domingo, março 31, 2019

Narrativa ideológica

terça-feira, fevereiro 05, 2019

Cabral descobriu o Brasil?


 Essa questão é velha entre historiadores. Ela comporta vários níveis de leitura. A mais simples é esta: o que significa descobrir? Achar o que ainda não se conhecia? Pode-se descobrir uma terra já habitada?  Quem não a conhecia? A resposta pode ser sumária: Cabral descobriu a terra que seria chamada de Brasil para os europeus que não a conheciam. Mas, se a terra já era habitada, a descoberta pelos europeus podia dar-lhes algum direito sobre ela? O relativista dirá: sim, pelos valores da época. Para amparar esses valores podia-se recorrer a dispositivos ardilosos: seriam esses habitantes da terra “descoberta” gente? Teriam alma? Seriam humanos?
Quando se decidiu que eram humanos, a questão essencial passou a ser a obrigação de salvar as suas almas pagãs. Nobre missão. O papa Paulo III, em bula de 1537, determinou que os “ditos índios e todas as demais pessoas que possam ser descobertas mais tarde por cristãos não devem de modo algum ser destituídas de sua liberdade ou da posse de sua propriedade, mesmo que estejam fora da fé de Jesus Cristo”. Não foi obedecido ao pé da letra. Os nativos foram, acima e antes de tudo, desapossados do que era deles.
Se a terra já era habitada, a “descoberta” transformou-se em ocupação ou invasão? Cabral tomou posse para os portugueses de uma terra com moradores. Qual o principal argumento para isso? A certeza de poder usar a força sempre que necessário e talvez a perplexidade dos donos da casa. Outra maneira de dizer o que aconteceu: os portugueses invadiram o Brasil em nome dos seus projetos de expansão. Em 1550, Carlos V, da Espanha, teve uma crise de consciência e convocou 14 teólogos para decidir ser era justa a conquista das terras e gentes da América. Aconteceu então, em duas etapas, o debate entre Juan Ginés de Sepúlveda e Bartolomeu de Las Casas, que ficaria conhecido como a “controvérsia de Valladolid”.
Sepúlveda inaugurou o pragmatismo radical: era justo, no seu entender, escravizar os índios por eles serem imorais. Além disso, não se comportariam racionalmente e eram mais fracos, nascidos para obedecer. Era, portanto, natural que fossem escravizados. Quem pode mais, domina e faz a lei. Claro que Sepúlveda caprichou na retórica: os selvagens obedeceriam aos mais sábios e prudentes, os civilizados espanhóis. A astúcia do algoz foi dizer que para libertar os índios da barbárie era preciso fazê-los escravos dos civilizados, os bárbaros com ideologia. Sepúlveda era discípulo de Aristóteles, que via escravos como ferramentas.
Las Casas enfrentou o conceito de barbárie. Encurralou a oponente. Sepúlveda argumentou também que era preciso subjugar os índios para que não praticassem canibalismo. Las Casas relativizou. Buscou explicar o fenômeno a partir dos valores dos próprios índios. Como terminou o debate? Os juízes acharam que seriam preciso pesquisar e saber mais para decidir. Cada debatedor se declarou campeão. A coroa espanhola fez um mix das ideias dos dois e tocou o barco. O progresso não podia parar. Assim foi.
Cabral foi o primeiro? – Outro ângulo da questão. Cabral foi o primeiro europeu a chegar a esta terra que seria chamada de Brasil? Para os índios, essa é uma polêmica irrelevante. Para a glória de Cabral, não. É possível que em 1498 uma frota de oito navios, comandada por Duarte Pacheco Pereira, tenha aportado no Maranhão e no Pará. Para não atrair a atenção dos espanhóis, a corte portuguesa teria escondido o fato. Em “Tratado dos Novos Lugares da Terra”, Pacheco escreveu. “No ano de Nosso Senhor de 1498, Vossa Alteza nos mandou descobrir a parte ocidental, passando a grandeza do Mar Oceano, onde é achada e navegada uma vasta terra firme, grandemente povoada”. Sendo assim, Cabral não descobriu o Brasil, que já era conhecido dos portugueses, mas de fato tomou posse dele, ou seja, invadiu-o a mando de Portugal. Até Américo Vespúcio teria vindo antes.
Existe também a hipótese de que Vincente Pinzon e Diego de Lepe tenham estado no Brasil em janeiro de 1500. No fundo, não interessa quem chegou primeiro, mas quem deu início à narrativa da descoberta e cumpriu o ritual de apossar-se deste “novo mundo” até então sem escritura. Cabral trouxe com ele o escrivão Pero Vaz de Caminha, que, com sua carta ao rei de Portugal, lavrou a certidão de apropriação do Brasil. Pediu propina pelo serviço prestado: “E pois que, Senhor, é certo que, assim neste cargo que levo, como em outra qualquer coisa que de vosso serviço for, Vossa Alteza há de ser de mim muito bem servida, a Ela peço que, por me fazer singular mercê, mande vir da ilha de São Tomé a Jorge de Osório, meu genro – o que d’Ela receberei em muita mercê”. Assim se inaugurou o Brasil.
No correr da carruagem, depois de se apropriarem do que tinha dono, os portugueses passaram a perna nos espanhóis, avançando sobre a demarcação estabelecida pelo Tratado de Tordesilhas. A história é escrita pelos vencedores e pelos que têm equipe de comunicação e marketing. O Brasil, como toda a América, nasceu de invasões e fabulações. O tripé da construção do novo mundo nada tem de épico: invasão, escravização e saque.JM

sexta-feira, fevereiro 01, 2019

Antígona, Toffoli e Lula


      Ainda é tempo de falar disso. Morreu Vavá, irmão mais velho de Lula.
A relação deles era forte. Vavá tinha algo de figura paterna para Lula. O ex-presidente, preso em Curitiba, manifestou desejo de ir ao enterro. A lei permite. O vice-presidente da República, general Mourão, considerou o atendimento dessa vontade uma questão humanitária. A justiça, porém, não deixou. Alegou-se até que poderia haver fuga. Talvez acontecesse um ataque ao comboio e Lula fosse resgatado. Ou saísse correndo do velório sem ser alcançado. Veloz.
A ditadura militar permitiu que Lula, prisioneiro político, fosse ao enterro da mãe. Sófocles escreveu uma tragédia monumental: “Antígona”. Quando Polinices e Etéocles morrem em luta um contra outro, Creonte, que herda o trono de Tebas, ordena que o corpo de Polinices fique sem sepultura. Antígona decide desobedecer para enterrar o irmão. Lei divina contra lei terrena. Dignidade e humanidade contra abuso de legalidade. Vale lembrar que Polinices e Etéocles haviam feito acordo para governar em rodízio. Etéocles não quis passar o bastão. Polinices uniu-se aos rivais de Tebas para tentar recuperar o trono. Traído, traiu. Mesmo assim, o costume, a lei humanitária divina, garantia-lhe direito a uma sepultura.
Os advogados de Lula recorreram ao STF.
O ministro Dias Toffoli, sempre acusado de ser petista, inventou uma solução inédita: Lula poderia ver o corpo do irmão num recinto militar em São Paulo. O jurista Lênio Streck definiu bem a situação: Toffoli autorizou o cadáver a ir até Lula. Creonte teria aplaudido Toffoli, que se esforça a cada situação para provar que não é petista? Dificilmente. Creonte era a lei. Toffoli é um caso para uma análise freudiana. Fomos de Sófocles a Gabriel García Márquez, da tragédia ao realismo fantástico, do irrealismo ao surrealismo. A decisão de Toffoli chegou tarde. O morto já havia sido enterrado.
Antipetistas destilaram ódio.
Lembraram que o então presidente Lula não fora ao enterro de dois meios-irmãos. É fato. Não havia o mesmo vínculo afetivo com esses irmãos por parte de um pai que Lula passou a maior parte da vida sem ver e que teve mais de 20 filhos.
Lula parece condenado à invisibilidade. A sua ida ao enterro geraria imagens que correriam o mundo. O general Mourão, como destacou Lênio Streck, captou o efeito Antígona, o aspecto humanitário que se impõe diante da morte. Mesmo ao adversário se deve dar sepultura. Mesmo ao condenado se deve garantir o direito de chorar seus mortos. A lei foi feita para assegurar esse “direito natural” e sagrado.
Desse macabro episódio duas figuras saem com dimensões alteradas. O general Mourão sai maior. O ministro Toffoli sai ainda menor. Mourão repercutiu Antígona. Toffoli comportou-se como um Creonte querendo negociar. Mourão vem crescendo tanto que já sofre críticas do clã Bolsonaro. O general tenta colaborar com bons fatos para a própria biografia. Toffoli luta desesperadamente para ser uma nota de rodapé. Terá certamente direito a algo assim: chegou por rodízio à presidência do STF. Em 2015, 175.325 condenados saíram das suas prisões para chorar os seus mortos.
Lula não é tratado como preso comum.
É um troféu que a justiça esconde. JMS

