quarta-feira, agosto 29, 2018

Visita acadêmica a Porto Alegre



      O programa de Pós-Graduação em Comunicação da PUCRS tem um acordo de cooperação com a Universidade Paul Valéry, Montpellier III. Todo ano um de nós vai para a França como professor convidado. Nossos colegas franceses também nos visitam regularmente para ministrar seminários ou dar palestras em nossos eventos. Compartilhamos pesquisas e publicações. Fazemos intercâmbio de mestrandos e doutorandos. Na semana passada, recebemos a visita do reitor, Patrick Gilli, e do vice-reitor, Philippe Joron, de Montpellier III. Tivemos várias atividades, do encontro como o reitor da PUCRS, Evilázio Teixeira, a uma reunião com docentes da Escola de Humanidades, até uma boa mesa de trabalho na Escola de Comunicação.
A Universidade de Montpellier foi fundada no século XIII. Depois de 1968, com a reforma resultante da grande agitação cultural e social daquela época, foi dividida em três partes. Atualmente, embora Paul Valéry continue a ser designada como Montpellier III, são apenas duas partes. No total, 71 mil alunos. Só Paul Valéry, de ciências humanas, tem 21 mil estudantes. Andamos com nossos visitantes por toda parte em Porto Alegre. Fomos jantar no Barranco e no Galpão Crioulo. Fechamos com um almoço no Gambrinus, no Mercado Público. A picanha e a tainha recheada fizeram sucesso absoluto. A efervescência da Cidade Baixa chamou a atenção. O Tecnopuc impressionou. O frio também. E o rodízio.
O sociólogo Philippe Joron já conhecia bem Porto Alegre. Gilli, historiador, especialista em Idade Média italiana, estava na sua primeira vez na capital gaúcha. De que falamos em todas essas andanças? De educação, pesquisa, tecnologia, cultura, especificidades nacionais, cortes de carne, universidades públicas e privadas, futebol (apresentei Romildo Bolzan, no Barranco, a Gilli) e política. Paul Valéry está apostando num projeto chamado “Humanidades digitais”. A ideia é explorar ao máximo as tecnologias a serviço das pessoas e das pesquisas em ciências humanas. Vivemos uma transição. Para onde vamos?
Antonio Hohlfeldt, nosso colega na Famecos e diretor do teatro São Pedro, nunca deixa de mostrar um pedaço do interior do Rio Grande do Sul para as visitas. Levou Gilli e Joron para ver um alambique em Ivoti. A chuva impediu que o passeio se alastrasse por Nova Petrópolis e talvez, num arroubo, pelos vinhedos e recantos da Serra. Na próxima, levo todo mundo a Palomas e, se duvidar, invadimos o Uruguai. Porto Alegre tem lugares que encantam estrangeiros e são ignorados pelos nativos. Por exemplo, a capela positivista da avenida João Pessoa.
Se algo de ruim acontecer com o destino do país, que ninguém está livre de uma derrapagem, hesito entre me exilar em Palomas, fundindo-me com a natureza e com o passado, ou fugir para Montpellier em busca do futuro. Não cheguei a tratar desta possibilidade com os nossos amigos, mas não posso descartá-la. Tem muita gente se mandando para Miami. Eu prefiro o sul da França. Tem sol, liberdade e história. Edgar Morin, aos 97 anos de idade, mudou-se para lá. É um bom sinal.JM

terça-feira, agosto 21, 2018

Trotskista


Se a última pesquisa do Ibope estiver certa, o que quase nunca acontece, O Rio Grande do Sul poderá ser considerado a meca mundial do trotskismo. Júlio Flores (PSTU) tem 4% das intenções de voto. Roberto Robaina (PSOL) chega a 2%. Juntos atingem incríveis 6%, o mesmo escore do pedetista Jairo Jorge. Como pode o russo Trotsky empatar em influência nos pampas gaúchos com Getúlio Vargas, João Goulart, Leonel Brizola e Alberto Pasqualini? Porto Alegre já era a capital mundial com o maior número de psicanalistas lacanianos por habitante.
Qual a relação entre esses dois aspectos? Não tenho a menor ideia. Deve existir certamente uma explicação escondida no inconsciente de cada um para esse duplo fenômeno. O Ibope ainda mostra José Ivo Sartori na liderança. Se na primeira eleição Sartori foi acusado de não apresentar programa de governo, agora, ao contrário, ele é bem claro: vai seguir o que vem fazendo. Em segundo lugar aparecem o tucano Eduardo Leite e o petista Miguel Rossetto. A hipótese de a esquerda ficar fora do segundo turno não está descartada. Um observador externo, depois de ouvir os discursos sobre interesse público, pode exclamar com paradoxal ingenuidade lúcida:
– Por que dois petistas ou dois esquerdistas do mesmo berço, Jairo Jorge e Miguel Rossetto, concorrem por partidos diferentes? Não seria melhor eles formarem uma única chapa que somasse e não dividisse?
Política é uma deliciosa mistura entre lógica de carreira individual, estratégia partidária e administração da coisa pública. Em 2016, os funcionários da prefeitura de Porto Alegre não quiseram votar, no segundo turno, em Sebastião Melo (PMDB). Ajudaram com isso a eleger aquele que já se anunciava como o pior adversário que poderiam encontrar, Nelson Marchezan Júnior. Um arrependido diz ter aprendido:
– No segundo turno, quando infelizmente não se tem o nosso candidato, se vota no menos pior para o interesse da gente.
Outro gato escaldado pretende se antecipar em tempos bicudos:
– Primeiro é preciso chegar ao segundo turno.
Segundo o Ibope, Lula lidera entre os gaúchos com 32%. Bolsonaro aparece em segundo lugar com 20%. Mas se Lula sai da corrida, como diz a piada por estar preso em outro compromisso, o capitão que promete tirar o Brasil da ONU comunista assume a dianteira com 23%. Conclusão: o eleitor é lulista. Não é petista. Em 1945, Eurico Gaspar Dutra só ganhou a eleição depois que o defenestrado Getúlio Vargas pronunciou o agora famoso “ele disse”. O que ele disse mesmo? Mandou votar em Dutra. Lula não terá o mesmo poder de transferência de votos? Não é só no Nordeste, se o Ibope não estiver mais uma vez errando, que Lula, mesmo encarcerado, seduz o eleitor. Por que mesmo? É bom responder.
Se balanços de governos e dados do IBGE não conseguirem explicar essa preferência, dada a subjetividade que caracteriza qualquer número, só um bom psicanalista talvez consiga ajudar o paciente, digo, o eleitor, a entender as suas escolhas. Será que os desembargadores do TRF-4 ficam aborrecidos? Somos um Estado cheio de mistérios. Bah!JM

quinta-feira, agosto 16, 2018

Homens de bem?


