sábado, setembro 16, 2017

Lei para todos?



      Jean Baudrillard, mestre de paradoxos, me ensinou num café de Paris, tomando um vinho branco às dez da manhã, que o principal trabalho de cronista intelectual é fazer comparações para explicitar contradições. No Brasil, a direita acha que isso, em certos casos, é pura manobra para defender Lula e o tão odiado PT. Outro dia, falei disso no Esfera Pública, na Rádio Guaíba, com o ministro do STF Marco Aurélio Mello. Ele concordou que há incoerências. Vejamos: absolvido em segunda instância o ex-tesoureiro petista João Vaccari Neto continuou preso. Condenado em segunda instância o tucano Eduardo Azeredo permanece solto. Como explicar essa discrepância tão visível?
Vaccari deverá ser condenado em segunda instância brevemente. Azeredo espera o julgamento dos seus embargos. Parece assim: petista absolvido aguarda confirmação de condenação na cadeia. Tucano condenado mantém a esperança de absolvição em liberdade. O entendimento atual, que deverá ser derrubado com voto de Gilmar Mendes por já não servir só para enjaular adversários, é de que se vai para a cadeia depois da segunda instância. Outro caso: Lula está condenado em primeira instância apesar de centenas de juristas afirmarem que não há provas. Aécio permanece senador apesar das gravações em que combina crimes e das malas de dinheiro confirmando a realização do combinado.
O STF afastou o peemedebista Eduardo Cunha da presidência da Câmara dos Deputados e mandou prender o senador petista Delcídio Amaral sob alegação de flagrante duvidoso. Quando chegou coincidentemente em Aécio Neves o STF convenceu-se de ter errado antes e resolveu acertar entendendo ser prerrogativa exclusiva do parlamento afastar um dos seus. Que conclusão tira um amigo como eu de Baudrillard, o amante dos paradoxos e das irônicas contradições, que não rezava por qualquer cartilha? Esta: a Lava Jato pode pegar todo mundo, até caciques do PMDB, mas quando chega no PSDB a coisa muda de figura. Pode até ser que os rapazes de Curitiba e de Brasília não sejam seletivos, embora haja fotos de carinhos com tucanos, mas o sistema no topo da pirâmide tem sido. Ainda não se viu grão tucano em gaiola. Algum leitor acha que não havia razões para prender Aécio?
Se dependesse de alguns, Rodrigo Janot, que se tornará ex-procurador-geral da República nesta semana, seria condenado e preso antes de um tucano. Pelo quê? Por ter dados ouvidos a Joesley Batista, que denunciou Temer e Aécio com provas, o que desmoraliza outros delatores e foge do manual em uso. Eu tenho convicção de que Vaccari e Azeredo merecem morar juntos nalguma prisão brasileira. Começo a pensar que será mais fácil encarcerar Lula. Aécio não nasceu para a vida dura das prisões. Além disso, não representa perigo. Ninguém quer votar nele para presidente nem de clube de futebol mineiro. Mala por mala, se Geddel está na Papuda, Aécio está tão papudo como sempre. Já boa parte do ministério de Temer tem uma predileção pelas páginas policiais dos jornais. Nada que abale o chefe deles. Todos inocentes. A segunda denúncia por formação de organização criminosa é detalhe.
O cara que vê petismo num texto como esse esse revela o seu âmago.
O seu problema não é a corrupção, mas a ideologia.JM

quarta-feira, agosto 23, 2017

Males que não vêm para bem!