O negócio da Vale


  1. Depois da tragédia de Mariana, a Vale reduziu em 44% os seus investimentos em segurança.
  2. Ao planejar o espaço administrativo e do refeitório em Brumadinho, a Vale analisou a trajetória da lama em caso de ruptura de barragem e, mesmo assim, resolveu colocar os equipamentos e as pessoas no caminho da morte.
  3. Mineradoras se autocontrolam fornecendo às autoridades laudos de segurança que compram no mercado correspondente.
  4. Está  nos jornais. Só ignora quem não tem interesse em ver.
  5. É o capitalismo minerador de riscos para empregados e moradores do entorno das operações.
  6. É o capitalismo do lucro máximo ao custo mínimo.
  7. As multas de Mariana ainda não foram pagas.
  8. O lobby das mineradores bloqueou aprovação de leis mais rigorosas no Congresso Nacional.
  9. Tudo está nesta manchete: “Capitalismo de compadrio’ vai ajudar a Vale após Brumadinho, diz Economist”.
  10. Precisa dizer mais?JMS

terça-feira, janeiro 22, 2019

Juremir Machado da Silva

Guerra intelectual no Brasil

      Há pessoas que sentem arrepios quando ouvem ou leem a palavra intelectual. Surtam com citações. Acham tudo isso muito chato. Especialmente se forem ideias e intelectuais franceses. Nacionalidades não têm a menor importância quando se trata de pensamento. Se alguém diz que para Kierkegaard o que falta a nossa época é a paixão, não a reflexão, não é preciso conhecer a nacionalidade do filósofo para entender o que foi dito. Se a pessoa quiser mais informações, vai ao google. Ou aos livros. O saber não deve causar medo, inveja ou ressentimento. Não é uma agressão. Há uma batalha de ideias em curso. De um lado, os antiglobalistas. De outro lado, os que devem se defender por alguma razão teórica ou não.
É uma espécie de nova guerra entre “antigos” e “modernos”. Um dos intelectuais de referência dos novos conservadores é um velho conhecido dos místicos, esotéricos e tradicionalistas, o francês René Guénon (1886-1951). Guénon foi um ocultista fervoroso que se converteu ao islamismo e foi morar no Cairo em busca de uma atmosfera mística. A sua vasta obra tem três obsessões: desejo de metafísica, de transcendência, de transfiguração mística; ojeriza ao materialismo e ao individualismo modernos; atração por sabedorias tradicionais orientais. Para ele, existe uma verdade eterna que unifica as religiões, o que aparece na “escola perenialista”, na “filosofia perene”. O grande intelectual italiano Umberto Eco gastou, no seu monumental livro “Os limites da interpretação”, um capítulo para refutar ideias do homem. O ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, recomenda a leitura das obras tradicionalistas de René Guénon.
Outro discípulo de Guénon é Steve Bannon, marqueteiro ultraconservador de Donald Trump. Adeptos de entidades secretas e de mistérios espirituais, René Guénon deu-se por missão em certo momento “reconstruir uma elite espiritual para o Ocidente”. As suas ideias eram tão excêntricas que influenciaram até surrealistas. Um dos seus alvos foi a ciência moderna. O que valia para ele era o saber tradicional. Passou a vida lidando com símbolos, concepções do sagrado e rituais. Um dos seus livros mais famosos é “A crise do mundo moderno” no qual sustenta que as ciências modernas são vestígios destituídos de sentido das ciências tradicionais. O Renascimento teria sido o começo do caos, da quebra da hierarquia cultural que resultaria no vazio individualista da democracia.
Para o filósofo do conhecimento tradicional “uma ideia como a da ‘igualdade’, ou do ‘progresso’, ou como os outros ‘dogmas seculares’, que quase todos os nossos contemporâneos aceitam cegamente”, tem uma historicidade. Não surgiu espontaneamente. Ele prega o engajamento: “Consideramos, portanto, oportuno declarar isso ainda: há no mundo ocidental algumas indicações claras de um movimento que ainda não está claro, mas que pode e deve normalmente levar à reconstituição de uma elite intelectual. a menos que um cataclismo ocorra rápido demais para permitir que se desenvolva até o fim”. O movimento agora se pretende cristalino. A guerra é pelo controle das mentes, dos corações e dos bolsos.

sexta-feira, janeiro 18, 2019

Queiroz e a alfabetização


Eu entendo Flávio Bolsonaro.
Ele é filho do presidente da República.
Foi ao STF e pediu para barrar a investigação sobre Queiroz.
Onde se viu investigar um cara que está doente.
Dado que Fux mandou parar a investigação, contrariando decisão do próprio STF pela qual foro só vale para atos cometidos durante o mandato, vamos falar de outra coisa.  A ciência do STF não é exata. Depende do “paciente”.
Eu sou impaciente.
      Estamos em guerra. Por tudo. Daqui a pouco talvez seja com a Venezuela.
Guerra até pelos métodos de alfabetização.
É a grenalização das salas de aula. Ou o Fla-Flu. Ou o Ba-Vi.
A guerra nacional encontra suas formas e batalhas estaduais. Enfim. Construtivistas versus adeptos do método fônico? Os resultados têm sido de segunda divisão: 38 milhões de analfabetos funcionais (não chegam a entender um texto básico), 59ª posição, em 70, no ranking de leitura no Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA). Qual é a causa? Eis o busílis, como dizia aquele personagem de um livro de Rubem Fonseca.
Para o novo secretário nacional de Alfabetização, Carlos Nadalim, indicado para o cargo pelo guru do regime, Olavo de Carvalho, o culpado é a ideologia. Segundo a BBC News Brasil, para Nadalim, que trabalhava numa escola infantil em Londrina, há “preocupação exagerada com a construção de uma sociedade igualitária”, ignorando-se “evidências científicas sobre como alfabetizar crianças”. Dono de um site de sucesso, “Como educar seus filhos”, adeptos da educação em casa, Nadalim aposta tudo no “método fônico” e culpa o construtivismo (o aluno é construtor ativo do conhecimento) e o uso das ideias de Paulo Freire pelo mau desempenho.
Nadalim garante que alfabetizar é questão técnica: fazer a criança identificar as letras com os sons da fala. Construtivistas reagiram. Afirmam que Nadalim confunde conceitos. Sustentam que a questão não é de método, mas de meios. Uma criança aprende melhor quando repete sons abstratos ou quando se envolve com aspectos concreto da sua realidade? Maria do Rosário Longo Mortatti, especialista no assunto, resumiu em estudo sobre o tema: “Como alfabetizar? Por onde começar? Pelos nomes das letras, pelos sons das letras, pelas sílabas, por palavras-chaves, por sentenças ou por histórias? Essas são as primeiras e mais urgentes perguntas feitas por aqueles cuja tarefa é o ensino inicial da leitura e escrita a crianças”. Foi adiante: “Como enfrentar as dificuldades tanto de nossas crianças em aprender a ler e escrever quanto de nossos professores em ensinar?” Mortatti analisa o livro “Alfabetização: método fônico”, de Alessandra e Fernando Capovilla, muito citados pelos seus defensores.
Conclusão: o método fônico no Brasil é aplicado desde o século XIX: “Embora os autores a anunciem como uma ‘boa-nova’, não se trata de uma proposta nem ‘nova’, nem ‘pioneira’, nem ‘solução científica efetiva’, com ‘demonstrada eficácia, cientificidade e atualidade’. A crítica mais dura a esse tipo de método é “a de que eles impedem que a criança apreenda o sentido do que se lhe oferece no momento inicial da aprendizagem da leitura”. A crise da alfabetização no Brasil, conforme Maria do Rosário Longo Mortatti, é antiga, anterior à prevalência do construtivismo.
Carlos Nadalim está de armas nas mãos: “Olavo de Carvalho já disse várias vezes, e eu concordo, diante daquilo que posso comprovar com meu método, que é preciso voltar ao método fônico de pré-alfabetização e alfabetização, e o Ricardo [Vélez Rodríguez] sabe disso. Então, se ele conseguir trabalhar essa questão, só isso já fará dele um herói”. Tá ok?
Eu entendo Flávio Bolsonaro.
Segundo um ministro do STF, em declaração à colunista Mônica Bergamo, Flávio assinou uma confissão de culpa ao recorrer ao Supremo. Pobre, menino, incompreendido. Ele só queria corrigir os rumos da justiça.Juremir Machado da Silva

sábado, janeiro 05, 2019

Discursos fortes, ideologias idem!



