instante específico conforma-se mais aos dados em questão impõe-se. Mas pode muito bem ser substituída por nova teoria, e a prova é que praticamente todas as teorias científicas do século XIX foram ultrapassadas no século XX ou provincializadas”.
A imaginação, a criatividade e a efemeridade participam da montagem de um edifício teórico: “Uma teoria é uma construção do espírito e, de resto, sabemos que o conhecimento não é o espelho da realidade, mas tradução e reconstrução de um mundo do qual recebemos mensagens através de nossos sentidos, como os olhos, que são traduzidas e codificadas por nosso sistema nervoso e retrabalhadas pelo cérebro que faz delas uma percepção. Se todo conhecimento é  reconstrução e percepção, não pode ter valor de reflexo absoluto do real. Somos, portanto, obrigados a negociar com a incerteza”. Sempre.
O século XX teve de esmagar os determinismos e aceitar o imprevisível como parte do jogo natural: “De outra parte, tivemos de abandonar, felizmente, a ideia de que o universo era uma máquina determinista perfeita, pois quando se tem tal máquina pode-se prever o futuro. Laplace imaginava que um demônio poderia conhecer todos os acontecimentos do futuro e do passado. Na realidade, estamos num universo que comporta desde o princípio o  imprevisível. Desde o começo, existe calor, e o que é o calor? Agitação de partículas ou de moléculas cujos momentos particulares não podemos prever. Somente com sistemas fechados é possível estabelecer leis estatísticas gerais”. A guerra continua. A vida também.
Edgar Morin abraçou, sem medo, o risco: “A história de nosso universo sempre comportou a incerteza: colisões de partículas ou de galáxias, logo com destruições mútuas, bifurcações, riscos, etc. Quando se olha a história da Terra, vê-se que ela não foi linear; houve acidentes, cataclismos ecológicos como os que provocaram o desaparecimento dos dinossauros. Penso que vivemos num mundo de mistura de ordem e de desordem – sendo ordem tudo que diz respeito ao determinismo, à estabilidade, à regularidade, e desordem tudo o que é colisão, agitação, destruição, explosão, irregularidade. Devemos desenvolver estratégias de ação face a tal universo”. Ordem e desordem, certeza e incerteza, eis a unitas multiplex.
Numa das nossas tantas entrevistas, Morin debruçou-se sobre a mais óbvia das perguntas: o que é a complexidade? “Trata-se do pensamento que liga os conhecimentos separados. Por que ligar? Porque o conhecimento só é pertinente quando situado no seu contexto e na globalidade. Ligar, contextualizar e globalizar fazem parte da necessidade natural do conhecimento. Para saber ligar, entretanto, é preciso utilizar instrumentos de pensamento estranhos aos procedimentos científicos clássicos, que obedecem à causalidade linear simples, a uma lógica rígida e que obedecem sobretudo ao princípio de separação. O homem, por exemplo, que é ao mesmo tempo um ser físico, químico, cerebral, mental, espiritual, social e cultural, é estudado de maneira fragmentada: a física, a química, a biologia, o cérebro, o espírito, a cultura e a sociedade, a psicologia, etc. Ora, em realidade essa separação não nos permite de compreender a complexidade humana. O pensamento complexo reage contra essa situação, sem ser, contudo, apenas o contrário do pensamento simples, e integra os modos de pensar simples e complexos numa concepção mais rica. Trata-se da ‘dialógica’ do simples e do complexo, do separável e do não-separável, da ordem e da desordem, da ‘dialógica’ entre a lógica clássica e a transgressão lógica quando esta se impõe, ou antes entre a lógica clássica e a racionalidade aberta. Não se pode, portanto, aprender o pensamento complexo, sobretudo quando se tem a formação de um sistema reducionista, em um dia. A complexidade exige um novo e difícil aprendizado e a reforma do pensamento, a qual demanda a reforma da educação”. Essa reforma será uma revolução.
Relativizar implica colocar em relação o universal e o particular. Respeitar a diferença exige um comportamento complexo capaz de aceitar a união de opostos, mecanismos antagônicos e, ao mesmo tempo, complementares. Educar para o futuro passa por uma reforma de pensamento que valorize o pluralismo como convivência e equilíbrio de contrários. O grande perigo de tempos pragmáticos é a simplificação. Um exemplo de simplificação é a meritocracia, que põe em competição desiguais, por falta de mesmas oportunidades de preparação, como se fossem iguais. A meritocracia, nos termos que vem sendo praticada, reproduz as desigualdades do ponto de partida e funciona como um sistema injusto de hierarquia social. O mérito é um ideal  a ser buscado. A meritocracia é o efeito perverso desse ideal. Elimina a pluralidade, não relativiza os obstáculos e uniformiza diferentes como se fossem iguais. Nega a complexidade. JM

sexta-feira, julho 07, 2017

Perigo, perigo!