 No Brasil, não. Sobretudo. Questão de ordem. O distritão pode ser bom para o Afeganistão. Não para nós. Haverá algo no Afeganistão bom para nós? A lista fechada pode ser boa para a Espanha e Portugal. Não aqui. O parlamentarismo pode ser bom para o mundo inteiro. Menos para o Brasil atual. Distritão, lista fechada e parlamentarismo são assaltos à mão armada neste momento nebuloso. O distritão é simples: limitar a oferta de candidaturas para concentrar os votos nos que já estão eleitos. A lista fechada é o pior dos mundos possíveis: os caciques posicionam os candidatos numa lista, reservando-se um lugar privilegiado, e o eleitor carimba o pacote. Elege quem quer e também quem não quer. Um bom lugar na lista vai custar caro. Olhos atentos.
O parlamentarismo retira do cidadão o direito de eleger diretamente quem vai governar o país. O parlamento escolhe o primeiro-ministro. Se não gosta, derruba. Parlamentarismo conciliado com lista fechada é o crime perfeito: os caciques organizam a lista e o pacote apenas carimbado pelo eleitor, sem escolha nominal, elege o governante, o primeiro-ministro. O eleitor vira uma mera passagem. Funciona no mundo “civilizado”? Aqui não vai funcionar. Estimulará a corrupção. Depois do presidencialismo de cooptação, o parlamentarismo de cooptação. Para governar o primeiro-ministro precisará de maioria no parlamento. Como vai obtê-la se não a alcançar, como é frequente, nas urnas? Comprando o apoio de algum partido disposto a colaborar.
Cada sistema tem seus defeitos. O sistema proporcional praticado no Brasil permite votar num e eleger outro com menos votos próprios. Para resolver isso, basta acabar com as coligações nas proporcionais, truque que leva partidos sem votos para eleger sozinhos um representante a pegarem carona numa cesta de secos e molhados. Se o eleitor quer um presidente com poder para governar sem ter de comprar apoio no parlamento é só lhe dar uma maioria no legislativo. O perigo é “eleger” um ditador sem freio parlamentar. Nada é perfeito. A cada quatro anos se pode rever o contrato. Enquanto o mais malandro de cada lugar for eleito, a vaca continuará indo do brejo para Brasília.
O PSDB queria parlamentarismo antes de eleger FHC presidente da República. Aí resolveu apostar na emenda da reeleição por meios pouco republicanos. Agora, com seu principal candidato pulverizado, sem votos à vista, voltou a defender mais um golpe com ar de modernidade. O PSDB é a UDN de smartphone, laptop e tablet. O PT sonha com lista fechada. Dado que quase ninguém mais acredita em partidos políticos, defende o fortalecimento dos mesmos. Viva o paradoxo! O distritão é o primeiro inimigo a ser abatido. Atenção, mirem o alvo. Atirem no painel eletrônico. Quando algo pode ser bom para a maioria dos atuais eleitos, só pode ser ruim para a maioria dos eleitores. Não duvide.JM

quinta-feira, julho 20, 2017

Brasilidades


Parte do Partido Socialista Brasileiro quer entrar no DEM, bastião do liberalismo, oriundo da Arena, pilar da ditadura, tudo para apoiar o governo do PMDB de Temer, que chegou ao poder por um atalho combatendo a corrupção na qual agora é acusado de chafurdar. Paulo Skaff, presidente da Fiesp, já foi do PSB. Socialismo de direita, capitalismo de esquerda. O Brasil é o país da originalidade e da cosmovisão.
Um olhar desmesurado.
*
Patinhos amarelos

