quinta-feira, julho 20, 2017

Brasilidades


Parte do Partido Socialista Brasileiro quer entrar no DEM, bastião do liberalismo, oriundo da Arena, pilar da ditadura, tudo para apoiar o governo do PMDB de Temer, que chegou ao poder por um atalho combatendo a corrupção na qual agora é acusado de chafurdar. Paulo Skaff, presidente da Fiesp, já foi do PSB. Socialismo de direita, capitalismo de esquerda. O Brasil é o país da originalidade e da cosmovisão.
Um olhar desmesurado.
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Patinhos amarelos

Era um mantra. Durante mais de seis meses, ao longo de 2017, ouvimos diariamente o refrão: a reforma trabalhista deve ser feita para criar empregos. Políticos enchiam a boca para dizer que só a reforma funcionaria contra os mais de 14 milhões de desempregados. No Jornal Nacional, da Rede Globo, volta e meia aparecia um especialista, o professor José Pastore, para assegurar que o caminho contra o desemprego era a reforma da legislação trabalhista anacrônica, que o Jornal da Band, comemorando a vitória, associaria ao fascismo. Foi uma lavagem cerebral implacável. Reforma trabalhista igual a empregos.
Bastou a reforma ser aprovada para que a narrativa mudasse automaticamente num passe de mágica capaz de chocar qualquer incauto como eu. Uma guinada. Pastore apareceu no mesmo Jornal Nacional dizendo que não se esperasse uma criação imediata de empregos. Se isso acontecer, será dentro de alguns anos. Naércio Menezes Filho, professor do Insper, uma instituição que se especializou em fornecer entrevistados para a mídia capazes de figurar como referência de um campo, detonou: “Não houve debate com a sociedade, foi tudo muito rápido e agora terá uma MP para corrigir o que está errado. É importante frisar que não é isso que provocará a queda do desemprego”.
Em setembro de 2016, em artigo para o jornal O Estado de S. Paulo, José Pastore era puro entusiasmo: “Com 12 milhões de brasileiros desempregados e com a persistência entre os empregadores do medo de empregar, decorrente da complexidade e desatualização da CLT, o presidente do TST, ministro Ives Gandra da Silva Martins Filho, não teve dúvidas em dizer no Seminário sobre a Modernização das Relações do Trabalho (Estadão, 21/9) que o Brasil tem pressa e que os ajustes nas leis trabalhistas são urgentes e viáveis no momento atual”. Em maio deste ano, pessimista por causa da suposta força das “corporações”, adversárias da tão necessária “modernização” da CLT, Postore previa que a reforma “demorará até oito anos para pegar’. Aprovada a reforma o discurso ficou subitamente muito mais cauteloso.
Políticos ecoaram na mesma hora a nova retórica especializada. O refrão agora é este: que ninguém espere uma queda brusca nas taxas do desemprego por causa da aprovação da reforma da legislação trabalhista. Até a jornalista de economia Miriam Leitão, chamada pelos petistas de “urubóloga” por sua obsessão pelo pior, tirou o pé do acelerador: “Os objetivos das alterações eram aumentar a geração de empregos e regularizar o trabalho em áreas sem formalização. Mas o governo não levou pontos importantes em consideração”. O que houve?
Michel Temer persiste: “Quem deitar os olhos sobre a reforma trabalhista vai verificar que estamos fazendo uma coisa para combater o desemprego. As pessoas não estão preocupadas com conteúdo. A luta é política. Em brevíssimo tempo o desemprego, que já está caindo, cairá muito mais e o governo terá reconhecimento”. O desembargador Wilson Fernandes, presidente do Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região, não crê: “Ela tem sido vendida com a ideia de que vai combater o desemprego. Isto, segundo minha avaliação, é um equívoco muito grande”. É incrível como tudo pode mudar de um dia para outro. Uau!
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Nossas estrelas

      Cada um consome o que consegue digerir. É simples assim. Eu nunca duvidei do óbvio: as pessoas gostam daquilo que conseguem entender. Amam o que podem discutir ou comentar de igual para igual. Há grupos que se divertem participando de confrarias especializadas com direito a expressões em latim ou no jargão da categoria. A população em geral vive de coisas mais universais. Basta acessar qualquer portal de internet para constatar: metade do conteúdo em destaque é sobre celebridades. A fofoca une a humanidade em torno do que nos faz seres comuns. Em 13 dias, Gretchen, catapultada à condição de estrela internacional, esteve em 11 programas de televisão de grande audiência. Ela brilha como “rainha do bumbum”. Em nossa democrática sociedade do espetáculo o bumbum vive na linha de frente.
Gretchen estraçalha. É um dos nossos orgulhos. Ainda mais agora que se tornou amiga de Katy Perry. Já Simone, da dupla sertaneja Simone e Maraísa, brilhou em dois programas globais, inclusive no do intelectual Pedro Bial, filosofando sobre o sofrimento de “dar a roda”. Primeiro ela pediu a uma especialista informações técnicas para facilitar o procedimento. Depois, na segunda instância, definiu com sabedoria e grande senso de ponderação: “Quem quiser dar a roda, tranquilo, faça o que quiser. Sofrimento desgraçado. Não existe técnica”. Foi bastante instrutivo, transgressor e filosófico. Na linguagem do momento, Simone “quebrou a internet” com a sua ousadia.
É para poucos. Outra que quebrou a internet com muito estilo foi a atriz Cléo Pires, filha de Glória e do eterno brega meloso Fábio Júnior. Ela admitiu já ter feito sexo a três. Criticada, botou os pingos nos is com desenvoltura. No seu twitter, ela cravou em bom internetês: “N sei pq o espanto. Qm faz a polêmica são vcs puritanos e hipócritas. Ñ fui a 1a e única a transar c/2 caras. Me poupm. Vão arranjar uma vida”. Eis uma declaração que faz pensar. Cruzando premissas e conclusão entendo que se ela estiver certa quem não teve a sua experiência antropológica está em grande déficit existencial.
A democratização cultural atinge o cinema. Tomemos um exemplo: o filme belga “Perdidos em Paris”. É a história de uma canadense do fim do mundo gelado que vai a Paris procurar sua velha tia. Dificilmente se conseguirá produzir um pastelão mais ridículo. É uma comédia tão sem graça que dá vontade de rir. Todo mundo entende. E tem Paris, a torre Eiffel e outros cartões postais da capital francesa. Agora é assim: ou se chafurda no gosto gratuito pela perversidade de “Neve negra”, por fidelidade ao ator argentino Ricardo Darin, ou se passeia no vazio de uma comédia que faz do exagero a sua alavanca. A direção parte de um princípio certeiro: as pessoas querem diferença e fantasia. A prova disso é o sucesso de bruxos, lobisomens e vampiros.
Falando nisso, Harry Potter faz 20 anos de sucesso, de obsessão e de quase hegemonia do mercado. Nunca Paulo Coelho teve um auxiliar tão eficaz. O jovem leitor de Potter é o adulto admirador do Mago.JM