A Lava Jato corre perigo.
O perigo atende pelos nomes de PMDB, PSDB e PT.
A Lava Jato entrou em colapso quando transbordou.
Era para atingir só o petismo.
Sérgio Moro sabia disso e jamais pisou fora da área demarcada.
A operação, porém, foi além dele.
Ao chegar aos caciques do PMDB e especialmente do PSDB, sangrou demais.
A Lava Jato corre perigo.
O perigo atende pelos nomes de Ministério da Justiça e formalidades jurídicas.
A verdade exige a forma.
A forma passa por uma formalidade.
A formalidade é capaz de engolir seu conteúdo.
A lápide está pronta: aqui descansa a Lava Jato.
Os políticos não rezam por ela.
Preferem amaldiçoá-la.
Eis a única culpada pelos males que nos assolam(JM).

quinta-feira, julho 06, 2017

Quarto fechado para Geddel


Michel Temer vive entre o ser e o nada.
Só não sabe quem é o ser.
Na sua condição de homem livre, escolheu existir por meio de um atalho.
Instalado, por força certamente da sua essência, no poder, atirou-se ocaso com certa pressa.
A fotografia oficial da sua posse é um elogio ao código penal.
Depois desse instante de glória, Temer passou de Sartre a Camus: rola a sua pedra.
Todo dia um dos seus experimenta viver entre quatro paredes sem janelas nem liberdades.
Dois dos seus ex-ministros, Henrique Eduardo Alves e Geddel Vieira Lima, foram das cédulas às celas.
Romero Jucá sobrevive à luz do sol graças à obscuridade do seu mandato de senador.
Moreira Franco protege-se com sua capacidade de contradizer seu sobrenome.
A fotografia da posse é uma colcha retalhada pela polícia a cada mês.
Até o desconhecido estafeta do presidente, Rocha Loures, o homenzinho da mala, sentiu náuseas na prisão, de onde ainda não deveria ter saído, mas para onde todos os enredos o levam de volta.
O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, afirma que se deve seguir a narrativa.
Para ele, criminosos de alto escalão não assinam suas obras nem passam recibo.
Basta-lhes ser ghost writer. A noção de autoria já não os nobeliza.
Temer avança rapidamente do ser para o nada.
A Polícia Federal come o seu fígado com bicadas rapaces.
A águia do parlamento se arrasta como um réptil do deserto do executivo.
Vez ou outra, porém, tem arroubos de pássaro altivo: quer voar, reformar e tocar o sol.
Então ouve os gemidos dos seus amigos presidiários e cai prostrado à espera de um novo dia.
O poder corrompe. A corrupção empodera.
A existência precede a essência. Mas, no caso de Temer e dos seus, não a nega.
Aguardemos os próximos capítulos.
A corrupção é uma obra aberta.
O autor se diz morto.
Os seus personagens vivem à solta.
O protagonista tem ar de espectro.
Até quando será?
Quando sairá do nada para virar nota de rodapé na história?JM

quarta-feira, junho 21, 2017

Pessoas ou partidos?