Era um mantra. Durante mais de seis meses, ao longo de 2017, ouvimos diariamente o refrão: a reforma trabalhista deve ser feita para criar empregos. Políticos enchiam a boca para dizer que só a reforma funcionaria contra os mais de 14 milhões de desempregados. No Jornal Nacional, da Rede Globo, volta e meia aparecia um especialista, o professor José Pastore, para assegurar que o caminho contra o desemprego era a reforma da legislação trabalhista anacrônica, que o Jornal da Band, comemorando a vitória, associaria ao fascismo. Foi uma lavagem cerebral implacável. Reforma trabalhista igual a empregos.
Bastou a reforma ser aprovada para que a narrativa mudasse automaticamente num passe de mágica capaz de chocar qualquer incauto como eu. Uma guinada. Pastore apareceu no mesmo Jornal Nacional dizendo que não se esperasse uma criação imediata de empregos. Se isso acontecer, será dentro de alguns anos. Naércio Menezes Filho, professor do Insper, uma instituição que se especializou em fornecer entrevistados para a mídia capazes de figurar como referência de um campo, detonou: “Não houve debate com a sociedade, foi tudo muito rápido e agora terá uma MP para corrigir o que está errado. É importante frisar que não é isso que provocará a queda do desemprego”.
Em setembro de 2016, em artigo para o jornal O Estado de S. Paulo, José Pastore era puro entusiasmo: “Com 12 milhões de brasileiros desempregados e com a persistência entre os empregadores do medo de empregar, decorrente da complexidade e desatualização da CLT, o presidente do TST, ministro Ives Gandra da Silva Martins Filho, não teve dúvidas em dizer no Seminário sobre a Modernização das Relações do Trabalho (Estadão, 21/9) que o Brasil tem pressa e que os ajustes nas leis trabalhistas são urgentes e viáveis no momento atual”. Em maio deste ano, pessimista por causa da suposta força das “corporações”, adversárias da tão necessária “modernização” da CLT, Postore previa que a reforma “demorará até oito anos para pegar’. Aprovada a reforma o discurso ficou subitamente muito mais cauteloso.
Políticos ecoaram na mesma hora a nova retórica especializada. O refrão agora é este: que ninguém espere uma queda brusca nas taxas do desemprego por causa da aprovação da reforma da legislação trabalhista. Até a jornalista de economia Miriam Leitão, chamada pelos petistas de “urubóloga” por sua obsessão pelo pior, tirou o pé do acelerador: “Os objetivos das alterações eram aumentar a geração de empregos e regularizar o trabalho em áreas sem formalização. Mas o governo não levou pontos importantes em consideração”. O que houve?
Michel Temer persiste: “Quem deitar os olhos sobre a reforma trabalhista vai verificar que estamos fazendo uma coisa para combater o desemprego. As pessoas não estão preocupadas com conteúdo. A luta é política. Em brevíssimo tempo o desemprego, que já está caindo, cairá muito mais e o governo terá reconhecimento”. O desembargador Wilson Fernandes, presidente do Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região, não crê: “Ela tem sido vendida com a ideia de que vai combater o desemprego. Isto, segundo minha avaliação, é um equívoco muito grande”. É incrível como tudo pode mudar de um dia para outro. Uau!
*
Nossas estrelas