 João é um homem de bem.
É assim que ele se apresenta. Em cada conversa que tem, sempre encontra um jeito de se posicionar:
– Sou um homem de bem.
Nessa condição, João é um homem de convicções. Não leva desaforo para casa. Se tem debate, está dentro. De cara, mostra as suas armas:
– Bandido bom é bandido morto.
Pensar o contrário, do seu ponto de vista de homem de bem, é defender marginal, alimentar o crime e favorecer a impunidade.
– Tá com pena de bandido? Leva pra casa – diz todo dia.
Informado sobre os grandes temas que afligem a nação, João, como homem de bem, tem restrições às chamadas políticas sociais. Detona:
– Bolsa família é pra quem não gosta de trabalhar e busca uma teta pra mamar. Gente de bem quer emprego, não quer esmola de governo.
Liberal em economia e conservador em comportamento, João não se deixa impressionar por modernidades. Na sua cartilha tudo é claro:
– Politicamente correto é mimimi. Tomei muita surra do meu pai e não fiquei traumatizado. Sou um homem de bem por ter sido bem educado.
Se tem uma coisa que João não suporta é o que chama de vitimismo. Fica uma fera. Perde a compostura e fala até palavrão:
– Comigo casamento é homem com mulher e acabou, p… É uma lei da natureza. Fora disso é falta de vergonha. Qual o problema de chamar negão de negão e veado de veado? Não tira pedaço. Não sou racista nem homofóbico. Muito menos machista. Tenho amigos negros, minha mulher dá as cartas lá em casa e não saio ofendendo gays de graça. Mas também eles não precisam ficar esfregando na minha cara o que fazem.
Homem de bem, João se considera ponderado, nem de esquerda nem de direita, termos que considera ultrapassados, ferrenho crítico da corrupção, defensor do Estado mínimo, da redução da maioridade penal para 12 anos e da pena da morte para crimes hediondos. Segundo ele, cadeia não pode ser hotel. Condenado, afirma, tem mais é de sofrer.
– Se não quer viver em masmorra, é só andar na linha – diz.
Fã da ditadura militar, que chama de revolução redentora, João vem dedicando seu tempo a combater a ideologia de gênero e a defender a escola sem partido. Ele nunca teme polêmicas. Divide todas as bolas:
– Estão debochando dessa história de URSAL, não é? Era o que os idiotas de esquerdas queriam implantar. A URSAL é uma grande ameaça à liberdade, a nova cara do comunismo. Falam em ditadura no Brasil. Quando isso aconteceu? Eu não vi. Só subversivo é que foi preso.
O ídolo de João é Donald Trump, que considera a maior vítima atual do esquerdismo da mídia internacional, essa imprensa dominada por vermelhos ou melancias – verdes por fora e vermelhos por dentro. O que João mais odeia na vida? Ideologias. Ele se vê como um pragmático, neutro. Normalmente João não tem dúvidas sobre coisa alguma. Ter certezas faz parte da sua personalidade sem fissuras. Só fracos duvidam. Nos últimos dias, porém, sente-se inquieto, dividido. Não sabe mais se vota em Jair Bolsonaro ou se aposta no Cabo Daciolo.
– Sou um homem de bem. Quero o melhor para o Brasil – explica. JM

quinta-feira, agosto 09, 2018

Gaúcho (a) ?


  Que o Rio Grande do Sul gosta de política ninguém duvida. Produzimos o maior de todos até hoje: Getúlio Vargas. O trabalhismo gaúcho deu ao Brasil também João Goulart e Leonel Brizola. Durante a ditadura midiático-civil-militar, entregamos três ditadores genuinamente gaúchos e demos formação a outro. Em 2018, poderemos oferecer mais um vice-presidente da República ao país. Ana Amélia Lemos, General Mourão e Germano Rigotto já estão na disputa.
Manuela será vice de Lula ou de  Fernando Haddad.
Ana Amélia tem grandes chances de ganhar a sua aposta. Rigotto concorre na chapa do azarão Henrique Meirelles. Alckmin e Ana Amélia terão 44% do tempo de propaganda de rádio e televisão: cinco minutos trinta e dois segundos por bloco. Meirelles e Rigotto ficarão com 15% do tempo disponível, um minuto e cinquenta e quatro segundos, quase o mesmo de Lula, ou do seu candidato, que terá dois minutos e cinco segundos. Jair Bolsonaro contará com sete segundos no bloco principal e uma inserção a cada três dias. Tempo de rádio e tevê conta muito. Dizer o contrário é brincar com a inteligência alheia. Partidos fazem qualquer aliança justamente para aumentar o espaço de propaganda.
O que levou o Rio Grande do Sul a se tornar o Estado dos vices? Vários componentes: a biografia dos convidados feita de honestidade, visibilidade e consistência eleitoral. Homens querem mulheres para atender o quesito gênero. Candidatos do Sudeste tendem a sonhar com os vices do Nordeste. O Sul tornou-se, porém, atraente na medida em que é fundamental neutralizar a força de Bolsonaro na região. Rigotto já tinha desistido de participar do jogo eleitoral deste ano. Ensaiou concorrer ao Senado. Desistiu quando não sentiu firmeza no MDB. Queria condições generosas para ganhar. Ser vice de Meirelles reacendeu o seu apetite pela corrida eleitoral. Vai passar dois meses na vitrine.
Terá, claro, de ajudar Meirelles a defender o legado do esquecido Michel Temer (onde anda?), o mais impopular presidente da história do Brasil. Ana Amélia enfrentará a ira dos eleitores do seu partido, o PP, apaixonados por Bolsonaro. Nas redes sociais, a senadora vem sendo trucidada pelos adeptos do candidato do PSL. Já foi chamada de traidora. No segundo turno, salvo se der Bolsonaro versus Alckmin, estarão todos no mesmo barco. Imaginemos um cenário: Haddad contra Bolsonaro no segundo turno. Com quem ficará Germano Rigotto? Ana Amélia não parece ter opção. Ou será chamada de duplamente traidora. Seja como for, o Rio Grande do Sul parece bem posicionado.
Manuela precisará de paciência. Alguns dias podem parecer anos. Lula escolheu a gaúcha como vice dele ou do seu indicado. Na primeira hipótese, legalmente improvável, Manuela entrará como favorita. Na segunda, vai para o jogo duro em condições de ganhar se a partida for contra Bolsonaro e Mourão. Poderemos ter Manuela versus Ana Amélia na decisão. No Brasil, vice assume. O ideal é que não conspire para isso. Com vice sempre há algo a Temer?JM