      Emmanuel Macron surgiu quase do nada e ganhou, aos 39 anos de idade, a eleição presidencial francesa enterrando elefantes. Para isso, fundou um partido, “Em Marcha”, que até ontem não existia. Neste domingo, confirmou a maior vitória eleitoral legislativa das últimas décadas na Europa. Obteve 350 cadeiras, sobre 577, no parlamento. Pulverizou mastodontes como o Partido Socialista, que caiu de 284 deputados para 29. O que isso indica? O óbvio: cada vez mais se vota em pessoas e não em partidos. Qual é o problema? Por que se deveria privilegiar essas estruturas do século XIX em detrimento de homens e mulheres de carne e osso? Quem realmente, salvo militantes, confia no PMDB, no PT e no PSDB mais do que em algumas pessoas desses partidos? 57,4% dos eleitores franceses não foram votar. A renovação do parlamento chegou a 75%. São 224 mulheres na Assembleia Nacional.
O Brasil estuda mais uma reforma eleitoral. É só jogo de cena. Caciques partidários defendem voto em lista fechada. É assalto à mão armada ao direito de cada cidadão de escolher um nome e recusar os demais. Afirma-se que hoje, no sistema proporcional e com as coligações, o eleitor vota num candidato de esquerda e elege um de direita ou vice-versa. Acontece mesmo. A solução é simples: acabar com as coligações nas proporcionais. Ou optar pelo voto distrital. Elege-se quem fizer mais votos num distrito. Corre-se o risco de uma distorção e de eliminar as minorias do parlamento? Não há sistema perfeito.
Em todos sempre se perde alguma coisa.
As minorias podem trabalhar para virar maioria em alguma circunscrição. É a democracia.
Nada pode ser pior do que votar num e eleger outro ou ver o mais votado ser superado pelo menos votado graças ao sistema de cesta eleitoral baseado em quociente partidário. Partido é uma sinalização de que as pessoas nele reunidas comungam de certas ideias. Uma verdadeira democracia precisa aceitar candidaturas avulsas. O marxismo inventou o partido sem parte, o partido único acima do eleitor e do Estado. O capitalismo adapta-se até a ditaduras se for rentável. Os eleitores do século XXI indicam cada vez mais que gostam de pessoas com ideias votando numa mesma eleição em vários partidos. Podem se enganar, ser enganados, errar. Tem sido assim com os partidos. Entregar aos partidos brasileiros mais poder no momento em que eles apodrecem ao ar livre é uma ideia absurda. Uma ideia deles, evidente.
Lista fechada no Brasil significa eleger para sempre Romero Jucá, Renan Calheiros e até, certamente entusiasmados com uma nova regra do jogo tão generosa com o caciquismo, Carlos Lupi, Rui Falcão e todos os burocratas ou controladores de siglas. A Alemanha tem voto distrital misto. Inglaterra e França praticam o distrital. Todos se queixam um pouco. Onde está pior? Lá ou aqui? A lista fechada dispensa o eleitor de comparar nomes, de estudar biografias, de conhecer pessoas. Basta confiar na pizza entregue por seu partido. Macron faz pensar em Collor. Foi horrível. Os grandes partidos brasileiros posteriores não se comportaram muito melhor. Há petistas, claro, que se consideram vítimas de uma conspiração. Já o deputado Alceu Moreira acha que a conspiração é contra o reformista Michel Temer. Que coisa!JM

sábado, junho 17, 2017

Tiroteio!


Depois de falar sandices para cirurgiões plásticos, ‘Deusllagnol’ tem que ser convidado agora para abrir o congresso de psiquiatria.
DO CRIMINALISTA ANTONIO CARLOS DE ALMEIDA CASTRO, o Kakay, sobre Deltan Dallagnol debater a Lava Jato na 37ª Jornada Paulista de Cirurgia Plástica.

quinta-feira, junho 15, 2017

Ciro, presidente!


O deputado distrital Chico Vigilante (PT) afirmou que — caso o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva não seja o candidato do partido — ele avalia como positiva uma aliança com Ciro Gomes, do PDT, para 2018. "O PT tem nomes excelentes para serem candidatos a presidente da República, mas também poderá fazer uma aliança", disse o parlamentar em entrevista. "Eu, particularmente, caso o PT não tenha o Lula como candidato, tenho uma simpatia muito grande com a candidatura de Ciro Gomes, pelo que ele representa."
Políticos do PT, porém, temem que Ciro seja desagregador e possa dificultar a performance do partido, por isso o nome do pedetista sobe e desce nas bolsas de apostas. "Eu não sei se Ciro vai aglutinar o PT, mas vai dizer coisas que muita gente não tem coragem. Ele seria um grande presidente, vai enfrentar determinados setores deste país e está na hora de ouvir umas verdades", disse Vigilante. Alguns petistas temem que Lula não possa disputar no ano que vem por causa das investigações da Lava-Jato. Não é o caso de Vigilante, que, na entrevista, disse acreditar que o ex-presidente esteja na disputa. “Ele é o líder das pesquisas e nada foi provado contra ele.” No cenário local, Vigilante não crava um nome do PT. Ele deve concorrer à reeleição. "Duvido que alguém conheça Brasília mais do que eu", disse ele.

domingo, maio 07, 2017

Aposentadoria e novas regras

TIROTEIO
Manifestações, emendas de deputados da base do governo e o efeito Janot… O gato, digo, a reforma de Temer subiu no telhado.
DO DEPUTADO FEDERAL NILTO TATTO (PT-SP), sobre a série de acontecimentos recentes que, avalia, dificultam a aprovação das novas regras de aposentadoria.

sábado, maio 06, 2017

Advogado criminalista

A última sociedade que viveu na base do ‘like’ e do ‘unlike’ morreu no coliseu entre adagas, bigas e leões, condenada por um imperador.
DE TICIANO FIGUEIREDO, sobre as manifestações do coordenador da força-tarefa da Lava Jato, Deltan Dallagnol, nas redes sociais.

sexta-feira, maio 05, 2017

Nada mudou!