      Cada um consome o que consegue digerir. É simples assim. Eu nunca duvidei do óbvio: as pessoas gostam daquilo que conseguem entender. Amam o que podem discutir ou comentar de igual para igual. Há grupos que se divertem participando de confrarias especializadas com direito a expressões em latim ou no jargão da categoria. A população em geral vive de coisas mais universais. Basta acessar qualquer portal de internet para constatar: metade do conteúdo em destaque é sobre celebridades. A fofoca une a humanidade em torno do que nos faz seres comuns. Em 13 dias, Gretchen, catapultada à condição de estrela internacional, esteve em 11 programas de televisão de grande audiência. Ela brilha como “rainha do bumbum”. Em nossa democrática sociedade do espetáculo o bumbum vive na linha de frente.
Gretchen estraçalha. É um dos nossos orgulhos. Ainda mais agora que se tornou amiga de Katy Perry. Já Simone, da dupla sertaneja Simone e Maraísa, brilhou em dois programas globais, inclusive no do intelectual Pedro Bial, filosofando sobre o sofrimento de “dar a roda”. Primeiro ela pediu a uma especialista informações técnicas para facilitar o procedimento. Depois, na segunda instância, definiu com sabedoria e grande senso de ponderação: “Quem quiser dar a roda, tranquilo, faça o que quiser. Sofrimento desgraçado. Não existe técnica”. Foi bastante instrutivo, transgressor e filosófico. Na linguagem do momento, Simone “quebrou a internet” com a sua ousadia.
É para poucos. Outra que quebrou a internet com muito estilo foi a atriz Cléo Pires, filha de Glória e do eterno brega meloso Fábio Júnior. Ela admitiu já ter feito sexo a três. Criticada, botou os pingos nos is com desenvoltura. No seu twitter, ela cravou em bom internetês: “N sei pq o espanto. Qm faz a polêmica são vcs puritanos e hipócritas. Ñ fui a 1a e única a transar c/2 caras. Me poupm. Vão arranjar uma vida”. Eis uma declaração que faz pensar. Cruzando premissas e conclusão entendo que se ela estiver certa quem não teve a sua experiência antropológica está em grande déficit existencial.
A democratização cultural atinge o cinema. Tomemos um exemplo: o filme belga “Perdidos em Paris”. É a história de uma canadense do fim do mundo gelado que vai a Paris procurar sua velha tia. Dificilmente se conseguirá produzir um pastelão mais ridículo. É uma comédia tão sem graça que dá vontade de rir. Todo mundo entende. E tem Paris, a torre Eiffel e outros cartões postais da capital francesa. Agora é assim: ou se chafurda no gosto gratuito pela perversidade de “Neve negra”, por fidelidade ao ator argentino Ricardo Darin, ou se passeia no vazio de uma comédia que faz do exagero a sua alavanca. A direção parte de um princípio certeiro: as pessoas querem diferença e fantasia. A prova disso é o sucesso de bruxos, lobisomens e vampiros.
Falando nisso, Harry Potter faz 20 anos de sucesso, de obsessão e de quase hegemonia do mercado. Nunca Paulo Coelho teve um auxiliar tão eficaz. O jovem leitor de Potter é o adulto admirador do Mago.JM

segunda-feira, julho 17, 2017

Caça ao servidor público


Inimigo público

      Houve tempo, não muito distante, mítico ou real, embora cada vez menos lembrado, em que candidatos apresentavam programas aos seus eleitores durante campanhas animadas e governantes executavam projetos aprovados nas urnas. Era simples, prático e com algumas decepções. Acabou. Olho a cena nacional, em nível municipal, estadual e nacional, e o que vejo? Algum projeto? Nenhum. Alguma ideia de desenvolvimento? Nenhuma. Nas três esferas, a dinâmica é enfadonhamente a mesma: combater o inimigo público número um. Quem é? O funcionário público.
Existem distorções e privilégios? Certamente. Só que as estratégias em curso não parecem voltadas para combatê-los. Há alguma reforma avançando para retirar benefícios imorais autoconcedidos como o auxílio-moradia da magistratura? Não creio. O funcionário tornado alvo dos governantes sem projeto de desenvolvimento é o da parte menos aquinhoada da tabela. O funcionalismo passou a ser visto como corporação. Os políticos que defendem a eliminação dos privilégios das corporações de funcionários públicos não abrem mão das suas pencas de assessores inúteis nomeados pelos bons serviços na caça aos votos, nem, em alguns casos, das suas aposentadorias especiais escandalosas.
O ideal dos políticos sem projeto não é a melhoria da vida de todos, mas o achatamento das condições de aposentadoria da totalidade. Vamos combinar que a aposentadoria pelos valores do INSS é miserável. Quando todos ganham menos, o capitalismo agradece. Sobra mais para os donos do capital. O mundo já faz o que o Brasil quer fazer? Existem países na contramão da história. A Suécia é um deles. Capitalista e socialdemocrata, privilegia o interesse geral, não o ganho de poucos. Esses políticos sem projeto andam fugindo dos debates. Querem falar sozinhos. Sentem-se desconfortáveis no confronto de ideias. Podem ser desmentidos quando esquecem de dizer que funcionários públicos não têm FGTS, contribuem sobre a totalidade do salário e com alíquota maior.
O funcionalismo precisa fazer também a sua autocrítica. O interesse da coletividade é fundamental. Só que essa ideia esconde um sofisma: trabalhar para o contribuinte não significa ter de abrir mão de condições de labuta adequadas e da conquista de direitos. O gestor hipermoderno vende uma ilusão: se o Estado for mínimo, o custo será baixo e a satisfação será máxima. A falta de imaginação seria compensada com a desmontagem do serviço público com base na ficção de que a iniciativa privada faz tudo melhor e mais rápido. É preciso combinar essa fórmula com os suecos e com outros países europeus. Esses caras têm a mania de oferecer serviços públicos de qualidade.
Os gestores sem projeto nem imaginação sonham em alterar a regra do jogo com o jogo terminando. Isso poderia ser aplicado aos seus mandatos. Não satisfaz mais a sociedade, falhou, encurta. Só que não está regulamento. Uma boa reforma das estruturas públicas poderia começar de maneira simples: nenhum vereador terá mais de um assessor, nenhum deputado estadual terá mais de dois assistentes, nenhum prefeito ou governador terá qualquer mordomia. Cada um pagará diariamente até o cafezinho que tomar no seu gabinete. Água de graça. Nada mais do que isso.  E já bastante para que o fazem.JM