segunda-feira, julho 17, 2017

Caça ao servidor público


Inimigo público

      Houve tempo, não muito distante, mítico ou real, embora cada vez menos lembrado, em que candidatos apresentavam programas aos seus eleitores durante campanhas animadas e governantes executavam projetos aprovados nas urnas. Era simples, prático e com algumas decepções. Acabou. Olho a cena nacional, em nível municipal, estadual e nacional, e o que vejo? Algum projeto? Nenhum. Alguma ideia de desenvolvimento? Nenhuma. Nas três esferas, a dinâmica é enfadonhamente a mesma: combater o inimigo público número um. Quem é? O funcionário público.
Existem distorções e privilégios? Certamente. Só que as estratégias em curso não parecem voltadas para combatê-los. Há alguma reforma avançando para retirar benefícios imorais autoconcedidos como o auxílio-moradia da magistratura? Não creio. O funcionário tornado alvo dos governantes sem projeto de desenvolvimento é o da parte menos aquinhoada da tabela. O funcionalismo passou a ser visto como corporação. Os políticos que defendem a eliminação dos privilégios das corporações de funcionários públicos não abrem mão das suas pencas de assessores inúteis nomeados pelos bons serviços na caça aos votos, nem, em alguns casos, das suas aposentadorias especiais escandalosas.
O ideal dos políticos sem projeto não é a melhoria da vida de todos, mas o achatamento das condições de aposentadoria da totalidade. Vamos combinar que a aposentadoria pelos valores do INSS é miserável. Quando todos ganham menos, o capitalismo agradece. Sobra mais para os donos do capital. O mundo já faz o que o Brasil quer fazer? Existem países na contramão da história. A Suécia é um deles. Capitalista e socialdemocrata, privilegia o interesse geral, não o ganho de poucos. Esses políticos sem projeto andam fugindo dos debates. Querem falar sozinhos. Sentem-se desconfortáveis no confronto de ideias. Podem ser desmentidos quando esquecem de dizer que funcionários públicos não têm FGTS, contribuem sobre a totalidade do salário e com alíquota maior.
O funcionalismo precisa fazer também a sua autocrítica. O interesse da coletividade é fundamental. Só que essa ideia esconde um sofisma: trabalhar para o contribuinte não significa ter de abrir mão de condições de labuta adequadas e da conquista de direitos. O gestor hipermoderno vende uma ilusão: se o Estado for mínimo, o custo será baixo e a satisfação será máxima. A falta de imaginação seria compensada com a desmontagem do serviço público com base na ficção de que a iniciativa privada faz tudo melhor e mais rápido. É preciso combinar essa fórmula com os suecos e com outros países europeus. Esses caras têm a mania de oferecer serviços públicos de qualidade.
Os gestores sem projeto nem imaginação sonham em alterar a regra do jogo com o jogo terminando. Isso poderia ser aplicado aos seus mandatos. Não satisfaz mais a sociedade, falhou, encurta. Só que não está regulamento. Uma boa reforma das estruturas públicas poderia começar de maneira simples: nenhum vereador terá mais de um assessor, nenhum deputado estadual terá mais de dois assistentes, nenhum prefeito ou governador terá qualquer mordomia. Cada um pagará diariamente até o cafezinho que tomar no seu gabinete. Água de graça. Nada mais do que isso.  E já bastante para que o fazem.JM

UTAD - plano estratégico 2017-2021


Na sua reunião de 1 de julho o Conselho Geral aprovou o novo plano Estratégico da UTAD em Vila Real, Portugal, para o período 2017-2021. Neste ciclo pretende-se consolidar a UTAD como Eco-Universidade para o Futuro, instituição de ensino superior de alta qualidade, atrativa, inspiradora de aprendizagens e de construção de conhecimentos interdisciplinares e âncora de coesão e de desenvolvimento cultural e socioeconómico sustentável do território, o que exige ser uma Universidade mais Coesa, mais Colaborativa, mais Conectada, mais Competitiva:
 
Universidade mais Coesa, que envolva, capacite, revigore e valorize as pessoas, comprometendo a comunidade académica com a construção de um futuro sustentável;
 
Universidade mais Colaborativa, que fomente estruturas e práticas organizativas flexíveis e reforce a capacidade de captação de receitas próprias ao nível do ensino, da investigação e da valorização do conhecimento;
 
Universidade mais Conectada, que, no plano interno, mantenha um envolvimento motivador das pessoas nas decisões, potenciando um modelo de governação que articule diferentes níveis de decisão e ação, e, externamente, aprofunde a cultura de trabalho em rede e parceria, do local ao global;
 
Universidade mais Competitiva, que interliga, de forma sistémica, atividades diferenciadas de ensino, de investigação e de valorização do conhecimento, reforçando a ligação com diferentes agentes e satisfazendo as necessidades e expectativas da sociedade em geral e do território em particular.
 
O Plano apresenta um conjunto de grandes medidas a implementar nos próximos quatro anos, visando 17 objetivos organizados em torno de cinco Eixos Estratégicos: Investigação e Valorização do Conhecimento; Ensino, Ação Social e Cultura; Internacionalização; Organização e Recursos; e Qualidade e Comunicação. Para cada objetivo são definidos indicadores de medida e metas a alcançar no final do período.
 