sábado, julho 28, 2018

Galeano e as mulheres


Essas mulheres

      Em “Mulheres” (L&PM), livro de Eduardo Galeano, desfilam personagens femininas rebeldes, anônimas, famosas, desconcertantes, históricas, apaixonantes, assustadoras, tudo. Lá estão Isadora Duncan, Frida Kahlo, Sarah Bernhardt, Carmen Miranda, Josephine Baker, Emily Dickinson, Joana, a louca, Chiquinha Gonzaga, Camille Claudel, as mães da Praça de Maio, chamadas também de loucas, Louise Michel, Teresa de Ávila, Evita Perón, Marilyn Monroe e tantas outras que fazem parte da História ou que surgem em histórias que ainda assombram os machos.
As índias kunas do Panamá foram perseguidas para que abandonassem seus costumes selvagens e adotassem os modos de vida ocidentais civilizados e racionais. Assim se decidiu: “As índias kunas nunca mais pintarão o nariz, e sim as faces, e já não usarão argolas no nariz, e sim nas orelhas. E já não vestirão molas, e sim vestidos civilizados”. Está tudo aí nessa breve aula de antropologia. Onde já se viu pintar o nariz e não os lábios? Onde já viu pendurar enfeites no nariz e não nas orelhas? Onde já se viu ter a própria religião?
Galeano fez parte do Tribunal Internacional que, em Estocolmo, em 1981, tratou da invasão do Afeganistão pelas tropas soviéticas. Ele e seus colegas ouviram a queixa de um ancião muçulmano: “Os comunistas desonraram nossas filhas! Ensinaram elas a ler e escrever”. Emma Goldman, a anarquista, foi mandada embora dos Estados Unidos em 1919, considerada “estrangeira de alta periculosidade”: opunha-se ao serviço militar obrigatório, estimulava greves e difundia métodos contraceptivos pois entendia que sexo não era só para procriação. Além disso, fazia frases como esta: “Se o voto mudasse alguma coisa, seria ilegal”. Ou esta: “Todas as guerras são guerras entre ladrões demasiado covardes para lutar, que mandam outros morrer por eles”.
O mundo era dos homens e eles pretendiam que assim fosse para sempre. Não contavam com a resistências das mulheres. Nellie Bly decidiu que jornalismo era coisa de mulher. Deu a volta ao mundo em 72 dias, em 1889, inspirando-se na ficção de Jules Verne, fazendo reportagens. Nunca mais parou: “Para escrever sobre as fábricas, trabalhou como operária. Para escrever sobre as prisões, se fez prender por roubo. Para escrever sobre os manicômios, simulou loucura, e atuou tão bem que os médicos a declararam louca de pedra, e assim conseguiu denunciar os tratamentos psiquiátricos que padeceu, capazes de enlouquecer qualquer um”. Editores queriam que ela escrevesse sobre moda. Ela preferia falar das condições do trabalho de operárias.
Foi chamada de puta. Mata Hari é a mais famosa espiã. Deitava-se com uns e vendia seus segredos a outros. Foi condenada à morte. Atirou beijos para o pelotão de fuzilamento: “Oito dos doze soldados erraram o tiro”. A equatoriana Manuela desafiou um tenente para um duelo e o humilhou. Sem vendas nos olhos diante do pelotão de fuzilamento, perguntada se tinha algo a declarar, respondeu com lacônica altivez: “Manapi”. Nada. Apenas isso. Eduardo Galeano rende a sua homenagem às mulheres em textos curtos, até mesmo muito curtos: “Eu adormeço às margens de uma mulher: eu adormeço às margens de um abismo”. Idem.JM

terça-feira, julho 17, 2018

Categoria do Direito


Consequencialismo ideológico

      Um dos meus passatempos favoritos é criar categorias, que é como são chamados os rótulos ou etiquetas quando postulam alguma legitimidade conceitual ou servem para uma conversa de happy hour. Vou arriscar algo profundamente inédito: o Brasil está dividido em dois campos. Adeptos do consenquencialismo ideológico versus defensores do principialismo literal da lei. Bonito, não? O consequencialismo é uma corrente filosófica e futebolística. Diz basicamente o seguinte: o que conta é o resultado. Valoriza mais a consequência do que a intenção. O consequencialismo ideológico aplicado ao mundo jurídico consegue a façanha de aliar intenção e resultado. É como a quadratura do círculo.
Se a literalidade da lei atrapalha a boa intenção e o resultado esperado, o consequencialista ideológico aceita interpretações que reescrevam o texto legal. Exemplo: se a aplicação literal da lei favorece a impunidade, pelo excesso de recursos, o consequencialista ideológico defende que a lei não seja aplicada literalmente. A disputa em torno da prisão depois da condenação em segunda instância ou após o trânsito em julgado opõe consequencialistas ideológicos e principialistas literais, entre os quais eu me incluo. O consequencialista não tem paciência com a literalidade da lei. Mudar a Constituição por emendas difíceis de aprovar ou fazer outra Carta Magna é algo incompatível com a sua ansiedade. Prefere os atalhos.
O consequencialismo ideológico assume várias facetas: consequencialismo punitivista, demagógico, midiático, elitista ou populista. O punivista é o mais feroz e militante. Se a lei dificulta a punição, que seja desrespeitada. Por que consequencialismo ideológico? Porque os adeptos admitem a violação da lei quando isso atinge os seus inimigos de ideologia. Quando ferra os seus amigos, exigem o cumprimento literal do ordenamento legal. O consequencialista ideológico é um legalista bissexto. Não lhe interessam os princípios, mas só os fins. A todo momento profere a sua sentença preferida:
– Se a intenção é combater a impunidade o que interessa é o resultado.
Tenho sido consequencialista em futebol e principialista em direito. Consequencialistas ideológicos podem ser de direita ou de esquerda. Vivem em contradição. Num dia amam Gilmar Mendes e no outro o odeiam. Em geral, detestam os chamados garantistas, pois estes tendem a seguir certos princípios, salvo quando a aplicação de princípios serve para proteger algum amigo ou interesse pessoal. Os petistas eram consequencialistas antes do mensalão e do petrolão. Viraram garantistas. A direita era garantista antes do PT chegar ao poder. Hoje é consequencialista de carteirinha. A Lava Jato é consequencialista por princípio. O tucanato é garantista com Aécio e consequencialita com Lula. Ministros consequencialistas do STF são heróis da mídia atualmente. Os garantistas fazem papel de vilões.
A mídia é consequencialista por princípio ideológico e impaciência.
Qual a consequência disso? O triunfo da contradição. JM