Cada ministro empossado de Jair Bolsonaro fez um discurso forte.
Os mais retumbantes certamente foram os de Sérgio Moro, Paulo Guedes e Ernesto Araújo.
Moro revelou-se confortável no terno de ministro da Justiça e da Segurança. Bradou: “Não deve haver portos seguros para criminosos e para o produto de seus crimes. O Brasil não será um porto seguro para criminosos e jamais, novamente, negará cooperação a quem solicitar por motivos político-partidários”. Mensagem passada e recebida.
O recado mais importante de Sérgio Moro possivelmente tenha sido este com endereço certo: “Não se combate a corrupção somente com investigações e condenações criminais eficazes. Elas são relevantes, pois não há combate eficaz à corrupção com impunidades e sem risco de punição para os criminosos. Mas elas não são suficientes. São necessárias políticas mais gerais contra a corrupção, leis que tornem o sistema de Justiça mais eficaz”. Uma fala para ressoar no Congresso Nacional e, antes do começo da nova legislatura, nos ouvidos de novos e velhos eleitos.
Paulo Guedes entrou em campo com a manchete definida: “O primeiro pilar é a reforma da previdência, o segundo são as privatizações aceleradas e o terceiro pilar é a simplificação, redução e eliminação de impostos”. O superministro da economia mirou nos alvos esperados: “A Previdência é uma fábrica de desigualdades. Quem legisla tem as maiores aposentadorias. Quem julga tem as maiores aposentadorias. O povo brasileiro, as menores”. Ninguém poderá acusá-lo de falta de foco. Guedes mostrou também que gosta de frases afiadas. Ao falar da legislação trabalhista, disparou: “O governo democrático vai inovar e abandonar a legislação fascista da carta del Lavoro”. Não faltou matéria para análise.
O novo ministro das Relações Exteriores, o gaúcho Ernesto Araújo, falou num tom com certeza inédito na pasta. Atacou o “globalismo”: “Aqueles que dizem que não existem homens e mulheres são os mesmo que pregam que os países não têm direito a guardar suas fronteiras, os mesmo que propagam que um feto humano é um amontado de células descartável. Os mesmos que dizem que a espécie humana é uma doença que deveria desaparecer para salvar o planeta”. Defendeu a fé: “Há uma teofobia horrenda e gritante na nossa cultura, não só no Brasil, em todo o mundo. Um ódio contra Deus que vem sabe-se lá de onde, canalizado por todos os códigos de pensamento e de não pensamento que perfazem a agenda global”.
Um parágrafo sobre Ricardo Vélez Rodríguez. Ele anunciou a criação de uma subsecretária para cuidar de “iniciativas cívico-militares”. Explicou: “Vai haver uma subsecretaria que cuida disso, de iniciativas cívico-militares para colégios municipais que queiram participar (…) Os colégios militares no Brasil representam um modelo que dá certo, que tem disciplina, que tem bom desempenho nos índices de avaliação. Então, esse modelo de colégios cívico-militares é bom”. Discursos que impactaram. Marcas de um novo estilo. A bolsa de valores explodiu o próprio teto.
E a fala da ministra Damares sobre menino de azul e menina de rosa?
Diz ela que foi uma metáfora.
Fora da meta.JM

quarta-feira, dezembro 26, 2018

Final de 2018



 Diz-se que uma imagem fala mais do que mil palavras. Resta encontrar uma imagem que diga isso. O que falar então de certas frases de fim de ano? O futuro superministro da Economia, Paulo Guedes, disparou: “Tem que meter a faca no Sistema S”. O empresariado presente esquivou-se. Guedes enterrou o punhal: “Como você pode falar em cortar isso e aquilo e não cortar o Sistema S? Tem que meter a faca no Sistema S também. Vocês estão achando que a CUT perde o sindicato e aqui fica tudo igual”. Diante do horror nos olhos dos amigos, tentou aliviar: “Acho que tem que cortar pouco para não doer muito”. Já o deputado Sóstenes Cavalcante (DEM-RJ) apresentou projeto de lei propondo que alunos de universidades públicas sejam submetidos a exames toxológicos todos anos antes da matrícula.
Em caso de aprovação, não deveria valer o mesmo para deputados e senadores? Não caberia também um teste de QI para eleitos? Não confundir QI com o popular Quem Indica. Mundo curioso. O agora diplomado senador Flávio Bolsonaro, pressionado por repórteres sobre funcionários do seu gabinete na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro que tinham outro emprego em horário de expediente, saiu-se com esta: “Todo mundo trabalhava. Aqui não é quartel. Nada impede de a pessoa ter uma outra atividade. Sem problema nenhum. Em quartel é que se bate ponto. Entra tal hora, sai tal hora”. Será que o primeiro filho nunca visitou uma empresa?
E esta do site do Ministério Público do Rio Grande do Sul em matéria sobre condenação de um estudante de medicina por estupro virtual: “Esperar Zero Hora dar”. Alguém se apressou e disparou a publicação antes do combinado sem tirar o aviso comprometedor. O que pensar? Que o MP tem seus bruxinhos como se diz no futebol? Deve ter sido o estagiário. Só pode. O presidente eleito Jair Bolsonaro abalou os cursos de antropologia com esta afirmação: “O índio quer ser o que nós somos, o índio quer o que nós queremos”. Nós, alguns de nós, queremos o que eles têm no solo e no subsolo. O general Santos Cruz, que será ministro da Secretaria de Governo de Bolsonaro, sacudiu quarteis falando da Previdência: “Têm categorias que precisam ceder alguma coisa, caso do Judiciário, do Ministério Público, de todo o funcionalismo público. E aí entram os militares no meio. A idade de aposentadoria por exemplo tem que ser mexida”. Se o general falou…
Até José Dirceu resolveu fazer frases. Disse. “Vamos deixar o Bolsonaro sentar na cadeira. Ela queima”. O secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro, general Richard Nunes, declarou há alguns dias que já se sabe quem matou Marielle e Anderson. Só faltam as provas. Parece que algumas sumiram. Ele tranquilizou: “A polícia não é sequer é o pior problema. Hoje temos presos no Rio autoridades de todos os poderes e todos os escalões. A corrupção se alastrou de maneira completa. Seria até estranho que a polícia não estivesse envolvida nisso”. É tanta frase incrível que o humor bate à porta. Sorria, você está sendo gozado.JM

sábado, dezembro 22, 2018

Cheiro de laranjal!