Tendo em conta os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) definidos pelas Nações Unidas, o Plano Estratégico apresenta um conjunto de compromissos assumidos pela UTAD, sendo os mais abrangentes: o reforço da componente de internacionalização do conhecimento produzido pela UTAD, que se reflete em vários ODS, associado aos mecanismos de divulgação e promoção das boas práticas de ciência aberta e partilha de conhecimento; a inclusão da Agenda 2030 e dos ODS na estrutura curricular dos vários cursos ministrados pela UTAD; e o reforço do papel da UTAD enquanto veículo e promotor da Agenda 2030 no contexto das suas relações com a comunidade, com as empresas e com entidades públicas ou privadas.

sexta-feira, julho 14, 2017

Agonia no auge?


Sem paradoxos e contradições, nada tem gosto de Brasil.  Existiam três operações Lava Jato: a dos procuradores do Ministério Público Federal, a do juiz Sérgio Moro e a dos políticos que queriam tirar o PT do poder. Essas três vertentes se encontraram em alguns momentos. O MPF atingiu o seu ponto mais alto na ânsia condenatória com o powerpoint do procurador Deltan Dallagnol. Sérgio Moro deu a sua maior cartada ao deixar vazar o grampo da conversa de Dilma com Lula, que levou ao fim do governo da petista. O MPF e Moro sempre tiveram intenções justificadas: combater furiosamente a corrupção forçando os limites da legislação e explorando as brechas legais para obter confissões. Exemplo: não existe número de dias fixo para a prisão preventiva. Quem sabia disso? Era pegar, usar e colher.
Acontece que Dallagnol e Moro acabaram usados pelos políticos que buscavam uma alavanca para desalojar o petismo do poder. Cansados de perder eleições e ansiosos pelo retorno do neoliberalismo de FHC, políticos decidiram jogar pesado atacando a corrupção do adversário da qual sempre foram cúmplices ou protagonistas. A Lava Jato foi obrigada a andar sempre mais rápido. Quanto mais se expôs, mais abriu o flanco para críticas: abuso de poder, seletividade, condenação sem provas materiais e por aí vai. Moro e Dallagnol tornaram-se alvo de advogados criminalistas, de militantes políticos e de constitucionalistas de ocasião. Eles teriam escolhido um foco para diminuir o atrito? Por que nunca um tucano graúdo caiu nas redes estreitas da chamada república de Curitiba? Ninguém responde.
Derrubado o petismo, a Lava Jato deixou de interessar aos velhos donos do poder. Mas Dallagnol e Moro continuaram a tocar a operação que conceberam. Só que passaram a lidar com profissionais da resistência oficial. O aparelhamento petista do Estado sempre foi amador, contraditório e tabajara. Michel Temer alterou o rumo das coisas. A Lava Jato agoniza no seu auge, justamente quando Sergio Moro se sente nas alturas. O STF já mudou o seu entendimento. O intrépido Moro perdeu inquéritos para outros juízes e lugares. A Lava Jato do Procurador-Geral da República esbarrou em conveniências antes ignoradas. Aécio Neves não foi para a cadeia, Rocha Loures anda livre, leve e solto, salvo pelo peso da tornozeleira, o dinheiro encurtou e o efetivo em Curitiba diminuiu. Geddel já está em casa.
Tudo se ajeita. A Lava Jato deverá entrar para a história como um sonho de verão de jovens procuradores, com certo viés missionário e certezas demais, mas não sem ótimas razões, e de um juiz inspirado em operações internacionais que terminaram mal. Ingênuos, eles acreditaram que com apoio da mídia e da população conseguiriam vencer todos os obstáculos. Achavam que estavam dando as cartas. Não percebiam que o baralho já estava de posse de gente acostumada a trapacear dando as cartas e jogando de mão. O que sobrará disso tudo? Uma presidente deposta, alguns empresários na cadeia por pouco tempo, algumas carreiras políticas justamente abaladas, muitos executivos corruptos albergados em suas mansões cumprindo penas de ficção e um sistema político desacreditado, mas disposto a não mudar e capaz de se reconstituir. Quem é mais forte? A Lava Jato ou o Brasil corrupto? Para Sérgio Moro faltava o último ato: condenar Lula. Está feito. O verão acabou. O resto é nuvem passageira.
No futuro, quando falarem do Brasil do começo do século XXI, os historiadores colocarão uma nota de rodapé nos seus textos para explicar o papel de Sérgio Moro na derrocada do lulopetismo e na recomposição do capitalismo nacional de compadrio. Graças a Moro tudo mudou para o mesmo.JM

quinta-feira, julho 13, 2017

Condenado sem provas!