sábado, junho 02, 2018

Ensaio sobre a crise



Estamos em crise ou nunca vivemos de outra maneira? As narrativas históricas privilegiam as crises. No caso brasileiro, nossas melhores, ou piores, crises são marcadas por anos: 1817, 1822, 1831, 1835-1845, 1888, 1889, 1893-1895, 1896-1897, 1912, 1922, 1924, 1930, 1937, 1945, 1954, 1964, 1989, 2016, 2018. Pulei vários anos para não ocupar todo o espaço com números. Cada crise tem seu herói, seu culpado, seu pretexto, sua duração e sua incompletude. Nunca saímos das crises. Nem tentamos asfixiá-las. Ficamos satisfeitos em driblá-las. Como solução para a crise atual o governo propôs segurar o preço do diesel por dois meses. No meio desta semana, aumentou a gasolina.
Como pode se superar uma crise com uma medida destinada a resolver o problema gerador da ruptura por dois meses? Nem Einstein entenderia a relatividade do nosso conceito de tempo. A União Soviética desapareceu deixando Putin como vestígio de uma era glacial revoluta. A China tornou-se capitalismo de Estado ou socialismo de mercado conforme as variações da bolsa e as necessidades repressivas. Cuba é um museu a céu aberto ou uma favela no Caribe. A Coreia do Norte esconde-se do mundo para não revelar seu anacronismo nem o peso do grande líder. No Brasil, apesar disso e de outros sinais de mutação universal, digladiam-se “comunistas” e “anticomunistas”. Talvez porque o capitalismo da ponte para o futuro tenha gosto amargo de passado.
Em alguns lugares, ao menos, as crises produzem grandes obras literárias ou cinematográficas. Por aqui, nem isso. Nossa literatura não consegue passar do estado germinal ao da crise. O nosso cinema é tão incipiente que não chega ao estado de crise, pois isso exigiria alguma ousadia e o rompimento com certos hábitos. As nossas crises culturais mais recentes foram a Semana da Arte Moderna de 1922 e o Cinema Novo. O nosso escritor mais moderno ainda é Machado de Assis. Cada vez que estamos entediados derrubamos um presidente da República e estamos conversados. O resto é história. Já temos o que pesquisar.
A crise de 2018 segue o modelo clássico. É uma crise de deslocamento. Na Europa já se estuda a criação de um carro capaz de ler os pensamentos do motorista e de travar as suas ações deletérias. Trabalha-se também na construção de carros voadores sem pilotos. O nosso problema é um pouco mais complicado: estacionamos no tempo. Como não resolvemos a questão da desigualdade, enfrentada pelos franceses em 1789 e 1848, tentamos erguer pontes para veículos engarrafados. Quanto mais petróleo produzimos, ou somos capazes de produzir, mais caro custa o nosso combustível por não termos tecnologia para refinar o óleo pesado que extraímos das entranhas da terra. Enquanto outros países correm para dar saltos tecnológicos, apostando numa velha ideia de emancipação, nós persistimos na cômoda postura de entregar aos outros o que poderíamos fazer com nossas próprias mão e técnicas.
O nosso lema é orgulhosamente este: é mais barato ser dependente. Fechar as portas para o exterior seria patético. Escancará-las dá no que dá. Enfrentam-se duas ideologias: uma quer melhorar o Estado piorando a sociedade; a outra, faz o oposto. O mais curioso é descobrir que as duas possibilidades podem coabitar: Dilma e Temer na mesma chapa. Algo como, dispensadas as proporções, Rosa Luxemburgo e Ronald Reagan fazendo parceria eleitoral. O que pode um ovo desses gerar: Jair Bolsonaro ou Geraldo Alckmin? No país da polarização, ganha quem se fingir de moderado. Ou o ovo quebrou?
Como explicar aos europeus quadradinhos que Lula ganha em qualquer cenário das pesquisas ao mesmo tempo em que a maioria dos entrevistados acha justa a sua prisão? A crise segue a nossa lógica singular: Pedro Parente assumiu a Petrobrás. Tratava-se de um tecnocrata insosso e arrogante. Que armas ele já usava? Quantas batalhas já vencera? Quantos louros carregava no seu peito de guerreiro condecorado? Ninguém sabe. Ele adotou uma nova política de preços para o combustível. Essa escolha levou a uma greve que parou o país e o devolveu aos delírios de 1964. Demitiu-se o sujeito? Não. Garantiu-se que a sua política não seria alterada. Conclusão: estamos em crise por não cortarmos o mal pela raiz. Não sabemos extrair a raiz quadrada do mal. Não colou. Parente foi convidado a pedir para sair.
Um país que não tem uma obra-prima literária ou cinematográfica sobre sua eterna crise está fadado a viver em crise. Falta-lhe capacidade de síntese e de reflexão. Em “A Fogueira das vaidades”, Tom Wolfe escreveu que os procuradores do Bronx sonhavam com o “grande réu branco”. Com o que sonhavam os nossos? Com o que sonham escritores e cineastas brasileiros? Quando eu leio os mais jovens, concluo: com o próprio umbigo, que chamam de autoficção. Eles se veem na Academia Brasileira de Letras com José Sarney e Paulo Coelho. Quando leio os mais velhos, enterneço-me: eles sonham com o passado e com a morte. Ninguém sonha com a crise que nos devora e constitui. Eis o busílis.JM