 Temer, quem diria, já detonou a reforma de FHC
O presidente Michel Temer (Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/11.04.2016/Agência Brasil)
"Vê-se que o aparelho de Estado está minado por todos os lados. É uma espécie de quinta-coluna permanente. Não há mais reserva de nada. Isso não é o governo, não. O Estado é que é assim. Como é que a gente reconstrói esse Estado tão apodrecido?" (Ex-presidente Fernando Henrique Cardoso na contra-capa do primeiro volume do seu livro Diários da Presidência, Companhia das Letras).
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FHC já lançou mais dois volumes desta coleção, mas até hoje não respondeu à pergunta sobre o Estado apodrecido reproduzida na epígrafe deste texto.
À luz do presente debate da reforma da Previdência, a leitura das memórias presidenciais do antigo sociólogo serve para mostrar que na política brasileira tudo muda para tudo continuar no mesmo lugar. Até as moscas são as mesmas.
No jantar de quarta-feira com a cúpula tucana, o presidente Michel Temer queixou-se do desgaste que vem sofrendo com as reformas e foi consolado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.
O ex lembrou que também tentou fazer um governo de reformas, mas teve oito anos para fazê-las, e agora Temer está sendo corajoso por tentar aprová-las com tão pouco tempo de mandato que lhe resta.
Só não sei se os dois se lembraram do que aconteceu em 1996, quando estavam em campos opostos.
No primeiro mandato de FHC, Michel Temer, já então cacique-mor do PMDB, era o relator do projeto de reforma previdenciária do governo enviado à Câmara.
Está no livro citado, um catatau de 929 páginas, que eu consegui ler até o fim:
"Na última hora, o Michel Temer mudou coisas muito importantes que havia combinado conosco, tornando a reforma previdenciária muito pouco eficaz para combater uma porção de abusos (...) A reforma da Previdência foi desfigurada, o Temer cedeu além de todos os limites".
Ou seja, tudo mais ou menos como está acontecendo agora, vinte e um anos depois _ e pelas mesmas razões.
Em comum, os abusos a que FHC se referia são os direitos adquiridos pelas corporações do funcionalismo público em todos os níveis, mais unidos do que nunca na luta pela manutenção dos seus privilégios na legislação previdenciária.
Estes eternos direitos adquiridos são na verdade privilégios adquiridos desde os tempos de dom Joãozinho no Império, os principais responsáveis pelos crescentes rombos nas contas da Previdência.
Assim como aconteceu esta semana, o projeto original do governo foi aprovado com muitas mudanças em primeiro turno na Câmara, mas acabou mutilado no final do caminho na votação final em plenário, o que levou FHC a desabafar:
"O Congresso não quer mesmo mudar. Vamos ter 30% do que queríamos. É pouquíssimo".
Quanto vai sobrar desta vez?
Para evitar que se repita com ele o que fez com FHC na sua fracassada tentativa de reforma da Previdência, Michel Temer agora chamou o ex-presidente e o alto comando do aliado PSDB para garantir o apoio do partido quando o atual projeto for a plenário, ainda sem data marcada.
Fiéis ao seu estilo, os tucanos juraram fidelidade, mas desde que o PMDB, o partido do governo, feche questão antes.
Como isso ainda não aconteceu, e o líder do PMDB no Senado, Renan Calheiros, faz franca oposição ao projeto, pode se repetir com Temer o mesmo que aconteceu com FHC, traído pela própria base aliada na maior derrota do seu governo.
No dia 6 de maio de 1998, faltou um voto para os 308 necessários para a aprovação da idade mínima (60 anos para homens e 55 para mulheres) nas regras permanentes da reforma, só para os trabalhadores da iniciativa privada.
Os jornais da época registram que FHC ficou à disposição durante todo o dia para conversar com parlamentares e montou uma tropa de choque com ministros e líderes partidários para garantir a aprovação.
Vejam quem estava lá: Paulo Maluf, então presidente do PPB (hoje PP), tentando convencer os dissidentes do seu partido; os ministros Eliseu Padilha (Transportes) e Renan Calheiros (Justiça).
"Vou ficar no ministério recebendo telefonemas e deputados", disse Padilha à Folha, ao deixar a Câmara pela manhã, enquanto Renan Calheiros despachava no gabinete do líder do PMDB.
Tenho ou não razão ao dizer que nem as moscas mudaram? Estão todos lá novamente, e o notório Eliseu Padilha hoje é o chefe da tropa de choque do governo Michel Temer na batalha pela aprovação da reforma. Só Renan desgarrou.
Ao final do jantar com os tucanos, Michel Temer informou que pretende levar a reforma da Previdência ao plenário da Câmara dentro de três semanas, em busca dos mesmos 308 votos que FHC não alcançou num mês de maio de quase duas décadas atrás.
O que mudou?RK