O Brasil passou por grandes solavancos neste brevíssimo século XXI.
Em 2002, foi eleito presidente da República um ex-operário com reduzido nível de instrução formal. Lula introduziu no país um mínimo de Estado do Bem-Estar Social. Nunca a maioria viveu menos mal no Brasil como nesses poucos primeiros anos deste começo de milênio. Surgiu até uma classe C com poder aquisitivo. Em 2010, foi eleita a ex-guerrilheira Dilma Rousseff, a primeira mulher a comandar o país. Nesse meio tempo os escândalos de corrupção passaram a pipocar. O mensalão petista abalou a república. O poderoso José Dirceu virou presidiário. Alguns anos se passaram. A corrupção continuou. Surgiu a operação Lava Jato. Entrou em cena o desconhecido juiz Sérgio Moro. Tudo mudou. Vejamos.
Dilma foi apeada do poder em nome da moralidade e dos bons costumes. Assumiu Michel Temer. As panelas que bateram contra a roubalheira nos governos petistas silenciaram para sempre. O silêncio ensurdece. O mensalão tucano não foi julgado até hoje em segunda instância mesmo tendo acontecido antes do seu homônimo petista. Em breve a Câmara dos Deputados deve salvar Michel Temer de um processo no STF por corrupção. Aécio Neves foi acusado, com fartura de provas, de receber dinheiro da JBS. O próprio dono da empresa, Joesley Batista, delatou o tucano com riqueza de detalhes. Apesar disso, o mineiro reassumiu seu mandato de senador e passou longe de qualquer prisão preventiva. Muitos empresários foram presos e tornaram-se delatores. A maioria já voltou para suas mansões onde passam o tempo contando seus metais e vendo séries da Netflix. Restam Marcelo Odebrecht e Léo Pinheiro. Nenhum ficará cinco anos atrás das grades. Batista, mesmo tendo confessado uma penca de crimes, entre os quais o de comprar juízes e um procurador, foi perdoado e voa pelo mundo.
A Lava Jato agoniza. Michel Temer e seus amigos trabalham à luz do dia para desmontá-la. Aparelham o Estado com eficácia. Botaram um ministro da Justiça no STF. Nomearam uma Procuradora-Geral da República afinada com o temerismo. Nos intervalos, os temeristas aprovam reformas radicais com a da legislação trabalhista. Temer matou Getúlio Vargas pela segunda vez. A sangue frio. Realizou o sonho de Fernando Henrique Cardoso e de Fernando Collor. Agiu a mando do mercado e de parte da mídia cavalgando uma suposta ideologia da modernização que horrorizaria os atrasados suecos e os austeros alemães. Sergio Moro, no apagar dos seus holofotes, cumpriu seu ideal. Tornou-se uma nota de rodapé na biografia de Lula, a quem condenou, sem provas, a mais de nove anos de cadeia, tempo suficiente para uma prisão fechada. Moro já pode sair de cena. Lula queixa-se de que jamais morou no tríplex que lhe é atribuído e que não existe documento provando ser ele o proprietário do imóvel. Moro vê nessa falta de provas a prova cabal de um crime praticado por Lula.
A prova indiciária é nome da falta de provas. Como todo efeito tem uma causa, há de existir uma causa primeira que tudo causa ser causada por nada. É Lula. Moro é o novo rei da escolástica medieval.
Lula é o motor imóvel que tudo move sem ser movido.
Sérgio Morou cumpriu sua missão. Já pode escrever suas memórias ou ser candidato à presidência da República. O Brasil voltou a andar nos trilhos: Michel Temer é presidente, Aécio, senador, empresários corruptos estão nas suas mansões aconchegantes, milhares de anos de condenação foram perdoados, parte do dinheiro da corrupção foi recuperada, parte foi deixada com os “colaboradores” em nome de um Brasil passado a limpo. Saldo da Lava Jato: Lula condenado. Qual a diferença entre a Lava Jato e a operação Mãos Limpas? Esta derrubou todos os partidos italianos tradicionais e abriu caminho para Silvio Berlusconi. A Lava Jato foi menos voraz. Caçava uma cabeça. Só o TRF-4 pode tomar-lhe o troféu.JM

quarta-feira, julho 12, 2017

Cai ou não cai?


 Michel Temer vai ou fica? Tudo depende do DEM e do PSDB. O cavalo está passando encilhado para Rodrigo Maia. Por que ele se recusaria a fazer com o Temer o que este fez com Dilma? O paradoxo do traidor é que ele jamais pode exigir fidelidade. A presidência pode cair no colo de Rodrigo Maia. Ele nunca pensou em chegar tão longe. O resto fica por conta do PSDB. Vamos raciocinar juntos. O que desejam os tucanos? As reformas trabalhista e da Previdência. Nada mais. Eis.
Quadro um: para ter as reformas os tucanos precisam manter Michel Temer no poder? Não. A trabalhista já foi. Adeus, Getúlio. A da Previdência, mais difícil, os tucanos podem alcançar com Rodrigo Maia no comando. Qual seria a vantagem de trocar? Obter o fim desejado e ainda se gabar para o eleitor de ter despachado o governo corrupto. Os tucanos estão com a faca, o pão e o queijo nas mãos: podem ter tudo o que sonham e ainda posar de moralizadores e de inimigos da corrupção. O que falta para que compreendam o cenário? Livrar-se do medo de alguma delação imprevista.
Ousar como nunca fizeram até agora. Apenas.
Quadro dois: a mídia está louca para fazer as pazes com o PSDB. Basta um movimento para que os tucanos voltem a ser os queridinhos da chamada mídia hegemônica: expulsar Aécio Neves. Se o PSDB romper com Temer e livrar-se de Aécio, em dois toques, ressurgirá das cinzas como o partido da modernidade, do futuro, da racionalidade e da ética. Estará cacifado para ganhar as eleições de 2018. O mercado gosta do PSDB. A mídia sempre o adorou. A justiça tem uma quedinha pelos tucanos.
É só uma questão de ajuste, de detalhe, de coragem para voar.
Não existe vazio na política. O Brasil foi dominado nas últimas décadas por PT, PMDB e PSDB. Os petistas estão aglutinados em torno de Lula como filhotes que se aninham em busca de proteção. Os peemedebistas zumbem em redor de Temer já em tom de desespero sentindo a boiada se perder. Os tucanos, depois de beijar a lona, podem voltar rapidamente ao palco. Se expulsarem Aécio e abandonarem Temer, pavimentarão o caminho para João Dória em nome da oposição ao surgimento de um aventureiro como Jair Bolsonaro. Terão os tucanos coragem de expulsar o mais dileto dos seus filhos, o jovem, dinâmico, tradicional e moderno neto de Tancredo Neves? Ou temerão que ele caia atirando? Mineiros também disparam quando se sentem em perigo?
Esse é o cenário político brasileiro. Um quadro simples e cristalino: só o mais frio sobreviverá. Tudo depende de quem vai trair primeiro. O PSDB nada tem a ganhar sendo fiel a quem dormiu por anos com o seu principal inimigo. A melancolia de Michel Temer reside no fato de que ele precisa contar com o que jamais deu a alguém: confiança. Na solidão do Jaburu, Temer é um Dorian Gray que se olha no espelho do poder e vê o seu rosto se deformar a cada hora. No cristal perfeito, com pompa e faixa, aparece Rodrigo Maia. Por trás dele, vê-se o ministério: Henrique Meirelles e um bando colorido de tucanos. No Brasil, o poder corrompe, a corrupção empodera e não se perde oportunidade.
Voa mais quem salta do muro. Michel Temer sabe disso.
Michel Temer já saiu da mediocridade para entrar no rodapé da história.
Graças a ele Getúlio Vargas passou do suicídio ao assassinato.
Duas mortes com os mesmos mandantes.JM

terça-feira, julho 11, 2017

Saída de Temer?