terça-feira, maio 01, 2018

CLT sem cara


O que o trabalhador brasileiro pode comemorar neste 1º de maio? Michel Temer prometeu uma reforma trabalhista que diminuiria o desemprego. O presidente comprometeu-se a vetar alguns artigos medievais. Não o fez. Emitiu uma Medida Provisória corretiva, que caducou sem ser votada no parlamento. O “melhor” ficou bem pior. Está valendo lactante trabalhar em ambiente insalubre. Antes da aprovação da reforma, toda noite um especialista garantia que só a mudança da CLT criaria empregos. No mesmo dia da vitória do seu campo ele surgiu aceso para afirmar que não se deveria esperar emprego a curto prazo. Que cara de pau!  Um monumento.
Parte da mídia alardeou uma milagrosa melhora da economia. O país respirava. Dias melhores sorriam para os assalariados. O mercado de trabalho não ficou sabendo. Manchete de O Globo da última sexta-feira: “Desemprego sobe a 13,1% em março e atinge 13,7 milhões de pessoas”. UOL Economia: “Desemprego vai a 13,1% e é o maior desde maio; 13,7 milhões não têm emprego”. Estadão: “Desemprego sobe e analistas pioram projeções para o ano”. O mago Henrique Meirelles terá assunto para explicar na sua campanha à presidência da República. Poderá ensinar como melhorar a economia aumentando o desemprego.
Em janeiro, Michel Temer ainda bravateava para júbilo de O Globo: “Em busca de melhorar sua imagem, o presidente Michel Temer espera que a melhora da economia leve a taxa de desemprego neste ano a um dígito, terminando 2018 abaixo dos 10%”. O presidente pode alegar que ainda tem oito meses para atingir a sua meta. No auge do otimismo, tudo era permitido, até acreditar no pensamento mágico do ministro banqueiro: “Segundo a equipe de Temer, a taxa de desemprego em 2018 pode fechar o ano um pouco acima de 9%, principalmente se forem confirmadas as previsões do ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, de criação de 2,5 milhões de empregos durante o atual exercício”. As previsões de Meirelles só afundam.
As preocupações de Michel Temer talvez já sejam outras: saber onde vai morar depois do fim do seu curto e nebuloso reinado. Em São Paulo ou em Curitiba? A Folha de S. Paulo, num momento sincerona, destacou que a “recuperação do trabalho” no governo no Temer contabilizava “bico” como emprego: “Sob Temer, ‘recuperação’ do mercado de trabalho se dá com informalidade e desemprego recorde. Média anual de desempregados dobrou na atual gestão e registra maior taxa da série histórica. Em 12 meses, país criou vagas, mas nenhuma com carteira assinada”. A mídia sabe que não pode esticar demais a corda mesmo quando gostaria tanto de fazer isso. Michel Temer já era. Mas ainda causará estragos por alguns meses.
O trabalhador pode comemorar que a reforma da Previdência emperrou. Quando a mídia ultraliberal diz que a Previdência é deficitária omite que a Seguridade Social é composta por Saúde, Assistência Social e Previdência. Omite também que o bolo de recursos deve vir de um tripé: empregador, empregado e governo (por meios de várias contribuições). Para forçar o déficit, retira-se o governo como parte contributiva e não se fala que o mesmo desvia dinheiro da cesta da seguridade social por meio de um mecanismo chamado DRU, aumentado por Michel Temer, para outros fins. Enfim, na medida do (im)possível, feliz dia trabalho. JM

sexta-feira, abril 27, 2018

O inocente Rocha


Rocha Loures, o homem da mala, declarou em depoimento que não sabia o que estava carregando. Assessor do presidente da República, ele protagonizou uma das cenas mais emblemáticas dos tempos atuais: a corrida com uma mala cheia de dinheiro. Um trote ansioso e culpado. Fico imaginando entrevistas com o inocente carregador da mala.
– O senhor não sabia o que estava levando?
– Uma mala.
– Mas não sabia o que tinha dentro dela?
– A mala não era minha.
– E daí?
– Não abro mala dos outros.
A inocência de Rocha Mala chama a atenção do mundo. Como ele pode ter sido tão “ingênuo” a ponto de carregar uma mala com meio milhão de reais sem ao menos desconfiar do que estava puxando a trote.
– Se o senhor não sabia que tinha dinheiro na mala, como está afirmando diante de nós, por que estava correndo daquele jeito?
– Não sei correr de outro jeito.
– Certo, mas para que correr?
– Para ir mais rápido.
– Por que a pressa?
– Para guardar a mala. É perigoso andar de noite na rua com uma mala.
A argumentação de Loures tem lógica, uma lógica singular, sinuosa. Ele, por ser muito educado e prestativo, prontificou-se a transportar e guardar uma mala sem tomar o cuidado de informar-se sobre o seu conteúdo. O destinatário também não era do seu interesse.
– Não sou carteiro.
– Por que então aceitou levar a mala?
– Porque me pediram.
– Não disseram para quem era a mala?
– Não perguntei. Não me meto nas malas dos outros.
Lembrado de uma conversa telefônica na qual, ao ser informado de que receberia R$ 500 mil, teria dito “tá”, Rocha Loures protesta:
– Não digo “tá”. Sempre falo “está”.
– Mas é a sua voz?
– Dizem que é a minha voz.
Inocente e ingênuo, Rocha Loures pode entrar para a galeria dos personagens mais tolinhos da história do Brasil. Imagino a sua tese:
– Sou apenas discreto.
– Um discreto amigo do presidente?
– Não sou amigo dele. Fui seu assessor.
– O senhor será para sempre o homem da mala.
– Não é justo. Só fiz um favor a um conhecido.
Num mundo de cinismo, a inocência de Rocha Loures é comovente. Já não existem muitos homens dispostos a trotear com uma mala, desconhecendo seu conteúdo, apenas para ser gentil com alguém. Loures pode ser um exemplo de desapego, desinteresse, amizade e gentileza. Com tanta inocência e ingenuidade, será absolvido? É o homem do ano.JM

terça-feira, abril 10, 2018

Isento, imparcial e isentão!


Blogueiro vive às voltas com a reação dos leitores. É o seu trabalho. Duro mesmo é quando não há reação. Não há dia em que colunista não seja atingido por alguma bala perdida. O termo que colunista mais lê e ouve é isenção. Um senhor me parou na rua. Não é a primeira vez que isso me acontece. Fiquei sobre a faixa de segurança, inseguro com a aproximação de carros que pareciam me ver como alvo. Um pouco mais e eu me veria como vítima de uma conspiração sobre rodas.
– Tenta ser isento uma vez na vida, cara. Tu consegues, vai.
– De que o senhor está falando?
– Não te faz, cara.
– Não estou me fazendo. É tanta coisa.
– Estou falando do teu preconceito contra o Bolsonaro.
Agradeci e tratei de me salvar. Atravessei com vida. Na outra margem, parei para consultar mensagens no celular. Não resisto. Quanto mais apressado estou, mais tempo perco tentando antecipar respostas. Um homem de barba branca me interpelou com a sutileza do Carlos Marun quando sai em defesa do seu amado e idolatrado presidente Michel:
– Para de fazer o jogo da direita, tchê. Seja isento!
– Achas isso mesmo? – ousei indagar.
– Sempre acha um jeito de ferrar o Lula para agradar os fascistas. Elogios aguados não nos enganam. Sabemos bem qual é o teu lado.
Acelerei o passo. Só teria uma boa resposta para essa acusação em uma semana. Sou lento. As minhas melhores respostas sempre chegam antes ou depois das críticas. Jamais coincidem com o instante em que sou alvejado. Avancei. O mar não estava para peixe de aquário. Dobrei uma esquina já bem mais reflexivo. Tudo me faz analisar a natureza humana. Uma senhora elegante, de grandes olhos negros, me interceptou:
– Hoje o senhor falou tudo o que penso. Parabéns pela isenção – disse.
Fiz-lhe um agradecimento cheio de imparcialidade. Consigo ser conciso e preciso quando elogiado com tanta isenção. Segui. Aí parei numa banca de jornais, algo que nunca faço. Um guri me lascou esta:
– Para de tentar ser isento. Isso não existe. Isenção é mito.
Disse-lhe que pensaria na sua aguda observação. Usei a palavra “aguda”. Juro. Foi a primeira vez. O guri sorriu altivo. O celular suspirou comovido ou encantado com a minha neutralidade. Um recado me chamou a atenção por estar todo em imponentes letras maiúsculas:
– SAI DE CIMA DO MURO, ISENTÃO!
É a mais terrível categoria de acusação do momento. Não ser isento é grave. Ser isentão é mais grave. Equivale a covardia. Fiquei ensimesmado. Um senhor com ar de advogado tratou de me consolar:
– Não dá bola. O importante não é ser isento, mas ser imparcial.
Respirei aliviado. Estava tudo mais claro. Arrisquei:
– Qual a diferença?
– Toda.
– Qual mesma?
– Não percebe?
– Não.
– Pelo jeito está te faltando objetividade.
Alguém tem mostrado objetividade em relação a alguma coisa?
Paulo Maluf, ancião de 86 anos, doente, com trombose e metástase, deve ficar em casa quando sair do hospital. Se a justiçar tarda e falha, não deve se tornar desumana para corrigir o rumo.JM