Era uma vez um lugar tranquilo onde nada acontecia.
Até que surgiu algo inusitado, digno de romance de realismo fantástico. Conto o que apurei. De longe, parecia um laranjal. Tinha cheiro e cor de laranjal. Mas, como qualquer um sabe, é difícil saber se um laranjal é um laranjal. Depende do ponto de vista. O laranjal do vizinho quase nunca deixa dúvida: é laranjal. Já o da gente sempre provoca incerteza. A situação despertou a atenção de todo mundo: seria ou não um laranjal? A bolsa de apostas de Londres explodiu. Mais de 70% dos jogadores apostavam em laranjal. Ganharia uma fortuna quem apostasse no contrário. Havia quem tivesse certeza de que era um laranjal, mas sustentasse o oposto por questões afetivas e até ideológicas. É incrível como pode haver ideologia em tudo. Até em laranjal. Cautelosos perguntavam: o que é mesmo um laranjal?
A resposta vinha com prudência: um conjunto de laranjeiras. Começava a polêmica: de laranjeiras ou de laranjas? O dono do suposto laranjal de nada sabia. Ou dizia não saber. De onde viera aquele laranjal? Que laranjal? Quem garante que é um laranjal? Que história é essa de laranjal? No meio da confusão, sempre havia alguém para perguntar de modo brusco:
– Quem plantou esse laranjal?
O cara tinha sumido. Prometia aparecer com uma explicação plausível que, obviamente, provaria não ser o laranjal um laranjal. Nem tudo o que é reluz é ouro. Nem todo amarelo é laranja. A história arrastava-se.
A cada dia apareciam novas informações que pareciam confirmar que era mesmo um laranjal.
Apesar disso, ninguém se atrevia a gritar como num desenho:
– Madeira!
O que faz um laranjal ser um laranjal e não outra coisa? A natureza do fenômeno. Quando se espreme, sai suco. Fica o bagaço. Ao longo do tempo, vai pingando. Mas pinga com método, periodicidade, regularidade, padrão. Um aperta, outro recolhe, um terceiro suga. É algo coordenado como uma linha de montagem. Nada se perde. Tudo se aproveita. A cada um conforme as suas possibilidades e responsabilidades. Uma das características do laranjal é a ubiquidade. Palavra difícil? É a capacidade de estar em mais de um lugar ao mesmo tempo. No exterior e no interior. Longe e perto. Fazendo, não fazendo, desfazendo e refazendo.
Já disse que de longe parecia um laranjal. De perto, também. Mesmo assim seria precipitado tirar conclusões. Em se tratando de laranjal, nunca se deve prejulgar. A complexidade é tamanha que pode induzir a erro. Já se começava a citar Gabriel García Márquez para falar da coisa. Sem a menor criatividade, jornais levianos falavam em “crônica de um laranjal denunciado”. Todo dia havia laranja nova, madura ou verdinha, chupada, de umbigo, lima, da mesma família, de outros tipos, uma loucura. Parte da população incrivelmente parecia não ver o laranjal. Interpelada, regia agressivamente falando de outros laranjais. Um ingênuo ficava perguntando:
– Um laranjal encobre o outro?
Foi assim. O laranjal estava lá. Mas não se sabia se era laranjal.
O laranjeiro – ou seria o laranja? – não estava maduro para aparecer.JM

sexta-feira, novembro 30, 2018

O Rio se f...errou?


      É do palácio para a cadeia. Sem transição. O Rio de Janeiro continua lindo. A imagem do cartão postal mudou. O Corcovado agora concorre com governador de braços abertos atrás das grades. Houve um tempo em que a prisão se dava depois de terminado o mandato. Não há mais como esperar. Salvo no caso do senador Aécio Neves. Esse teve tempo até para se eleger deputado. O governador carioca Luís Fernando Pezão acrescentou uma linha no seu currículo: integrante de organização criminosa. O Brasil inova. Dá para imaginar um diálogo de Sérgio Cabral com Pezão no corredor das celas:
– Demorou, camarada!
– Você está fazendo escola, mermão.
Pezão é o quarto governador do Rio de Janeiro a ser hospedado por conta do erário público numa prisão. Antes dele, o casal Garotinho e Sérgio Cabral preencheram ficha nos hotéis gradeados da cidade maravilhosa. Pezão é o primeiro a ir direto do gabinete de governador para o xilindró. Trocou carro oficial blindado por camburão. Uma distinção sem precedentes. Chama a atenção o prontuário do paciente segundo a Procuradora-Geral da República: “Ficou demonstrado que, apesar de ter sido homem de confiança de Sérgio Cabral e assumido papel fundamental naquela organização criminosa, inclusive sucedendo-o na sua liderança, Luiz Fernando Pezão operou esquema de corrupção próprio, com seus próprios operadores financeiros”. Um homem, como se vê, de personalidade própria e com capacidade de organização, capaz de definir o próprio destino e de gerir os seus negócios com autonomia.
Que outro lugar pode oferecer a turistas histórias tão pitorescas? O guia pode criar um circuito de governadores presos: casa, palácio, cadeia. Do Leblon a Bangu, da Barra da Tijuca a Benfica, das Laranjeiras ao inferno. Programas de auditório podem explorar esse rico filão fazendo perguntas valendo muito dinheiro sobre os governadores do Rio de Janeiro presos com pontos extras para quem acertar os valores amealhados pelos meliantes diplomados pelo voto popular e destituídos pela polícia e pela justiça em flagrante. Pode cair até em concurso. A letra da música também precisa ser reescrita: “Mas o malandro pra valer, não espalha, reinventou a navalha, tem secretários, voto e tal, dizem as más línguas que ele até governa, mora no palácio, chacoalha seu ócio em helicóptero oficial”.
Sempre se deve procurar o lado positivo das coisas. Nunca governadores de um Estado tiveram uma visão tão profunda do sistema penitenciário local. Eles poderão escrever relatórios detalhados com sugestões para as autoridades em troca de remissão de pena. Outro aspecto a considerar é que existe agora algo mais sujo no Rio de Janeiro do que a Baía da Guanabara: a ficha corrida de governadores. Onde foi que tudo virou? Como se pergunta Zavalita, personagem do fantástico romance “Conversa na Catedral”, de Mario Vargas Llosa, “em que ponto o Peru se f…errou?” A palavra usada é outra, mais coloquial, mais carioca até. Quando foi que o Rio de Janeiro se ferrou? Em que ponto o Rio se cravou?JM

quarta-feira, novembro 28, 2018

Privilégio da toga!


Michel Temer sancionou o aumento dos ministros do STF, que repercute sobre o salário de muita gente no topo da pirâmide. Imediatamente o ministro Luís Fux, um dos beneficiados, extinguiu o indecoroso auxílio-moradia da magistratura, que mantinha com uma canetada monocrática para bem dos seus e indignação dos meus e dos teus, caro leitor. Foi uma das chantagens mais obscenas da pornográfica história brasileira. Uma espécie de toma-lá-dá-cá nas alturas em nome da independência dos poderes. O espírito de Montesquieu foi tratado a pontapés. Se não tem aumento, o judiciário não faz greve nem paga as contas atrasado. Cria para si uma compensação.
Quem garante a legalidade da manobra? Ele mesmo. Acabou-se.
O mais interessante dessa história de terror é que beneficiados nunca deixaram de reconhecer que se tratava de um estratagema, de uma compensação, de um aumento de salário disfarçado, sem imposto de renda. O vil mortal não tem uma barbada dessas para usar quando sente a água lhe bater no queixo. Se não cumprir suas obrigações, o judiciário trata de enquadrá-lo. A regra da magistratura é mínima: se é legal, eu quero. Se eu quero, é legal. Quanto juiz dono de casa de alto nível na cidade, na praia e na serra, recebendo auxílio-moradia, mandou despejar miseráveis de prédios públicos abandonados!? E o futuro: se o salário ficar defasado novamente, sempre é possível, voltará o auxílio-moradia com outro nome para não dar na vista ou para que não se fale de eterno retorno do mesmo?
Magistrados costumam ser campeões de racionalização. A racionalização é uma adulteração da racionalidade, um argumento que parece lógico e recepcionável não o sendo. Um sofisma. Chega a parecer infantil. Como crianças, batem pé. É correto receber auxílio-moradia quem mora em casa própria? Não, mas nosso salário está desfasado, etc. A subjetividade perpassa as práticas do judiciário. Um ministro do STF pode ficar anos sentado em cima de uma questão do interesse da sua categoria sem que nada o obrigue a mexer-se na cadeira. Não empurra com a barriga. Retém com os glúteos. A imagem não é agradável. Metáfora de mau gosto. Como o auxílio-moradia. O que a plebe pode fazer? Nada.
Sim, pode fazer piada. É só.
Há representantes das corporações togadas e adjacentes inconformados. Queriam o aumento e a manutenção do auxílio-moradia. Consideram que saíram perdendo. Feitas as contas, vão receber um pouco menos. Queriam tudo. Isso não corrompe a ideia que se deve ter de um poder da República? Em 1993, Marie-Noëlle Lienemann, ministra e depois senadora, publicou um livro intitulado “Os canibais do Estado” no qual mostrava como a elite tecnocrática francesa apropriava-se dos melhores postos e dos recursos da nação cobrindo-se de privilégios e de auxílios fantásticos.
O livro era local. O título, universal. Luís Fux mostrou ontem que, como ministro do STF, ele é um excelente representante sindical da sua categoria na suprema corte. Tem tudo para fazer uma carreira política.
Salvo que isso requer votos e alguma capacidade de falar com a plebe.JM

quinta-feira, novembro 08, 2018

Pior emprego do mundo!