Interessante que os jornais usem o termo "aliado" para aqueles que dão seu apoio a políticos, líderes, candidatos, membros do Judiciário etc. Depois de tantos escândalos (fora os que ainda virão) não seria mais correto chamar de "comparsa" ? (André Luis Coutinho, de Campinas, SP, no Painel do Leitor da Folha).
***
Num tempo e numa terra em que ninguém mais confia em ninguém, nem no Judiciário, de nada adianta mudar leis ou presidentes.
Michel Temer pode cair mesmo se as novas leis trabalhistas forem aprovadas nesta terça-feira no Senado, pois a questão central permanece: a falta de confiança generalizada, não só no governo, mas nas instituições.
A ironia da história é que a reforma trabalhista representa uma vitória do governo Temer, mas poderá apressar o ocaso porque ele já terá cumprido sua missão no Palácio do Planalto.
"O PSDB está desembarcando independentemente do meu controle e da minha vontade", anunciou na véspera da votação o senador Tasso Jereissati, presidente interino do PSDB, após quatro horas de reunião dos caciques tucanos, na noite de segunda-feira, em São Paulo.
Para não variar, o PSDB nada decidiu, mas Tasso adiantou que o partido só vai esperar agora a votação da admissibilidade da denúncia por corrupção passiva na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, que pode acontecer nesta quinta-feira.
Aprovada a reforma trabalhista, só restaria a previdenciária, mas esta já foi desfigurada e jogada para as calendas, sem que Temer mostre condições políticas para retomar a discussão no Congresso.
Era nelas que Temer jogava sua sobrevivência, depois de ser encurralado pelas delações da Lava Jato, mas agora o establishment já está achando que o atual presidente se tornou um estorvo, e se movimenta abertamente para buscar uma alternativa.
Com a rápida deterioração da governabilidade, a base aliada, os mercados e a mídia já estão se acertando com Rodrigo Maia, o presidente da Câmara e possível sucessor, para manter a atual equipe e o projeto econômico, que é o que interessa.
Em Brasília, no domingo, reuniões para discutir o "pós-Temer" se sucederam durante todo o dia, com a participação de parlamentares da base aliada, líderes partidários, ministros e do próprio Rodrigo Maia.
No final da manhã, depois de uma conversa nada agradável com Temer no Palácio do Jaburu, que durou menos de uma hora, Maia seguiu direto para um almoço oferecido pelo vice-presidente de Relações Institucionais do Grupo Globo, Paulo Tonet, a um seleto grupo de deputados, como relatam Marina Dias e Daniela Lima, na Folha.
Ao longo de cinco horas de conversa, Maia deu como irreversível a queda do presidente Temer. Antes do dia acabar, o presidente da Câmara ligou para os aliados reunidos com Temer no Palácio da Alvorada e os convidou para um jantar com pizza e sopa.
"Em sua casa, Maia falou sobre a conversa com o presidente mais cedo, relatou seu almoço com a direção da emissora e vaticinou o fim do atual governo", segundo a Folha.
Enquanto isso, Temer tinha que se dedicar pessoalmente ao varejão do troca-troca de deputados aliados na CCJ, onde sofreria sua primeira derrota na segunda-feira, com o parecer favorável à denúncia apresentado pelo relator Sérgio Zveiter, do seu próprio partido, um sinal claro do desmanche da base aliada.
Por outra ironia da história, a ciranda da traição dançada em Brasília faz lembrar os últimos dias do governo de Dilma Rousseff antes da aprovação do impeachment.
A grande diferença é que Temer ainda parece contar com a maioria do Centrão, o baixo clero que domina a Câmara, onde a oposição ao presidente precisa de 342 votos para aprovar a denúncia.
Ao contrário de Dilma, seu ex-vice gosta e sabe negociar com deputados.RK