sexta-feira, abril 06, 2018

Justiça ou vingança das elites?


      Edson Fachin votou burocraticamente. Defendeu-se da pecha de punitivista. Gilmar Mendes usou o fígado. Atacou a mídia, mudou de posição com uma justificava pífia e jogou para o STJ a batata quente de decidir sobre o momento da prisão de Lula. Alexandre de Moraes, o homem de Michel Temer no STF, revelou que é ruim de retórica. Luís Roberto Barroso teve momentos brilhantes jogando para a torcida. Mostrou a injustiça do sistema jurídico brasileiro. Assumiu, usando o conceito de mutação, que quando algo muda e a Constituição não acompanha, o Supremo Tribunal Federal deve reinterpretá-la. Colocou o STF acima da Carta Magna. Justificou o chamado ativismo judicial.
Sofismou ao cruzar dois incisos do artigo 5º da CF, o LVII, que diz que “ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória”, e o LXI, “ninguém será preso senão em flagrante delito ou por ordem escrita e fundamentada de autoridade judiciária competente, salvo nos casos de transgressão militar ou crime propriamente militar, definidos em lei”. O artigo 283 do Código de Processo Penal ajudou a iluminar esse ilusório conflito: “Ninguém poderá ser preso senão em flagrante delito ou por ordem escrita e fundamentada da autoridade judiciária competente, em decorrência de sentença condenatória transitada em julgado ou, no curso da investigação ou do processo, em virtude de prisão temporária ou prisão preventiva”. Esse nexo causal, “em decorrência”, não foi considerado.
Barroso fez crer que o inciso LXI anula o LVII. Na verdade, complementa-o. Depois do trânsito em julgado a prisão se dará por ordem escrita de juiz. Rosa Weber votou contra as suas convicções para não ter de sair da zona de conforto. Luís Fux repetiu a fakenews anteriormente desmentida de que só o Brasil garante a presunção de inocência até o trânsito em julgado. Toffoli exibiu sua fragilidade intelectual. Ricardo Lewandowski foi claro, simples e sólido. Marco Aurélio Mello e Celso de Melo pulverizaram sofismas dos colegas. Pelo ativismo judicial, se está difícil fazer a prova, condena-se sem ela. Se a justiça é lenta para julgar os recursos, prende-se antes. Marco Aurélio botou o dedo na ferida: não se pode avançar sobre garantias individuais por que a justiça não entrega o serviço devido ao país.
Carmen Lúcia escolheu o caminho mais fácil. Dez ministros votaram uma coisa, a regra do jogo. A ministra Rosa Weber votou o caso concreto do jogo mesmo afirmando discordar da regra, que nada a impedia de analisar. Ao não querer julgar a regra do jogo acabou por confirmá-la sendo, de verdade, o fator de desempate. O STF está tão dividido que Rosa Weber votou de um jeito acreditando em outro. No confronto entre ativistas punitivistas e garantistas, os primeiros ganharam por uma manobra de quem faz pauta: em vez de julgar a regra do jogo, cuja validade está em discussão por interpelação de duas entidades, a presidente da casa deu um cavalo de pau. Não vai demorar para que a regra do jogo seja julgada. Talvez até o final do ano. E a prisão de Lula? Eu tinha certeza de que o TRF-4 e Sérgio Moro não perderiam um segundo. Ninguém deixa para levantar o troféu uma semana depois da vitória.
A história, mais lenta do que a justiça, exceto no caso Lula, julgará se foi uma vingança das elites contra o retirante, contra o intruso no ninho dos doutores, ou o começo de um novo tempo de imparcialidade.
Lula na cadeia. Aécio no Senado. Michel Temer e seus amigos no poder. Os historiadores terão muito trabalho.JM