Vale a pena ler “O pior emprego do mundo – 14 ministros da Fazenda revelam como tomaram as decisões que mudaram o Brasil e mexeram com o seu bolso” (Planeta), de Thomas Trautmann. Jornalista, o autor assessorou Antonio Palocci, Dilma Rousseff e Henrique Meirelles. Entrevistou os ministros de que trata o seu livro: de Ernane Galvêas e Delfim Neto a Meirelles passando por João Sayad, Zélia Cardoso de Mello e FHC. Durante parte do regime militar o poder sobre a economia ficou com o Planejamento.
O leitor encontrará muitas anedotas divertidas. Conhece a Doutrina Costa e Silva? É simples: quando Roberto Campos propôs ao ditador a autonomia do Banco Central, recebeu como resposta: “O guardião da moeda sou eu”. Conhece a lei MHS? Mario Henrique Simonsen, que seria sócio do Banco Bozano, foi ministro de Geisel. Ele formulou esta “lei”: “Todo projeto com dinheiro público envolve uma comissão. Às vezes, a obra só existe para alguém receber a comissão. Nesses casos, é mais barato pagar logo a comissão e não fazer obra nenhuma”. Era um eufemismo para propina.
Para ser ministro Simonsen ganhou um superministério. Para arrumar o Brasil, pediu licença para uma recessão de um ano e meio ou dois. Era desbocado. Chamou de “Bostabrás” a ideia de César Cals, ministro das Minas e Energia, de explorar o gás liberado pelo esterco. Contava em “andreazzas” os gastos que lhe pareciam absurdos propostos por Mário Andreazza. Este, garantia que Simonsen entendia muito de aço e nada de gente. Era um tempo de papo reto. Figueiredo perguntou a Simonsen: “Você acha que meu governo está uma m? Não obteve resposta. O ministro pediu as contas, voltou para o Rio de Janeiro e foi para a praia. Acossado pela imprensa, deu entrevista de sunga. Apertado, recorreu ao humor do soprano vaiado: “Vocês ainda não ouviram o barítono”. O barítono atendia pelo nome de Delfim Netto.
Convidado por João Figueiredo para substituir Simonsen, Ernane Galvêas ouviu esta consideração do último ditador: “O Geisel fez um pinto botar um ovo de avestruz. Vá lá e costura o pinto”. Delfim Netto também não usava subterfúgios. Ia direto ao ponto: “O Geisel era honesto, decidido, mas tinha uma pretensão… achava que era matemático porque sabia calcular o seno de 30 graus”. Parafraseando outro, era só um militar falando de economia. Delfim ficou célebre também por esta pérola: “Nunca fiz manipulação de preços. Só de oferta”. Transferia produtos de um lugar para outro de modo a interferir no cálculo da inflação medida no Rio de Janeiro.
Simonsen era fogo. Perguntado sobre o II PND, o grande Plano Nacional de Desenvolvimento, menina dos olhos de Geisel, respondeu: “Não leio ficção”. Delfim falava a linguagem do mercado. De volta ao topo, depois de um exílio dourado em Paris, discursou: “Senhores, preparam seus arados e suas máquinas, nós vamos crescer”. Por que mandar na economia seria o pior emprego do mundo? Um ministro da Fazenda, destaca Trautmann, controla dezenas de índices. O presidente só um: o da sua popularidade. Paulo Guedes, que vem do Bozano e terá superministério, que não bobeie. Ser ministro da Fazenda é tão ruim que todo mundo quer.JM

quarta-feira, novembro 07, 2018

Mundo antigo


 Os dias cinzas me fazem ler um pouco mais. É o melhor antidepressivo que conheço. Leio e viajo no tempo. Aos poucos, respiro ares renovados e puros. Sinto-me na montanha. Parei, no sábado, com o céu plúmbeo, para reler belas páginas de “Rubicão, o triunfo e a tragédia da república romana”, do pesquisador britânico Tom Holland. É muito melhor do que ficar na internet lendo declarações de Olavo de Carvalho e Alexandre Frota. Roma nunca deixará de ser parâmetro para o pior e para o melhor em quase tudo.
Era outro mundo. Sim, era outro mundo. Dos doze césares, só Cláudio não teve amantes do mesmo sexo. Nero teve dois maridos simultâneos. Eram loucos os romanos? Eram ousados. Vejamos esta passagem de Holland: “Na Gália, lutando contra os bárbaros, César havia adotado a tática de lançar-se rapidamente e com força sobre o inimigo quando este menos esperava, por mais arriscado que isso fosse. Agora, assumindo o risco supremo de sua vida, ele planejava usar a mesma estratégia contra seus concidadãos”.
Que medo! Como é tempo de Feira do Livro em Porto Alegre, meu carinho por esses objetos encadernados, ameaçados de extinção, aumenta. A sede de poder não poupa os de casa. Tento aprender com eles. Sou lento. Se não capto o mais profundo, absorvo o mais simples. Por exemplo, este parágrafo de Holland: “Com crise ou sem crise, as estações do ano chegavam e partiam como sempre. A primavera, florida e cristalina, era a época em que a sociedade elegante partia para o campo. Em abril do ano 44 a.C. não foi diferente. Nas semanas que se seguiram ao assassinato de César, Roma começou a esvaziar-se”. Vida que segue. Ditador morto, rei posto. Fim da República. Começo do Império. César veio, viu, venceu e morreu. Ponto.
A sorte, lançada, não para mais de rolar.
César chegara ao poder numa aliança com Pompeu e Crasso. Populista, horrorizou a elite romana conservadora. Crasso cometeu um erro tão grande em campo de batalha que perdeu a vida. Mas criou o erro crasso. Pompeu rompeu com o ex-sogro Júlio César. Quis disputar o poder com ele. Não deixou de ser um erro crasso. Acabou assassinado ao chegar no Egito. O poder não dorme. Como as estações do ano. Consta que César morreu por não ter sabido escutar a opinião dos adversários. Cansados de guerra pelo poder os cidadãos partem em férias. O verão não está longe. Com crise ou sem crise as praias chamarão. Na Roma pós-César havia rico louco para sair da clausura da sua mansão. As flores do campo precisavam ser colhidas e cheiradas. A tragédia ficava para trás.
Quem pode segurar esse vitalismo que se impõe como uma fera? Pensariam em que os romanos nas suas residências campestres? Tom Holland fechou o seu livro com uma boa sugestão: “’O fruto do excesso de liberdade é a escravidão’, dissera Cícero em um lamento – e quem poderia supor que sua geração, a última de uma República livre, viesse a comprová-lo? Mas o que dizer sobre o fruto da escravidão? Quanto a isso, caberia a uma nova geração, a uma nova era, responder”. Ainda cabe. Talvez depois do verão. Quanto tempo levará para que Bolsonaro desista de ser Trump ou César?JM

terça-feira, novembro 06, 2018

Escola sem reflexão?