domingo, julho 09, 2017

96 ANOS DE MORIN!




A modernidade representou como nunca o imaginário da unidade, da clareza, da identidade e da eliminação das contradições. O homem moderno queria ser transparente.
Paradoxalmente a modernidade levou da obsessão pela transparência ao culto da visibilidade. Um salto opaco. Ao longo dos séculos, a ciência moderna investiu na dominação da natureza. Aos poucos, no entanto, enormes brechas apareceram: a terra não é o centro do universo, o homem não é um ser soberano a ponto de ter consciência de todos os seus desejos e motivações. Freud cravou uma estaca no coração da vaidade e da racionalidade humanas: há um “continente escuro” aquém e além da racionalidade contaminando e influenciando as ações de cada homem.
Compreender a complexidade, a importância da diversidade, do universal, da relativização e do respeito à diferença e da pluralidade do ser humano exige um olhar generoso, rigoroso, atento ao todo e também à parte. Edgar Morin, sábio, pensador da complexidade – complexo é aquilo que se tece em conjunto, articulando vários fios –, sustenta que precisamos buscar a unitas multiplex. Mas o que é realmente essa unidade múltipla? Ou, dito de outra forma, como conciliar inconciliáveis, equilibrar antagonismos e alcançar unidade na diversidade e diversidade na unidade? Como ser um uno múltiplo? Como comunicar aquilo que parece estar além da comunicação?
A complexidade, pelo “princípio hologramático”, formulado por Morin, baseado em Pascal, explicita o paradoxo todo/parte: a parte está no todo, que está na parte. Para Edgar Morin, intelectual longevo, nascido em 1921, a unitas multiplex remete à complexidade, que implica diversidade, cruzamentos, diferenças, inter, multi e transdisciplinaridade. Esta transdisciplinaridade é muito mais do que uma justaposição de disciplinas, mas um saber produzido para além da compartimentação disciplinar. Ser complexo é buscar, ao mesmo tempo, a explicação (racional, lógica, abstrata) e a compreensão (concreta, relacionada à empatia, ao procedimento de colocar-se no lugar do outro). A complexidade exige pensar o universal e o particular num mesmo movimento. Ou pensar o abstrato pelo concreto e o concerto pelo abstrato. Ser complexo significa defender a importância do universal e do particular, do geral e do singular, do comum entre homens e do que os diferencia.
No livro Minha esquerda, Morin dá uma mostra dessa unidade na multiplicidade e dessa multiplicidade unitária. A epígrafe já diz tudo: “Eu sou um direitista de esquerda. Direitista porque valorizo muito as liberdades, mas, ao mesmo tempo, sou muito esquerdista, pois tenho a convicção de que nossa sociedade precisa de transformações profundas e radicais. Tornei-me um conservador revolucionário. Precisamos revolucionar tudo, mas conservando os tesouros da nossa cultura”.
No Método 5, o conceito ganha corpo: “Quanto mais a diversidade humana é visível, mais a unidade humana torna-se, hoje, invisível aos espíritos que só conhecem fracionando, separando, catalogando, compartimentando. Ou, então, o que aparece aos espíritos abstratos é uma unidade abstrata que oculta as diferenças. Precisamos conceber a unidade múltipla, unitas multiplex. Assim, a diversidade está inscrita numa unidade da vida. Esta, a partir de um primeiro ser celular, diversificou-se fervilhando pelos reinos vegetal e animal. Deve-se essa diversidade, quanto aos animais nascidos da reprodução sexuada, à singularidade oriunda da combinação de dois patrimônios genéticos, mas também ao desenvolvimento próprio e às experiências particulares vividas por cada um até a idade adulta; assim, entre os animais domesticados, as violências sofridas ou as carícias recebidas, determinam caracteres opostos”.
Conceber essa unitas multiplex significa, portanto, apostar na complexidade como visão de mundo e modo de existência, o que só pode ser atingido por meio de uma atitude transdisciplinar, mais do que inter e multi. Edgar Morin explica: “As palavras importam muito e, ao mesmo tempo, pouco. No caso de multi, inter e transdisciplinaridade, cada um desses termos tem uma contribuição a dar, mas nenhum se basta. O importante mesmo é a atitude epistemológica. A interdisciplinaridade junta disciplinas diferentes;  a multidisciplinaridade, articula-as; só a transdisciplinaridade, porém, supera a particularidade, conjuga os saberes e faz com que aportes diferentes trabalhem por um mesmo fim”. Qual fim?
O fim também deve ser uno e múltiplo: proteger o homem e o seu ambiente, o homem no seu ambiente, o meio sem qual o homem não floresce, o homem sem o qual o meio permanece virgem, a virgindade do meio como marca simbólica de uma origem que não pode desaparecer. A ilusão do homem  moderno consistiu em pensar que podia dominar uma natureza de recursos inesgotáveis. Nesse sentido, o homem é complexo é, ao mesmo tempo, mais lúcido, mais modesto, mais pragmático e mais prudente. O homem moderno, na sua simplicidade cientificista, queria construir o melhor dos mundos. As suas utopias eram totalizantes. O homem complexo, como indica Morin, sabe que não pode chegar ao melhor dos mundos, mas nada o impede de trabalhar por um mundo melhor. Eis o desafio.
Edgar Morin prega uma reforma do pensamento. Precisamos aprender a pensar complexamente para tentar responder às incontornáveis questões kantianas: o que podemos saber? O que devemos fazer? O que temos direito de esperar? O que é o homem? Talvez a melhor maneira de responder a essa última questão seja tentar dizer quem é o homem que propõe essa reforma de pensamento, contrariando o primado das especializações, em pleno século XXI. Quem é esse Edgar Morin, uno na sua multiplicidade de personagens, de saberes, de posturas, de visões de mundo e de obras? Tomaremos um homem, Edgar Morin, na sua singularidade para pensar o ser humano na sua universalidade e também na sua relatividade.

Quem é o homem?
    