UTAD - plano estratégico 2017-2021


Na sua reunião de 1 de julho o Conselho Geral aprovou o novo plano Estratégico da UTAD em Vila Real, Portugal, para o período 2017-2021. Neste ciclo pretende-se consolidar a UTAD como Eco-Universidade para o Futuro, instituição de ensino superior de alta qualidade, atrativa, inspiradora de aprendizagens e de construção de conhecimentos interdisciplinares e âncora de coesão e de desenvolvimento cultural e socioeconómico sustentável do território, o que exige ser uma Universidade mais Coesa, mais Colaborativa, mais Conectada, mais Competitiva:
 
Universidade mais Coesa, que envolva, capacite, revigore e valorize as pessoas, comprometendo a comunidade académica com a construção de um futuro sustentável;
 
Universidade mais Colaborativa, que fomente estruturas e práticas organizativas flexíveis e reforce a capacidade de captação de receitas próprias ao nível do ensino, da investigação e da valorização do conhecimento;
 
Universidade mais Conectada, que, no plano interno, mantenha um envolvimento motivador das pessoas nas decisões, potenciando um modelo de governação que articule diferentes níveis de decisão e ação, e, externamente, aprofunde a cultura de trabalho em rede e parceria, do local ao global;
 
Universidade mais Competitiva, que interliga, de forma sistémica, atividades diferenciadas de ensino, de investigação e de valorização do conhecimento, reforçando a ligação com diferentes agentes e satisfazendo as necessidades e expectativas da sociedade em geral e do território em particular.
 
O Plano apresenta um conjunto de grandes medidas a implementar nos próximos quatro anos, visando 17 objetivos organizados em torno de cinco Eixos Estratégicos: Investigação e Valorização do Conhecimento; Ensino, Ação Social e Cultura; Internacionalização; Organização e Recursos; e Qualidade e Comunicação. Para cada objetivo são definidos indicadores de medida e metas a alcançar no final do período.
 
Tendo em conta os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) definidos pelas Nações Unidas, o Plano Estratégico apresenta um conjunto de compromissos assumidos pela UTAD, sendo os mais abrangentes: o reforço da componente de internacionalização do conhecimento produzido pela UTAD, que se reflete em vários ODS, associado aos mecanismos de divulgação e promoção das boas práticas de ciência aberta e partilha de conhecimento; a inclusão da Agenda 2030 e dos ODS na estrutura curricular dos vários cursos ministrados pela UTAD; e o reforço do papel da UTAD enquanto veículo e promotor da Agenda 2030 no contexto das suas relações com a comunidade, com as empresas e com entidades públicas ou privadas.

sexta-feira, julho 14, 2017

Agonia no auge?