Tenho feito um esforço para entender a ideia de escola sem partido. A verdade é que eu não sabia da existência de escola com partido. Conheço professores de esquerda e de direita. Ainda não sei se a intenção é proibir estudantes de fazer manifestações políticas em ambiente escolar, impedir professores de apoiar algum partido ou de abordar certos temas ou de ter certas posições sobre determinados assuntos. Já ouvi que se pretende até mesmo definir os livros que podem ou não figurar na biblioteca escolar. Ou será que se trata exclusivamente de interditar posturas de esquerda? O que ser quer mesmo: neutralidade ou neutralização da possibilidade de dizer verdades?
Por que se deveria impedir manifestações políticas de estudantes? Fica nas entrelinhas do pensamento geral essa tentação. Eles são muitos e com olhares diferentes. A escola deve pregar a alienação e o desinteresse por eleições? Não imagino professores pedindo voto em sala de aula. Se acontece, deve ser exceção. A questão dos enfoques é preocupante. O que deve dizer um professor aos alunos: que o Brasil foi descoberto, ocupado ou invadido pelos portugueses? Na ótica da direita, por lógica, a chegada dos portugueses deve ser vista obrigatoriamente como invasão na medida em que o território tinha dono. Eram outros tempos?
Ah, bom! O que deve dizer um professor sobre a abolição da escravatura no Brasil? Que foi uma conquista dos negros? Que foi uma mudança do capitalismo? Que foi uma concessão da generosa princesa Isabel? Se o professor optar exclusivamente pela última alternativa será criticado pelos defensores da escola sem partido? Que deve dizer o mesmo professor sobre a formação do país: que se estruturou com base numa harmonia entre três “raças”: o índio, o negro e o branco? Ou que o Brasil se construiu a partir da busca de submissão do índio, reduzido a uma parcela mínima, e da entrada forçada do negro como escravo em favor da dominação branca?
Dizer que o branco quase exterminou o índio na América e fez a acumulação primitiva do seu capital explorando o negro é tomar partido indevidamente? O professor apresentará as diferentes teorias e leituras sobre o assunto. Se o aluno, depois de tudo, perguntar qual a sua posição, o que o professor deverá dizer? Tenho lido que as universidades, especialmente as públicas, são dominadas por esquerdistas. Se for o caso, o que se deve fazer? Amordaçá-los? Por que a direita não tenta conquistar esses corações e mentes? Será que os seus argumentos não convencem estudantes cheios de ideais e professores acostumados a pesquisar?
O que deve dizer um professor sobre Caxias, modelo de pacificação deo presidente eleito Jair Bolsonaro? Que foi um pacificador de fato ou exterminador de negros e um disseminador de notícias falsas para intrigar adversários? Caxias sufocou várias rebeliões durante o período regencial. Esmagou a Balaiada, no Maranhão, um movimento popular, atuou em São Paulo, Minas Gerais e no Rio Grande do Sul, onde participou da combinação para massacrar lanceiros e infantes negros em Porongos. O que deve ensinar o professor sobre isso tudo?
Deve mostrar aos alunos este balanço da Balaiada feito pelo próprio Caxias, que destaco em meu livro História Regional da Infâmia: “Não existe hoje um só grupo de rebeldes armados, todos os chefes foram mortos, presos ou enviados para fora da província… Se calcularmos em mil os seus mortos pela guerra, fome e peste, sendo o numero dos capturados e aprisionados durante o meu governo passante de quatro mil, e para mais de três mil os que reduzidos à fome e cercados foram obrigados a depor as armas depois da publicação do decreto de anistia, temos pelo menos oito mil rebeldes; se a estes adicionarmos três mil negros aquilombados sob a direção do infame Cosme, os quais só de rapina viviam, assolando e despovoando as fazendas, temos onze mil bandidos que com as nossas tropas lutaram, e dos quais houvemos completa vitória. Este cálculo é para menos e não para mais: toda esta província o sabe”. Deve o professor dizer que isso é extermínio ou por civismo aliviar a barra?
Ouço que escolas propagam a chamada ideologia de gênero. Uma certa Simone de Beauvoir escreveu, em 1949, que não se nasce mulher. Torna-se. Parece que ela estava falando dos papéis sociais. Deve-se evitar falar dessa senhora em sala de aula? É permitido falar que nem todos se reconhecem na anatomia de nascimento nem se sentem atraídos pelo diferente? A escola deve realmente servir somente para ensinar línguas, geografia e matemática? Há tanta coisa que me escapa. Não entendo a obsessão contra Paulo Freire. Releio o que ele escreveu. Fico com a impressão de que ele diz algo evidente: o aluno se interessa mais pelo que toca a sua realidade.
A quem interessa reduzir a escola ao ensino de matemática e português?JM

segunda-feira, novembro 05, 2018

Marmiteiros



      As eleições de 2018 foram dominadas pelas fake news. Alguém duvida?
As redes sociais potencializaram um velho costume: divulgar notícias falsas para tentar induzir eleitores a rejeitar candidatos. Essa tendência tem a idade da fofoca. É claro que graças às tecnologias atuais a possibilidade de atingir o país inteiro em segundos enlouquece os gênios do mal. A primeira grande fake brasileira talvez tenha sido aquela inventada por Hugo Borghi, em 1945, para favorecer Eurico Gaspar Dutra e liquidar o brigadeiro Eduardo Gomes. Na época, militares polarizavam a disputa eleitoral.
Empresário, acusado de receber empréstimos privilegiados do Banco do Brasil, Borghi financiou a campanha do “queremismo”, termo criado para defender a permanência de Getúlio Vargas no poder. Como não foi possível levar a cabo essa ideia, passou-se ao “plano B”. Na hora certa, Getúlio mandou votar em Dutra. O adversário era Eduardo Gomes, da UDN, uma espécie de Partido Novo de então, ou de Novo, MBL e PSL juntos. Borghi teve uma ideia maligna: mandou imprimir e inundar o país com panfletos divulgando uma suposta declaração de Eduardo Gomes: “Não preciso dos votos dos marmiteiros”. Era desprezar a massa que comia quentinha no trabalho.
O estrago foi imenso. Dutra disse que nada tinha a ver com o negócio. Não podia controlar os seus apoiadores. A frase de Eduardo Gomes, proferida no Teatro Municipal do Rio de Janeiro (candidatos falavam em teatros naqueles tempos), era um pouquinho diferente: “Não necessito dos votos dessa malta de desocupados que apoia o ditador para eleger-me presidente da República”. De qualquer maneira, um enorme erro de marketing. Eduardo Gomes era dado como vencedor certo do pleito. Faltava um mês para o comparecimento às urnas. Borghi construía suas fake news com esmero.
Pegou a expressão “malta” da declaração verdadeira de Gomes e procurou em dicionários todos os sentidos atribuídos a ela. Descobriu um que lhe servia: “Grupo de operários que percorrem as linhas férreas levando suas marmitas, marmiteiros”. Logo, podia dizer que não estava mentindo. Esse cuidado se perdeu. Para que tanto mimimi se é para mentir mesmo? A fake de Borghi foi difundida em rádios e em jornais. Não teve erro. Dutra virou o jogo. Era um homem simples, meio tosco. Foi criticado, durante seu governo, pelo mau uso das reservas cambiais brasileiras. Fortaleceu as relações com os Estados Unidos. Enfim, essas coisas de um passado remoto.
A piada mais famosa sobre Dutra também era fake. Dutra recebe o presidente estadunidense Truman no Brasil. O norte-americano cumprimenta: “How do you do, Dutra?” O brasileiro responde: “How tru you tru, Truman?” A mais marcante decisão tomada ao longo do seu mandato foi a proibição dos jogos de azar no país. Dutra teria assinado o decreto por influência da líder do lobby contra o jogo: sua esposa Carmela, conhecida como Dona Santinha. Ela também teria determinado o fechamento do Partido Comunista Brasileiro. Os eleitos tiveram seus mandatos cassados. Outros tempos!JM