Pensador pluralista, nascido em Paris, Edgar Morin mescla as ciências humanas com a biologia e a física, entre outras disciplinas do conhecimento compartimentado, para estudar os problemas do mundo contemporâneo. Interessa a ele compreender o mundo vivido com o objetivo de imaginar, longe das certezas e das leis históricas, possíveis  desdobramentos dos imaginários futuros. Morin assegura que o Sujeito é fundamental na construção do presente. Enquanto houver sonho de mudança social, afirma, haverá política, reforma, utopia e transformação.
Entre os livros fundamentais que escreveu devem ser citados com paixão O Cinema e o Homem ImaginárioO Paradigma Perdido, a natureza humanaAs Estrelas, os seis volumes do MétodoPara Sair do Século XX , Terra-Pátria, Meus demônios Minha esquerda. Obras plenas de vida, de criatividade e de originalidade. Elogios da inteligência humana e convites ao prazer da reflexão.
     Nos tempos de Jean-Paul Sartre intelectual engajado, os vendedores de certezas encantavam o mundo e afirmavam-se como fenômenos do pensamento. Passada a época das utopias racionalistas que prometiam o paraíso, mergulhadas no irracionalismo metafísico e na arrogância de uma cientificidade insustentável, espalhou-se que não havia mais grandes intelectuais para estudar a complexidade da vida. Magnífico erro. Mera simplificação.
Edgar Morin está aí para provar o contrário. Ele não vende ilusões. Em Meus Demônios, obra na qual resume a sua luta e as ideias obsessivas que o dominaram ao longo de uma vida de aventura intelectual, conta como descobriu, durante a Segunda Guerra Mundial, o marxismo. O encantamento durou pouco. O homem generoso, sempre em busca da tolerância, percebeu, segundo a expressão de Karl Korsch, que o ideário marxista tornara-se uma “utopia reacionária”. Queria ser muitos numa identidade.
Para ele, vive-se hoje a decadência de um tipo de ideia de futuro: “Uma concepção determinista, otimista e crente no progresso. Acreditava-se acriticamente na técnica, na ciência e nos  efeitos benéficos, necessariamente emancipadores, da Razão. Nas nações do socialismo real ou no mundo capitalista, com a mesma intensidade, apostou-se no futuro radioso. A crise não é derivada apenas da queda do comunismo, mas também de um abalo geral de civilização. A instabilidade econômica é global (…) Descobrimos, porém, que a ciência também pode produzir ignorância, pois o conhecimento fecha-se na especialização. A indústria fabrica objetos úteis e também ameaças ao universo como a poluição. Por fim, o fundamento mesmo do futuro radioso não se sustenta mais: ninguém sabe o que acontecerá amanhã. Não há modo de fazer previsões seguras”. Complexidade significa também saber viver na incerteza constitutiva da vida real.
Para Morin os intelectuais e cientistas adoram denunciar o cretinismo dos meios de comunicação de massa e dos incultos, sem jamais admitir que os espíritos simples possuem também um saber e a capacidade de participar intensamente da emoção de um filme, por exemplo, e ainda assim estabelecer a diferença entre ficção e realidade. Os intelectuais, afirma, são alienados, através de uma ideologia abstrata, que não podem suportar a alienação dos outros pelas telenovelas.
Irônico, Morin salienta o essencial: os intelectuais atacam o conformismo e os estereótipos e esquecem que eles mesmos formam uma subcultura convencional, cheia de estereótipos, conformista e preconceituosa. Nenhuma moda escapa-lhe: estruturalistas, marxistas, althusserianos, eliminadores da ideia de homem e de sujeito, “cretinos de todo tipo”, recebem a sua lambada. Solitário, Morin sabe que pouco pode contra os representantes da elitização de um saber impotente em relação à complexidade existencial, mas poderoso enquanto mecanismo de dominação. Ser complexo implica participar de um campo de saber e, ao mesmo tempo, se necessário, entrar em conflito com ele.
Intelectual, sugere Morin, é quem através do ensaio, do texto de revista ou do artigo de jornal, “de maneira não-especializada” (fora do jargão), mas com riqueza de informação, trata dos grandes questões humanas com a finalidade de complexificá-las. Interdisciplinar de fato, Edgar Morin odeia as especializações que não procuram o intercâmbio, perdem a visão de globalidade e esquecem a comunicação com a sociedade. Homens de saber alheios à dialógica da complexidade não passam de gafanhotos – simpáticos, quando isolados; predadores, em bando.
Terra-Pátria, no qual colaborou Anne-Brigitte Kern, ê o livro fundamental para o exame do fenômeno nacionalista do final do século XX. Tudo está nele: pátria, nação, universalismo, identidade, ecologia, política, comunidade, etc. Os mecanismos para a compreensão da complexa rede social contemporânea são fornecidos com a limpidez costumeira ao texto de Morin.
A razão para o seu compromisso com a transformação é simples: “Ninguém vive sem projeções relativas ao devir ainda que seja em nome de seus próprios filhos. A angústia do futuro torna-se um sofrimento do presente. Precisamos operar com uma dialética temporal: pensar o futuro sem abandonar o presente. O futuro está doente. Mergulhamos em um nevoeiro histórico. Isso repercute sobre o presente. Somos seres de raízes e de mudança, de comunidades e de universalização. Quando o futuro está doente, acaba ocorrendo um retorno ao passado. Acontece que o futuro pode ser também erro e superstição. O medo instaura a retomada virulenta, por exemplo, do integrismo religioso. Nossa tarefa é construir um novo futuro, diferente daquele que faliu: um futuro da consciência e da vontade. O amanhã não será oferecido pela história”.
Nos longos invernos parisienses, beber as suas palavras sábias era um exercício fundamental de interpretação da fronteira entre o real e o imaginário. Certa vez, enquanto brincava com a sua gata Herminette, no seu apartamento no tradicional Marais, Morin sintetizou: “Devemos compreender que não somente no plano filosófico, mas também no científico, não existe certeza teórica absoluta. Temos certezas sobre fatos, por exemplo, que tem sol quando tem sol, ou que o sol aparecerá a tal hora amanhã e a tal hora depois de amanhã; assim, talvez, por algum tempo. Essas certezas estão situadas no tempo e no espaço e são biodegradáveis, pois a Terra não girou sempre com a mesma velocidade em torno do sol e em torno dela mesma. Houve um momento em que a Terra não existia; haverá um momento em que o sol explodirá”. Tudo passa. Tudo se renova. Tudo é ciclo.
A incerteza está na base da investigação “científica” e da descoberta de novos conhecimentos: “Nossas certezas não são eternas. Nenhuma teoria científica – e aí reside, creio, a importância da contribuição de Karl Popper – está segura de ter certeza absoluta. Aquela que num instante específico conforma-se mais aos dados em questão impõe-se. Mas pode muito bem ser substituída por nova teoria, e a prova é que praticamente todas as teorias científicas do século XIX foram ultrapassadas no século XX ou provincializadas”.
A imaginação, a criatividade e a efemeridade participam da montagem de um edifício teórico: “Uma teoria é uma construção do espírito e, de resto, sabemos que o conhecimento não é o espelho da realidade, mas tradução e reconstrução de um mundo do qual recebemos mensagens através de nossos sentidos, como os olhos, que são traduzidas e codificadas por nosso sistema nervoso e retrabalhadas pelo cérebro que faz delas uma percepção. Se todo conhecimento é  reconstrução e percepção, não pode ter valor de reflexo absoluto do real. Somos, portanto, obrigados a negociar com a incerteza”. Sempre.
O século XX teve de esmagar os determinismos e aceitar o imprevisível como parte do jogo natural: “De outra parte, tivemos de abandonar, felizmente, a ideia de que o universo era uma máquina determinista perfeita, pois quando se tem tal máquina pode-se prever o futuro. Laplace imaginava que um demônio poderia conhecer todos os acontecimentos do futuro e do passado. Na realidade, estamos num universo que comporta desde o princípio o  imprevisível. Desde o começo, existe calor, e o que é o calor? Agitação de partículas ou de moléculas cujos momentos particulares não podemos prever. Somente com sistemas fechados é possível estabelecer leis estatísticas gerais”. A guerra continua. A vida também.
Edgar Morin abraçou, sem medo, o risco: “A história de nosso universo sempre comportou a incerteza: colisões de partículas ou de galáxias, logo com destruições mútuas, bifurcações, riscos, etc. Quando se olha a história da Terra, vê-se que ela não foi linear; houve acidentes, cataclismos ecológicos como os que provocaram o desaparecimento dos dinossauros. Penso que vivemos num mundo de mistura de ordem e de desordem – sendo ordem tudo que diz respeito ao determinismo, à estabilidade, à regularidade, e desordem tudo o que é colisão, agitação, destruição, explosão, irregularidade. Devemos desenvolver estratégias de ação face a tal universo”. Ordem e desordem, certeza e incerteza, eis a unitas multiplex.
Numa das nossas tantas entrevistas, Morin debruçou-se sobre a mais óbvia das perguntas: o que é a complexidade? “Trata-se do pensamento que liga os conhecimentos separados. Por que ligar? Porque o conhecimento só é pertinente quando situado no seu contexto e na globalidade. Ligar, contextualizar e globalizar fazem parte da necessidade natural do conhecimento. Para saber ligar, entretanto, é preciso utilizar instrumentos de pensamento estranhos aos procedimentos científicos clássicos, que obedecem à causalidade linear simples, a uma lógica rígida e que obedecem sobretudo ao princípio de separação. O homem, por exemplo, que é ao mesmo tempo um ser físico, químico, cerebral, mental, espiritual, social e cultural, é estudado de maneira fragmentada: a física, a química, a biologia, o cérebro, o espírito, a cultura e a sociedade, a psicologia, etc. Ora, em realidade essa separação não nos permite de compreender a complexidade humana. O pensamento complexo reage contra essa situação, sem ser, contudo, apenas o contrário do pensamento simples, e integra os modos de pensar simples e complexos numa concepção mais rica. Trata-se da ‘dialógica’ do simples e do complexo, do separável e do não-separável, da ordem e da desordem, da ‘dialógica’ entre a lógica clássica e a transgressão lógica quando esta se impõe, ou antes entre a lógica clássica e a racionalidade aberta. Não se pode, portanto, aprender o pensamento complexo, sobretudo quando se tem a formação de um sistema reducionista, em um dia. A complexidade exige um novo e difícil aprendizado e a reforma do pensamento, a qual demanda a reforma da educação”. Essa reforma será uma revolução.
Relativizar implica colocar em relação o universal e o particular. Respeitar a diferença exige um comportamento complexo capaz de aceitar a união de opostos, mecanismos antagônicos e, ao mesmo tempo, complementares. Educar para o futuro passa por uma reforma de pensamento que valorize o pluralismo como convivência e equilíbrio de contrários. O grande perigo de tempos pragmáticos é a simplificação. Um exemplo de simplificação é a meritocracia, que põe em competição desiguais, por falta de mesmas oportunidades de preparação, como se fossem iguais. A meritocracia, nos termos que vem sendo praticada, reproduz as desigualdades do ponto de partida e funciona como um sistema injusto de hierarquia social. O mérito é um ideal  a ser buscado. A meritocracia é o efeito perverso desse ideal. Elimina a pluralidade, não relativiza os obstáculos e uniformiza diferentes como se fossem iguais. Nega a complexidade. JM