Sem paradoxos e contradições, nada tem gosto de Brasil.  Existiam três operações Lava Jato: a dos procuradores do Ministério Público Federal, a do juiz Sérgio Moro e a dos políticos que queriam tirar o PT do poder. Essas três vertentes se encontraram em alguns momentos. O MPF atingiu o seu ponto mais alto na ânsia condenatória com o powerpoint do procurador Deltan Dallagnol. Sérgio Moro deu a sua maior cartada ao deixar vazar o grampo da conversa de Dilma com Lula, que levou ao fim do governo da petista. O MPF e Moro sempre tiveram intenções justificadas: combater furiosamente a corrupção forçando os limites da legislação e explorando as brechas legais para obter confissões. Exemplo: não existe número de dias fixo para a prisão preventiva. Quem sabia disso? Era pegar, usar e colher.
Acontece que Dallagnol e Moro acabaram usados pelos políticos que buscavam uma alavanca para desalojar o petismo do poder. Cansados de perder eleições e ansiosos pelo retorno do neoliberalismo de FHC, políticos decidiram jogar pesado atacando a corrupção do adversário da qual sempre foram cúmplices ou protagonistas. A Lava Jato foi obrigada a andar sempre mais rápido. Quanto mais se expôs, mais abriu o flanco para críticas: abuso de poder, seletividade, condenação sem provas materiais e por aí vai. Moro e Dallagnol tornaram-se alvo de advogados criminalistas, de militantes políticos e de constitucionalistas de ocasião. Eles teriam escolhido um foco para diminuir o atrito? Por que nunca um tucano graúdo caiu nas redes estreitas da chamada república de Curitiba? Ninguém responde.
Derrubado o petismo, a Lava Jato deixou de interessar aos velhos donos do poder. Mas Dallagnol e Moro continuaram a tocar a operação que conceberam. Só que passaram a lidar com profissionais da resistência oficial. O aparelhamento petista do Estado sempre foi amador, contraditório e tabajara. Michel Temer alterou o rumo das coisas. A Lava Jato agoniza no seu auge, justamente quando Sergio Moro se sente nas alturas. O STF já mudou o seu entendimento. O intrépido Moro perdeu inquéritos para outros juízes e lugares. A Lava Jato do Procurador-Geral da República esbarrou em conveniências antes ignoradas. Aécio Neves não foi para a cadeia, Rocha Loures anda livre, leve e solto, salvo pelo peso da tornozeleira, o dinheiro encurtou e o efetivo em Curitiba diminuiu. Geddel já está em casa.
Tudo se ajeita. A Lava Jato deverá entrar para a história como um sonho de verão de jovens procuradores, com certo viés missionário e certezas demais, mas não sem ótimas razões, e de um juiz inspirado em operações internacionais que terminaram mal. Ingênuos, eles acreditaram que com apoio da mídia e da população conseguiriam vencer todos os obstáculos. Achavam que estavam dando as cartas. Não percebiam que o baralho já estava de posse de gente acostumada a trapacear dando as cartas e jogando de mão. O que sobrará disso tudo? Uma presidente deposta, alguns empresários na cadeia por pouco tempo, algumas carreiras políticas justamente abaladas, muitos executivos corruptos albergados em suas mansões cumprindo penas de ficção e um sistema político desacreditado, mas disposto a não mudar e capaz de se reconstituir. Quem é mais forte? A Lava Jato ou o Brasil corrupto? Para Sérgio Moro faltava o último ato: condenar Lula. Está feito. O verão acabou. O resto é nuvem passageira.
No futuro, quando falarem do Brasil do começo do século XXI, os historiadores colocarão uma nota de rodapé nos seus textos para explicar o papel de Sérgio Moro na derrocada do lulopetismo e na recomposição do capitalismo nacional de compadrio. Graças a Moro tudo mudou para o mesmo.JM

quinta-feira, julho 13, 2017

Condenado sem provas!