sexta-feira, março 23, 2018

Mulheres e caminhos


Quatro mulheres, quatro caminhos

      Marielle Franco, Marília Vieira, Débora Seabra e Carmen Lúcia, quatro mulheres, quatro universos, quatro destinos, quatro Brasis. O que as aproxima e separa? O que nos faz pensar em todas elas?
Terá a desembargadora Marília de Castro Neves Vieira sentido inveja de Marielle Franco? Cariocas, as duas ficaram conhecidas internacionalmente quase ao mesmo tempo. Marielle foi assassinada covardamente. Marília tentou assassinar a reputação da vereadora morta. Negra, favelada, militante de esquerda, lésbica, Marielle vem sendo elogiada por coronéis ex-comandantes da Polícia Militar do Rio de Janeiro pelo seu trabalho de ajuda às famílias de policiais mortos em atividade.
Magistrada, integrante do topo da pirâmide social, rica, branca, esnobe, Marília despejou o seu precipitado reacionarismo em rede social obtendo imediatamente o pior tipo de fama, a fama da infâmia: “A questão é que a tal Marielle não era apenas uma ‘lutadora’; ela estava engajada com bandidos! Foi eleita pelo Comando Vermelho e descumpriu ‘compromissos’ assumidos com seus apoiadores. Qualquer outra coisa diversa é mimimi da esquerda tentando agregar valor a um cadáver tão comum quanto qualquer outro”. Tudo falso. Fakenews para trabalho de conclusão de curso em ciências sociais.
A memória de Marielle não para de ser honrada. A toga de Marília não para de ser desonrada.
Depois dos seus 15 minutos de fama infame ela atacou outra vez produzindo novas vítimas com o seu julgamento preconceituoso e tão letal quanto uma bala perdida: “Voltando para a casa e, porque vivemos em uma democracia, no rádio a única opção é a Voz do Brasil… Well, eis que senão quando, ouço que o Brasil é o primeiro em algumas coisas!!! Apuro os ouvidos e ouço a pérola: o Brasil é o primeiro país a ter uma professora portadora de síndrome de down!!!. Poxa, pensei, legal, são os programas de inclusão social…Aí me perguntei: o que será que essa professora ensina a quem??? Esperem um momento que eu fui ali me matar e já volto, tá?” A primeira reação de qualquer um diante desse despautério não é elegante. Algo do tipo “não se preocupe em voltar”.
Elegante e precisa foi a resposta da professora Débora Seabra à desembargadora. “Não quero bater boca com você! Só quero dizer que tenho síndrome de Down e sou professora auxiliar de crianças em uma escola de Natal (RN) (…) Eu ensino muitas coisas para as crianças. A principal é que elas sejam educadas, tenham respeito pelas outras, aceitem as diferenças de cada uma, ajudem a quem precisa mais (…) O que eu acho mais importante de tudo isso é ensinar a incluir as crianças e todo mundo para acabar com o preconceito porque é crime. Quem discrimina é criminoso”. Será que a desembargadora aprende?
Três mulheres, três destinos, três posturas, três universos. A vida de Marielle vai virar filme. A sua morte revelou uma mulher em luta contra a violência. A resposta de Débora faz emergir uma mulher combatendo o preconceito. Os comentários de Marília trazem à tona o que sempre esteve na superfície de parte da elite brasileira: arrogância, estupidez, ignorância, insensibilidade. A desembargadora garantiu seu lugar como nota de rodapé na história de Marielle e Débora. Vilã, sumirá na poeira do tempo, salvo se continuar a postar sua visão de mundo na internet. Aí talvez acabe na cadeia. Engano. Seria aposentada com direito ao salário. Perderia os auxílios moradia e alimentação.
Mas há uma quarta mulher, Carmen Lúcia, presidente do Supremo Tribunal Federal. Será que ela vai permitir que o STF volte a cumprir a Constituição no que se refere à presunção de inocência?
Está nas mãos dela dar aos seus colegas a oportunidade de retificar um erro de direito que cometeram em 2016 ao desrespeitar o inciso LVII do artigo 5º da Constituição Federal de 1988, que diz: “Ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória”.
Carmen Lúcia terá a coragem de Marielle, a transparência de Débora, a indiferença de Marília, um caminho próprio ou a fraqueza dos cedem às pressões da mídia e do clamor popular ideológico, aquele que despreza o texto legal em nome das suas conveniências e paixões políticas e morais?
Um dia, talvez tenhamos a resposta!JM

terça-feira, março 20, 2018

Honra e toga


Ideologização da morte

      Poucas vezes o Brasil esteve tão ideologizado.
Tomo aqui o termo ideologia num dos seus sentidos, o mais comum, aquele que coloca a visão de mundo acima do mundo da visão. O Brasil esteve assim em 1954, em 1964 e desde 2016. Sempre termina em tragédia. Poucas vezes direita e esquerda foram conceitos tão concretos. A ideia de que não há mais direita e esquerda é uma fakenews da direita. O assassinato da vereadora carioca Marielle Franco trouxe à tona o pior do Brasil em várias camadas. A primeira e mais cruel é a da própria execução.
Em segundo plano, com a torpeza que nos caracteriza, veio a ideologização total da morte. Um deputado federal e uma desembargadora atacaram a morta nas redes sociais. A magistrada defecou sem o menor pudor: “A questão é que a tal Marielle não era apenas uma ‘lutadora’; ela estava engajada com bandidos! Foi eleita pelo Comando Vermelho e descumpriu ‘compromissos’ assumidos com seus apoiadores. Qualquer outra coisa diversa é mimimi da esquerda tentando agregar valor a um cadáver tão comum quanto qualquer outro”. O deputado, membro destacado da bancada da bala, disparou à queima-roupa: “Engravidou aos 16 anos, ex-esposa do Marcinho VP, usuária de maconha, defensora de facção rival e eleita pelo Comando Vermelho”. O perfil de um delegado pernambucano fez o mesmo.
Ele jura que a postagem não é sua. A ver.
Tudo falso. Nenhuma das afirmações é verdadeira. O MBL, aquele mesmo que se valorizava pelo suposto apartidarismo dos seus militantes e agora terá candidatos por partidos altamente renovados como o DEM, logo propagou a baixaria. Muita gente espalhou a perversidade sentindo uma espécie de excitação. Por que tanto empenho em desqualificar uma vítima? Por que a vítima era mulher, negra, lésbica, de esquerda, combativa e contra a intervenção federal no Rio de Janeiro? Por que ela denunciava a violência policial na periferia? O pior mostrou a sua cara sem maquiagem. A direita botou na rua o bloco do “nós” contra “eles”. O “nós” apresentou-se como branco e “de bem”. O “eles” foi designado como sendo esse resto, essa massa toda com vida de gado.
Há semelhanças entre o Brasil de 1954, 1964 e 2018? Há. Uma. Profunda, básica, cruel: a desigualdade continua sendo um abismo. Com o que alguns tentam combater essa desigualdade profunda e devastadora? Com repressão cega ou com a ideologia de uma suposta e neutra meritocracia. A parte desfavorecida, o rodapé da tabela social, não se esforçaria o suficiente para “subir”. A mensagem nem tão subliminar assim é obscena: quem luta, vence. A bandidagem deve ser reprimida. Óbvio.
O problema está em confundir bandidos com pobres e em fazer intervenção apenas no território dos menos aquinhoados pelo sistema.
Por que uma parte da sociedade, justamente aquela que goza da melhor situação, não quer que uma mulher negra, favelada e de esquerda, executada no meio de uma guerra social, seja transformada em mártir? Por que é preciso espalhar tantas mentiras para tentar enxovalhar o passado de uma pessoa assassinada? Que Brasil triste! Estamos acostumados.  Brasil, país do passado.
A desembargadora que não honra a toga voltou ao ataque ontem. Derramou preconceito na sua rede social: “Well, eis que se não quando, ouço que o Brasil é o primeiro em alguma coisa!!! Apuro os ouvidos e ouço a pérola: o Brasil é o primeiro país a ter uma professora portadora de síndrome de down!!! Poxa, pensei, legal, são os programas de inclusão social… Aí me perguntei: o que será que essa professora ensina a quem???? Esperem um momento que eu fui ali me matar e já volto, tá?”
Volta!!! Que medo.JM

segunda-feira, março 12, 2018

Alegrias naturais!