Tiroteio


O juiz está diante de um dilema humano-zoológico: são lágrimas de crocodilo, amargo arrependimento ou simples horror a barata?
DO DEPUTADO CHICO ALENCAR (PSOL-RJ), sobre o ex-assessor do governador Pezão que admitiu ter recebido propina, chorou e clamou por prisão domiciliar.

quinta-feira, maio 04, 2017

STF VERSUS MPF



Se a lei é uma só e deve ser igual para todos, tema do filme  que estão rodando em Curitiba, como explicar decisões tão díspares e mesmo antagônicas do Supremo Tribunal Federal em confronto aberto com o Ministério Público Federal?
Um juiz manda prender, outro manda soltar, o terceiro manda prender de novo _ e todos baseiam suas decisões nas mesmas leis. Como entender isso?
"Direito não é ciência exata, não é matemática, depende da interpretação de cada juiz", tentou me explicar um amigo advogado.
Sim, mas a se levar às últimas consequências este argumento então para que servem códigos e constituições?
Como agora cada um pode impor a sua própria lei nas diferentes instâncias da Justiça, a depender do réu e suas circunstâncias, o cidadão comum fica sem saber o que é certo e o que é errado.
Ganha quem gritar mais alto nas redes sociais e nos microfones dos plenários, tribunais e canais midiáticos, ou seja, impera a lei do mais forte.
Esta sensação de vale-tudo jurídico chegou ao auge na terça-feira com a decisão de mandar soltar o ex-ministro José Dirceu, preso desde agosto de 2015, e já condenado a 32 anos em dois processos, mas ainda não julgado em segunda instância.
Poucas horas antes do julgamento do pedido de habeas-corpus de Dirceu na 2ª Turma do STF, procuradores da Lava Jato em Curitiba apresentaram uma terceira denúncia contra o réu para justificar novo pedido de prisão, caso a decisão lhe fosse favorável.
Em Brasília, o ministro Gilmar Mendes reagiu logo na chegada ao tribunal: "É o rabo abanando o cachorro. Se eles imaginam que vão constranger o Supremo, o Supremo deixava de ser Supremo".
Por três votos a dois, o STF decidiu a favor de José Dirceu e a Lava Jato sofria sua quarta derrota em uma semana.
As prisões preventivas transformadas em permanentes, com condenações apenas em primeira instância, foram o principal argumento utilizado pelos ministros do STF para libertar José Dirceu e outros réus da Lava Jato.
Começava uma virulenta batalha verbal entre STF e MPF, com o tom subindo a cada nova declaração, nas praças conflagradas de Brasília e Curitiba.
"O que está acontecendo é a destruição lenta de uma investigação séria. Infelizmente, acreditam que a população não está mais atenta, talvez anestesiada pela extensão da corrupção. Esperamos que o período dele fora da prisão seja curto", reagiu o procurador Carlos Fernando Lima, um dos coordenadores da força-tarefa da Lava Jato.
Gilmar Mendes logo saiu em defesa do STF, lembrando que se trata da última instância do Judiciário:
"Creio que hoje o Tribunal está dando uma lição ao Brasil. Há pessoas que têm compreensão equivocada do seu papel. Não cabe a procurador da República pressionar, como não cabe a ninguém pressionar o Supremo Tribunal Federal, seja pela forma que quiser. É preciso respeitar as linhas básicas do Estado de Direito. Quando nós quebramos isso, nós estamos semeando o embrião do viés autoritário".
Em Curitiba, o procurador Deltan Dallagnol, principal porta-voz da força-tarefa, viu ameaças à continuidade da Operação Lava Jato:
"A liberdade de José Dirceu representa um grave risco à sociedade, tanto em razão da gravidade concreta dos crimes praticados, como em razão da reiteração dos crimes e ainda em função da influência que ele tem no sistema político-partidário".
Com a judicialização da política e a partidarização do Judiciário e do Ministério Público, que vai ficando cada vez mais evidente neste embate que dura faz três anos, as divergências já descambam para o lado pessoal, como mostrou Gilmar Mendes ao dar seu voto a favor da libertação de José Dirceu:
"São jovens que não têm a experiência institucional e a vivência institucional, e por isso fazem esse tipo de brincadeira. Se cedêssemos a este tipo de pressão, deixaríamos de ser supremos".
Resta saber agora o que vai acontecer com outros réus presos, que ainda não fizeram delações premiadas, como Antonio Palocci, Eduardo Cunha e Sérgio Cabral, também aguardando o julgamento dos seus pedidos de habeas-corpus.
Afinal, qual é a lei que está valendo?
Vida que segue. RK