O Brasil passou por grandes solavancos neste brevíssimo século XXI.
Em 2002, foi eleito presidente da República um ex-operário com reduzido nível de instrução formal. Lula introduziu no país um mínimo de Estado do Bem-Estar Social. Nunca a maioria viveu menos mal no Brasil como nesses poucos primeiros anos deste começo de milênio. Surgiu até uma classe C com poder aquisitivo. Em 2010, foi eleita a ex-guerrilheira Dilma Rousseff, a primeira mulher a comandar o país. Nesse meio tempo os escândalos de corrupção passaram a pipocar. O mensalão petista abalou a república. O poderoso José Dirceu virou presidiário. Alguns anos se passaram. A corrupção continuou. Surgiu a operação Lava Jato. Entrou em cena o desconhecido juiz Sérgio Moro. Tudo mudou. Vejamos.
Dilma foi apeada do poder em nome da moralidade e dos bons costumes. Assumiu Michel Temer. As panelas que bateram contra a roubalheira nos governos petistas silenciaram para sempre. O silêncio ensurdece. O mensalão tucano não foi julgado até hoje em segunda instância mesmo tendo acontecido antes do seu homônimo petista. Em breve a Câmara dos Deputados deve salvar Michel Temer de um processo no STF por corrupção. Aécio Neves foi acusado, com fartura de provas, de receber dinheiro da JBS. O próprio dono da empresa, Joesley Batista, delatou o tucano com riqueza de detalhes. Apesar disso, o mineiro reassumiu seu mandato de senador e passou longe de qualquer prisão preventiva. Muitos empresários foram presos e tornaram-se delatores. A maioria já voltou para suas mansões onde passam o tempo contando seus metais e vendo séries da Netflix. Restam Marcelo Odebrecht e Léo Pinheiro. Nenhum ficará cinco anos atrás das grades. Batista, mesmo tendo confessado uma penca de crimes, entre os quais o de comprar juízes e um procurador, foi perdoado e voa pelo mundo.
A Lava Jato agoniza. Michel Temer e seus amigos trabalham à luz do dia para desmontá-la. Aparelham o Estado com eficácia. Botaram um ministro da Justiça no STF. Nomearam uma Procuradora-Geral da República afinada com o temerismo. Nos intervalos, os temeristas aprovam reformas radicais com a da legislação trabalhista. Temer matou Getúlio Vargas pela segunda vez. A sangue frio. Realizou o sonho de Fernando Henrique Cardoso e de Fernando Collor. Agiu a mando do mercado e de parte da mídia cavalgando uma suposta ideologia da modernização que horrorizaria os atrasados suecos e os austeros alemães. Sergio Moro, no apagar dos seus holofotes, cumpriu seu ideal. Tornou-se uma nota de rodapé na biografia de Lula, a quem condenou, sem provas, a mais de nove anos de cadeia, tempo suficiente para uma prisão fechada. Moro já pode sair de cena. Lula queixa-se de que jamais morou no tríplex que lhe é atribuído e que não existe documento provando ser ele o proprietário do imóvel. Moro vê nessa falta de provas a prova cabal de um crime praticado por Lula.
A prova indiciária é nome da falta de provas. Como todo efeito tem uma causa, há de existir uma causa primeira que tudo causa ser causada por nada. É Lula. Moro é o novo rei da escolástica medieval.
Lula é o motor imóvel que tudo move sem ser movido.
Sérgio Morou cumpriu sua missão. Já pode escrever suas memórias ou ser candidato à presidência da República. O Brasil voltou a andar nos trilhos: Michel Temer é presidente, Aécio, senador, empresários corruptos estão nas suas mansões aconchegantes, milhares de anos de condenação foram perdoados, parte do dinheiro da corrupção foi recuperada, parte foi deixada com os “colaboradores” em nome de um Brasil passado a limpo. Saldo da Lava Jato: Lula condenado. Qual a diferença entre a Lava Jato e a operação Mãos Limpas? Esta derrubou todos os partidos italianos tradicionais e abriu caminho para Silvio Berlusconi. A Lava Jato foi menos voraz. Caçava uma cabeça. Só o TRF-4 pode tomar-lhe o troféu.JM

quarta-feira, julho 12, 2017

Cai ou não cai?