sábado, novembro 03, 2018

Face a face


Moro, o imparcial com lado
A Mosca Azul
Machado de Assis
Era uma mosca azul, asas de ouro e granada,
Filha da China ou do Indostão.
Que entre as folhas brotou de uma rosa encarnada.
Em certa noite de verão.
E zumbia, e voava, e voava, e zumbia,
Refulgindo ao clarão do sol
E da lua — melhor do que refulgiria
Um brilhante do Grão-Mogol.
Um poleá que a viu, espantado e tristonho,
Um poleá lhe perguntou:
— "Mosca, esse refulgir, que mais parece um sonho,
Dize, quem foi que te ensinou?"
Então ela, voando e revoando, disse:
— "Eu sou a vida, eu sou a flor
Das graças, o padrão da eterna meninice,
E mais a glória, e mais o amor".
E ele deixou-se estar a contemplá-la, mudo
E tranquilo, como um faquir,
Como alguém que ficou deslembrado de tudo,
Sem comparar, nem refletir.
Entre as asas do inseto a voltear no espaço,
Uma coisa me pareceu
Que surdia, com todo o resplendor de um paço,
Eu vi um rosto que era o seu.
Era ele, era um rei, o rei de Cachemira,
Que tinha sobre o colo nu
Um imenso colar de opala, e uma safira
Tirada ao corpo de Vixnu.
Cem mulheres em flor, cem nairas superfinas,
Aos pés dele, no liso chão,
Espreguiçam sorrindo as suas graças finas,
E todo o amor que têm lhe dão.
Mudos, graves, de pé, cem etíopes feios,
Com grandes leques de avestruz,
Refrescam-lhes de manso os aromados seios.
Voluptuosamente nus.
Vinha a glória depois; — quatorze reis vencidos,
E enfim as páreas triunfais
De trezentas nações, e os parabéns unidos
Das coroas ocidentais.
Mas o melhor de tudo é que no rosto aberto
Das mulheres e dos varões,
Como em água que deixa o fundo descoberto,
Via limpos os corações.
Então ele, estendendo a mão calosa e tosca.
Afeita a só carpintejar,
Com um gesto pegou na fulgurante mosca,
Curioso de a examinar.
Quis vê-la, quis saber a causa do mistério.
E, fechando-a na mão, sorriu
De contente, ao pensar que ali tinha um império,
E para casa se partiu.
Alvoroçado chega, examina, e parece
Que se houve nessa ocupação
Miudamente, como um homem que quisesse
Dissecar a sua ilusão.
Dissecou-a, a tal ponto, e com tal arte, que ela,
Rota, baça, nojenta, vil
Sucumbiu; e com isto esvaiu-se-lhe aquela
Visão fantástica e sutil.
Hoje quando ele aí cai, de áloe e cardamomo
Na cabeça, com ar taful
Dizem que ensandeceu e que não sabe como
Perdeu a sua mosca azul.
Faz tempo que a mosca azul picou Sérgio Moro. Ele sempre se apresentou como um juiz imparcial. Por simples circunstância, nunca condenou tucanos. Por outra circunstância dessas da vida o seu foco foi o PT. Por necessidade, teve de publicar aquele grampo ilegal que levou ao impeachment de Dilma Rousseff. Por outra reles circunstância, condenou Lula o mais rápido possível com escassez ou falta de provas. Foi só coincidência que o TRF-4 tenha confirmado sua sentença em tempo mais rápido ainda. Moro sempre foi imparcial e neutro. Por circunstância, teve de cancelar uma ordem de instância superior para impedir a soltura de Lula. Azar da hierarquia e da falta de atribuição legal. Nunca lhe passou pela cabeça influenciar eleitores. Não passou de coincidência a sua liberação da delação de Antonio Palocci bem no meio da campanha eleitoral. É claro que ele não pretendia prejudicar as chances do petista Fernando Haddad.
Sérgio Moro nunca teve lado. Ele sempre foi tão imparcial e apartidário quanto o MBL, Kim Kataguiri, Alexandre Frota e Janaína Paschoal. Não passa, portanto, de coincidência que Jair Bolsonaro, presidente eleito pela extrema-direita, tenha querido convidá-lo para seu ministério de técnicos imparciais. Sem as decisões circunstanciais e neutras de Moro, Bolsonaro talvez não tivesse chegado à presidência da República. A imprensa internacional não consegue compreender o Brasil. Algumas manchetes de hoje: Financial Times: "Bolsonaro nomeia juiz que ajudou a prender Lula". The Times: "Bolsonaro promete emprego sênior para o juiz que prendeu o seu rival”. Malditos comunistas britânicos. Arre!
O jornal francês de direita, uma espécie de Estadão sem o golpe de 1964, foi descritivo: “O juiz que derrubou Lula será ministro da Justiça de Bolsonaro”. Nada mais justo? A justiça brasileira está de cara. No popular, Moro saiu do armário, passou recibo, revelou o tamanho da sua vaidade. Bolsonaro entregou: “Parecia um jovem universitário recebendo diploma”. Mais feliz do que pinto no lixo. Deslumbrado com o poder recebido. Se faltava um atestado, está dado. Moro, o imparcial, revelou seu lado.
Foi a mosca azul.JM

quinta-feira, novembro 01, 2018

Invisíveis



      Há um grande filme em cartaz: “Os invisíveis”, dirigido pelo alemão Clau Räfle. Fui vê-lo no último sábado. Conta a história de quatro judeus que viveram escondidos para escapar à perseguição nazista. É uma história humana sensível e altamente dolorosa. Eles só conseguiram sobreviver graças à ajuda de alemães que se rebelaram no cotidiano, na medida das suas parcas forças, contra o horror hitlerista. O que o nazismo mais odiava e combatia? A diferença, a diversidade. Ideologia de extrema-direita, assentada no racismo e no darwinismo social, não tolerava a liberdade de pensamento.
As principais características do nazismo foram o antissemitismo, o eugenismo, o culto e o mito da superioridade racial do homem branco, o antimarxismo, a adoração fanática ao grande líder, o aparelhamento total da estrutura pública, da justiça ao sistema escolar, para propagação da ideologia do sistema, o Estado forte, a rejeição ao conceito de luta de classes e a defesa da propriedade privada. Os ideólogos nazistas defendiam uma sociedade dividida em classes sociais, recusavam o igualitarismo marxista e acreditavam na meritocracia como mecanismo de estratificação social e de legitimação da propriedade privada. O nazismo era nacionalista, antipacifista e antidemocrático. Foi a grande chaga do século XX.
Edgar Morin, que participou da resistência armada ao nazismo, publicou, já em 1946, um belo livro sobre o que viu: “O ano zero da Alemanha”. Vale citá-lo longamente: “Não há dúvida de que havia gradações dentro do nazismo. Existiram nazistas ativos, nazistas formais e nazistas constrangidos (como foi o caso de inúmeros estudantes)”. Mais: “Havia os que já eram nazistas antes de 1933 e os que se tornaram nazistas após 1937. Os americanos consideram os velhos e duros nazistas anteriores a 1937 como os mais perigosos. Muitos alemães tendem a considerar que os que se tornaram nazistas depois de 1937 são mais culpáveis, pois não tinham escusas para se deixar lograr pelas belas promessas e aderiram ao nazismo com conhecimento de causa, mesmo depois das leis de Nuremberg e das primeiras manifestações da política belicista de Hitler”. Não foi acaso.
“Os invisíveis” é um desses filmes que deixam um gosto amargo na boca. Por outro lado, revela a maravilhosa coragem daqueles que ousam se expor em defesa da dignidade humana enfrentando ondas e correntes. Como não se emocionar com a história da moça que se esconde no cinema até ser “adotada” pela senhora da bilheteria? Como não se entusiasmar com o genial falsificador de documentos que salvam vidas, mas se descuida e deixa queimar a papelada que lhe garante a sobrevivência? Como não se preocupar com a falsa viúva trabalhando na casa de um oficial nazista? Como não se encantar com as paixões do adolescente obrigado a viver na clandestinidade?
O sistema pretendia ser absoluto, tentacular, visível em todas as instâncias. A astúcia e a solidariedade souberam resistir a ele em alguns momentos e casos. Como mostrou Hannah Arendt, porém, o terrível é “banalidade do mal”, que não se apresenta como monstro. Lindo triste filme.JM.