 É incrível como as pessoas provocam em nós reações espontâneas. Algumas, mesmo que gostemos delas, acionam em nós um mecanismo automático de defesa. É como se nos disséssemos silenciosamente: atenção, perigo. Tememos, apesar de uma boa relação, um elogio torto, uma pegadinha, uma observação ácida demais, um comentário que ficará nos torturando por horas, dias, meses ou até anos. Outras pessoas não nos despertam nada. Chegam e partem sem produzir qualquer reação. Nós também funcionamos assim para os outros. Noto que alguns nem percebem a minha passagem. Sou invisível para eles. Outros, movimentam o corpo numa atitude de proteção. Normal. Bom mesmo é quando uma pessoa nos causa uma alegria natural. A simples vista da pessoa nos desarma.
Eu sentia uma alegria natural ao ver um amigo, infelizmente já falecido, chamado Décio Freitas. Brigamos muitas vezes. Isso jamais afetou a alegria espontânea que eu sentia ao vê-lo. Décio era um homem de teses. Jamais saía de casa sem uma boa tese para defender durante alguns minutos ou algumas horas. Podia defender uma ideia num dia e contrário em outro, sempre com o mesmo brilho e com uma boa justificativa. Não se contradizia. Evoluía. Era um deleite jantar com ele. Aprendia-se muito. Às vezes, ela estava implicante. Nunca ficava, porém, qualquer magoa duradoura das conversas. Um grande “causeur”. Está moda falar em “causar”. Nada de novo para os franceses. O “causeur” é bom de conversa, fala, faz falar e produz muita falação. Conversar faz bem à saúde. Sem moderação.
Meu mestre Michel Maffesoli é assim. Sempre gentil, afetuoso, atento ao que está ouvindo, preciso nas observações que faz. Michel anda sempre de gravata borboleta. Por trás desse aspecto formal está um homem de peito aberto, firme nas suas convicções, mas sensível ao diálogo. Aprendi com ele o respeito radical à diferença. Conheço poucas pessoas tão antenadas para o diverso quanto ele. Pega no ar. Cada vez me convenço mais de que Michel Maffesoli é o grande pensador da nossa época. Traduz o vivido com palavras que colam como tatuagem. Sabe que precisamos pertencer a alguma coisa.
Vou fazer uma confissão. Vez ou outra, precisamos abrir o coração em público. Telmo Flor, diretor de redação do Correio do Povo, meu amigo de faculdade, dos tempos do Mazza, bar na Bento Gonçalves onde mudávamos o mundo sem saber que estávamos mudando era o nosso pequeno mundo, e das viagens de T1 até a Assis Brasil, tempo suficiente para duas ou três revoluções totais, me provoca essa alegria espontânea até hoje. É ver o Telmo e minha mente se ilumina. Parece dizer “lá vem um cara do bem, a conversa vai ser boa”. Sempre é. Admiro a sagacidade e a inteligência do Telmo. Sabe tirar de cada um o melhor que cada um pode dar. Cultiva a tolerância sem se gabar.
Por que estou falando isso? Sei lá. Estava parado, olhando o Bom Fim pela janela e me vieram essas constatações. Vi a silhueta de um velho amigo na rua e pensei: “Estamos na luta”. Quantos já partiram? Outro dia, foi o Nico Noronha, ótimo jornalista, gente boa, meu colega quando eu entrei no jornalismo. Deixei a janela. Quando vi, já tinha escrito. Precisa motivo para dizer que a gente gosta de alguém? Não.JM

quinta-feira, fevereiro 22, 2018

VOO DA GALINHA!


Com esquerda perdida, Temer prepara 'voo da galinha'

Enquanto Lula sufoca oposição, presidente apronta 'bondades' para eleição

Temer com o governador do Rio, Luiz Fernando Pezão
Temer com o governador do Rio, Luiz Fernando Pezão - Ricardo Moraes-20.fev.18/Reuters
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Com a intervenção no Rio e o abandono da Previdência, Michel Temer se lança informalmente à Presidência trocando uma reforma impopular pela agenda populista de Jair Bolsonaro.
Temer nada tem a perder e já mostrou falta de retidão e capacidade de mobilização política ao barrar as duas denúncias da PGR no ano passado, que custaram o fim, no Congresso, do apoio à Previdência.
 
A “ponte para o futuro” das reformas inadiáveis sai e o foco agora é o futuro de Temer e sua perspectiva de ser processado fora do cargo em 2019.
 
Temer tem só 6% de aprovação. Mas pode ser empurrado por um bom impulso da economia e por seu MDB ainda controlar 20% das prefeituras, onde o apoio miúdo dos prefeitos é importante.
 
O presidente conta ainda com a extraordinária falta de rumo da esquerda, incapaz de se organizar em torno da popularidade minúscula de Temer e sufocada pela candidatura sem futuro de Lula.
Nesta semana, PT, PDT, PC do B, PSB e Psol lançaram no Congresso o documento “Unidade para Reconstruir o Brasil”. Anunciado como projeto da esquerda para a eleição, o diagnóstico (no século 21) é que há uma “tentativa das grandes potências capitalistas de subordinarem nosso país aos ditames de uma ordem neocolonial”.
 
A solução? “A retomada do crescimento econômico associado à redução das desigualdades, geração de empregos e distribuição de renda”.
 
Como não pensamos nisso antes?
 
Quando a eleição chegar, é provável que o PIB esteja “rodando” perto de 4%, com a inflação no piso da meta. Sem reajuste desde 2016, o Bolsa Família (que chega a ¼ dos brasileiros) terá aumento real e o desemprego deve seguir caindo.
 
Temer também está autorizado pelo Congresso a encerrar 2018 com um deficit de até R$ 159 bilhões, acima do realizado em 2017, o que abre espaço para “bondades”.
 
O tal “feel good factor” na população, portanto, tende a favorecer Temer, apesar dos seus 6%.
 
No longo prazo, porém, nada disso é sustentável. Sem as reformas que o presidente agora abandona, o Brasil está novamente na pista para mais um clássico “voo da galinha”: o país decola depois da forte recessão e se estrepa de novo à frente. 

Com ou sem Temer.
Fernando Canzian