 Michel Temer vai ou fica? Tudo depende do DEM e do PSDB. O cavalo está passando encilhado para Rodrigo Maia. Por que ele se recusaria a fazer com o Temer o que este fez com Dilma? O paradoxo do traidor é que ele jamais pode exigir fidelidade. A presidência pode cair no colo de Rodrigo Maia. Ele nunca pensou em chegar tão longe. O resto fica por conta do PSDB. Vamos raciocinar juntos. O que desejam os tucanos? As reformas trabalhista e da Previdência. Nada mais. Eis.
Quadro um: para ter as reformas os tucanos precisam manter Michel Temer no poder? Não. A trabalhista já foi. Adeus, Getúlio. A da Previdência, mais difícil, os tucanos podem alcançar com Rodrigo Maia no comando. Qual seria a vantagem de trocar? Obter o fim desejado e ainda se gabar para o eleitor de ter despachado o governo corrupto. Os tucanos estão com a faca, o pão e o queijo nas mãos: podem ter tudo o que sonham e ainda posar de moralizadores e de inimigos da corrupção. O que falta para que compreendam o cenário? Livrar-se do medo de alguma delação imprevista.
Ousar como nunca fizeram até agora. Apenas.
Quadro dois: a mídia está louca para fazer as pazes com o PSDB. Basta um movimento para que os tucanos voltem a ser os queridinhos da chamada mídia hegemônica: expulsar Aécio Neves. Se o PSDB romper com Temer e livrar-se de Aécio, em dois toques, ressurgirá das cinzas como o partido da modernidade, do futuro, da racionalidade e da ética. Estará cacifado para ganhar as eleições de 2018. O mercado gosta do PSDB. A mídia sempre o adorou. A justiça tem uma quedinha pelos tucanos.
É só uma questão de ajuste, de detalhe, de coragem para voar.
Não existe vazio na política. O Brasil foi dominado nas últimas décadas por PT, PMDB e PSDB. Os petistas estão aglutinados em torno de Lula como filhotes que se aninham em busca de proteção. Os peemedebistas zumbem em redor de Temer já em tom de desespero sentindo a boiada se perder. Os tucanos, depois de beijar a lona, podem voltar rapidamente ao palco. Se expulsarem Aécio e abandonarem Temer, pavimentarão o caminho para João Dória em nome da oposição ao surgimento de um aventureiro como Jair Bolsonaro. Terão os tucanos coragem de expulsar o mais dileto dos seus filhos, o jovem, dinâmico, tradicional e moderno neto de Tancredo Neves? Ou temerão que ele caia atirando? Mineiros também disparam quando se sentem em perigo?
Esse é o cenário político brasileiro. Um quadro simples e cristalino: só o mais frio sobreviverá. Tudo depende de quem vai trair primeiro. O PSDB nada tem a ganhar sendo fiel a quem dormiu por anos com o seu principal inimigo. A melancolia de Michel Temer reside no fato de que ele precisa contar com o que jamais deu a alguém: confiança. Na solidão do Jaburu, Temer é um Dorian Gray que se olha no espelho do poder e vê o seu rosto se deformar a cada hora. No cristal perfeito, com pompa e faixa, aparece Rodrigo Maia. Por trás dele, vê-se o ministério: Henrique Meirelles e um bando colorido de tucanos. No Brasil, o poder corrompe, a corrupção empodera e não se perde oportunidade.
Voa mais quem salta do muro. Michel Temer sabe disso.
Michel Temer já saiu da mediocridade para entrar no rodapé da história.
Graças a ele Getúlio Vargas passou do suicídio ao assassinato.
Duas mortes com os mesmos mandantes.JM