terça-feira, janeiro 10, 2017

Matar mais?


Muita gente gostou da declaração de Bruno Júlio, então secretario nacional da juventude do governo Michel Temer. O peemedebista, provocado a falar sobre o horror nos presídios de Manaus, não se conteve: “Eu sou meio coxinha sobre isso. Sou filho de polícia, né? Tinha era de matar mais. Tinha de fazer uma chacina por semana”. Duas coisas chamam a atenção nessa fala: o seu conteúdo grotesco e a confirmação de que “coxinhas”, termo que se popularizou nas manifestações pelo impeachment de Dilma Rousseff, defendem alguns métodos expeditos de atuação.
É mais uma versão da filosofia segundo a qual “bandido bom é bandido morto”.
Ideias simples tendem a propagar posturas perigosamente simplórias. O Brasil vem despencando no abismo da simplificação fascista. Boa sociedade é aquela que pune justa e rigorosamente. Nas democracias, a punição é a privação da liberdade. Nada mais. Não estão previstas a tortura e as condições indignas de encarceramento. No caso do Brasil, nem a pena de morte. O país precisa de mais presídios? Talvez. Precisa mesmo é de mais julgamentos. Mais de 30% dos presidiários não têm condenação. Boa parte poderia estar livre. Gilmar Mendes, ministro do STF, que nada tem de revolucionário, defende a descriminalização das drogas.
A população carcerária com essa medida cairia drasticamente.
Só que esse tipo de olhar contraria o senso comum defendido pelos que aplaudiram Bruno Júlio. É o pessoal que olha bandido com olhar de bandido: olho por olho dente por dente. Dá para entender que o agredido sinta ódio do agressor. O Estado, porém, deve ser racional. A punição não é vingança. A declaração de Bruno Júlia é sintomática: revela o estado de exasperação da sociedade e o total desinteresse pelo Estado de Direito.
Matar mais e fazer uma chacina por semana não fará do Brasil um país melhor. O mundo dito civilizado está horrorizado com a situação prisional brasileira. O que fazem a Suécia, a Noruega, a Suíça e outros países assim para ter menos violência? Aplicam prisão perpétua por roubo de celular? Encarceram em sucursais do inferno? Imitam o presídio central de Porto Alegre? Praticam e aplaudem uma chacina por semana? Nomeiam secretários com ideias medievais? Entregam prisões para a administração de facções? Privatizam a gestão de presídios tornando-os mais caros por preso e ainda menos eficientes? Fazem da corrupção uma parceria público-privada a fundo perdido?
Bruno Júlio encarnou o pior do Brasil: a simplificação grosseira que passa por bom senso de “gente de bem”.
O homem comum guia-se por seus sentimentos.
O Estado deve pautar suas políticas pela razão. Bruno Júlio caiu. Já foi tarde. Enquanto declarações com as dele forem aplaudidas o Brasil continuará atolado no atraso. Se um turista, no Rio de Janeiro, sair da rota e entrar no imenso mundo da desigualdade, poderá, caso sobreviva, responder na volta: tem como dar certo desta maneira? Se o turista for sueco, proporá igualdade. Se for do time de Bruno Júlio, defenderá uma chacina por semana. Na bucha.
O Brasil precisa matar mais?
Não. Obviamente. O Brasil precisa é de futuro.
O nosso presente é o passado!Juremir Machado