quarta-feira, outubro 31, 2018

Trump e os novos bárbaros



      Sete mil pessoas avançam pelo México em direção aos Estados Unidos. São desesperados da Guatemala, de El Salvador e de Honduras em busca da sobrevivência. Nada parece capaz de tirar-lhes o ânimo na caminhada. São movidos pela miséria. Como nada mais têm a perder, arriscam o que lhes resta: a pele. Os teóricos da globalização alardearam durante anos o fim do Estado-nação e a queda das fronteiras. Nem sempre disseram que isso deveria valer para as mercadorias. Não necessariamente para os seres humanos.
Guy Debord, autor do livro clássico “A sociedade do espetáculo”, advertira numa bela e triste fórmula: “O espetáculo não canta os homens e suas armas, mas as mercadorias e suas paixões”. A frase mais óbvia seria: “O espetáculo não canta os homens e suas paixões, mas as mercadorias e suas armas”. Certo é que, como no passado europeu, “hordas” avançam agora em direção ao império estadunidense. São os novos hunos, godos, burgúndios, alanos, suevos, vândalos, anglos, saxões, francos? Os bárbaros mudaram a
Europa e o mundo. O termo designava simplesmente quem era estrangeiro.
Estranho, estrangeiro, diferente, inferior. Essa cadeia falsamente lógica permeou imaginários ao longo dos séculos. Donald Trump pretende barrar os “novos bárbaros” com poderoso aparato militar. No twitter, o presidente dos Estados Unidos recorreu à sua tradicional retórica bélica: “É uma invasão do nosso país e nosso Exército estará esperando vocês!” Cinco mil soldados foram deslocados para a fronteira mexicana. Trump completou: “Muitos membros de gangues e algumas pessoas muito más estão na caravana rumo a nossa fronteira sul. Por favor, voltem, vocês não serão admitidos nos EUA a não ser que seja pelo processo legal”. Faz sentido.
O problema é que desesperado não podem esperar o processo legal que dificilmente lhes daria ganho de causa. O que fazer contra uma “invasão” de miseráveis capaz de marchar sem violência?  É verdade que, quando atacados com bombas de gás lacrimogênio, os retirantes responderam com paus e pedras. Essa cena parece ser apenas o prenúncio de outras. Na Europa, africanos jogam-se ao mar, onde muitos perecem, em barcos precários na tentativa de aceder à costa italiana. A fome é um combustível poderoso.
De quem fogem esses migrantes que com certeza adorariam não sair de casa? De ditadores, de maus gestores, de corruptos, de políticos venais, de exploradores de todos os tipos e da falta de perspectiva. Como ficar sem futuro? A reação das potências é fechar suas portas. Que se virem. Esbarram em duas questões: o senso de humanidade – os Direitos Humanos – que cobra uma atitude; e impossibilidade cada vez mais concreta de frear os avanços desses “novos bárbaros” dispostos a morrer para quem sabe conseguir viver.
O que fará Donald Trump se novas “hordas” surgirem nos “portões” do império e não pararem diante do poderio militar à espera? E dizer que um dia um certo Francis Fukuyama anunciou o fim da história. Ela nunca acaba. Às vezes, move-se para trás. Outras, dá saltos imprevisíveis para a frente. JM

terça-feira, outubro 30, 2018

Papo de viagem


 Seres humanos adoram se distinguir dos seus iguais. A fama e o dinheiro são formas de distinção. Precisamos de sistemas de hierarquização social. Usar produtos de marca é uma modalidade de classificação. Não suportamos parecer frangos num aviário. O consumismo é a principal forma de separação entre nós. A escolha, como dizem especialistas, se dá sempre na produção. Temos o direito de escolher entre um Iphone e um Smartphone. O importante é que o mercado nos ofereça pequenas diferenças para comprar.
A viagem tornou-se um excelente diferencial. O mundo da classe média divide-se entre os que viajam muito, os que viajam pouco e os que nunca viajam. Estes, coitados, são vistos como párias. A viagem como sistema de hierarquia social produz conversas extraordinárias e quase literárias.
– Milão é maravilhosa.
– Sem dúvida. Bela cidade.
– Tem um clima muito especial.
– É verdade. Muito legal.
– Você já foi?
Essa conversa se repete ao infinito. Muda apenas o nome do lugar. Em alguns casos, os nomes ficam cada vez mais desconhecidos ou exóticos:
– Kuala Lampur tem algo especial.
– É o que parece.
– É uma personalidade. Como certos vinhos.
– Impressionante.
– Você já foi?
É como um jogo. Os lances vão ficando mais altos, arriscados, ousados, tirados do fundo da cartola. É briga de cachorro com pedigree.
– Guimarães é bacana.
– Prefiro Piranhas.
– Guimarães é a própria história de Portugal.
– Piranhas é o sertão.
– Você já foi?
Outro dia, escutei uma conversa posterior a uma desses duelos de viajantes. Um casal, num restaurante aclamado, comemorava uma vitória:
– Você meteu seis “você já foi” neles!
– Um atrás de outro, amor.
– Viste a cara dela cada vez que você emplacava um?
– Claro que vi. Não tem preço!
O perigo é a fake news. Pode haver até dupla falsificação:
– Palá é uma gracinha.
– Eu sei.
– Tem uma atmosfera, uma aura, um halo.
– Eu sei. É como Lapá.
– Você já foi lá a Palá?
– Claro. Óbvio. E você já foi a Lapá?
– Várias vezes JM

segunda-feira, outubro 29, 2018

A responsabilidade...


E agora?

      O Brasil teve treze possibilidades no primeiro turno. Excetuadas as candidaturas folclóricas do Cabo Daciolo e de José Maria Eymael e a clausura ideológica de Vera Lúcia, nove eram menos problemáticas e assustadoras do que a aposta em Jair Bolsonaro. Se a questão era o combate à corrupção, por que não se votou em Álvaro Dias, o mais entusiasmado defensor da Lava Jato? Se o interesse era um choque liberal em economia e conservador em comportamento, com ênfase em alguém fora ou contra o sistema, por que não se escolheu João Amôedo? Se o foco era em reformas liberais profundas e ao gosto do mercado, por que não se foi de Henrique Meirelles? Se o importante era honestidade e ausência de radicalismos, por que Marina Silva não decolou?
Se o antipetismo era o fundamental, por que não Ciro Gomes?
Geraldo Alckmin não teria sido uma opção menos nebulosa e dentro dos limites formais da democracia? Cada um com seus limites e defeitos. Cada um contribuiu um pouco para o resultado alcançado. Os tucanos trabalharam fortemente durante anos para estimular o antipetismo. O PT colaborou com os seus erros jamais realmente admitidos e com sua incapacidade de perceber o beco em que estava metido. Não quis uma frente de esquerda. Preferiu ser hegemonista até na derrota. Faltou a Ciro Gomes, apesar de ter razões para ressentimentos, grandeza na reta final. O pedetista saiu enorme do primeiro turno e minúsculo do segundo. Todos aqueles que consideram Jair Bolsonaro ameaça à democracia deveriam ter tomado providências para vencê-lo mesmo que isso representasse perder fatias do poder. Ou era só retórica de campanha? Ou não se importavam com o futuro?
Muito se falou em fim das ideologias e em anseio de equilíbrio. Foi a eleição dos radicalismos, da polarização ideológica, do aparelhamento de setores da justiça eleitoral, com quebra da sagrada autonomia das universidades para retirar faixas que nem nomeavam candidatos, das fake news e do ódio. Talvez nunca se tenha eleito antes no Brasil um candidato com tamanho histórico de declarações preconceituosas e antidemocráticas. Se foi a eleição do contra, contra o petismo, foi também o pleito do a favor, do a favor de ideias extremas e posturas sem nuances. O bolsonarismo, como qualquer um sabe, não se pauta pelo comedimento nas provocações e ideais.
A mídia ajudou com sua sanha simplificadora pretensamente ética A justiça deu o seu quinhão com seletividade e diferentes ritmos processuais. A imprensa internacional foi ignorada nas suas advertências ou desqualificada como esquerdista. Voltamos à Guerra Fria: capitalismo versus comunismo. O primeiro ciclo trabalhista, de Getúlio Vargas, terminou com a eleição de um militar. O segundo, fracassado o intervalo de Jânio Quadros, com um golpe midiático-civil-militar. Este terceiro, o ciclo trabalhista do lulismo, fecha-se com a eleição de dois militares aposentados. O quem vem por aí? O Brasil deu um salto no escuro como se fosse a uma festa.
A economia não foi o ponto central desta eleição. Comportamento e ideologia predominaram. Antipetismo e anticorrupção encobriram algo mais profundo: uma rejeição ao imaginário forjado a partir de maio de 1968 no Ocidente. Estamos mais divididos do que nunca. Nunca estivemos unidos. Não será Bolsonaro o nosso elo. JM