sexta-feira, julho 07, 2017

Perigo, perigo!


A Lava Jato corre perigo.
O perigo atende pelos nomes de PMDB, PSDB e PT.
A Lava Jato entrou em colapso quando transbordou.
Era para atingir só o petismo.
Sérgio Moro sabia disso e jamais pisou fora da área demarcada.
A operação, porém, foi além dele.
Ao chegar aos caciques do PMDB e especialmente do PSDB, sangrou demais.
A Lava Jato corre perigo.
O perigo atende pelos nomes de Ministério da Justiça e formalidades jurídicas.
A verdade exige a forma.
A forma passa por uma formalidade.
A formalidade é capaz de engolir seu conteúdo.
A lápide está pronta: aqui descansa a Lava Jato.
Os políticos não rezam por ela.
Preferem amaldiçoá-la.
Eis a única culpada pelos males que nos assolam(JM).

quinta-feira, julho 06, 2017

Quarto fechado para Geddel


Michel Temer vive entre o ser e o nada.
Só não sabe quem é o ser.
Na sua condição de homem livre, escolheu existir por meio de um atalho.
Instalado, por força certamente da sua essência, no poder, atirou-se ocaso com certa pressa.
A fotografia oficial da sua posse é um elogio ao código penal.
Depois desse instante de glória, Temer passou de Sartre a Camus: rola a sua pedra.
Todo dia um dos seus experimenta viver entre quatro paredes sem janelas nem liberdades.
Dois dos seus ex-ministros, Henrique Eduardo Alves e Geddel Vieira Lima, foram das cédulas às celas.
Romero Jucá sobrevive à luz do sol graças à obscuridade do seu mandato de senador.
Moreira Franco protege-se com sua capacidade de contradizer seu sobrenome.
A fotografia da posse é uma colcha retalhada pela polícia a cada mês.
Até o desconhecido estafeta do presidente, Rocha Loures, o homenzinho da mala, sentiu náuseas na prisão, de onde ainda não deveria ter saído, mas para onde todos os enredos o levam de volta.
O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, afirma que se deve seguir a narrativa.
Para ele, criminosos de alto escalão não assinam suas obras nem passam recibo.
Basta-lhes ser ghost writer. A noção de autoria já não os nobeliza.
Temer avança rapidamente do ser para o nada.
A Polícia Federal come o seu fígado com bicadas rapaces.
A águia do parlamento se arrasta como um réptil do deserto do executivo.
Vez ou outra, porém, tem arroubos de pássaro altivo: quer voar, reformar e tocar o sol.
Então ouve os gemidos dos seus amigos presidiários e cai prostrado à espera de um novo dia.
O poder corrompe. A corrupção empodera.
A existência precede a essência. Mas, no caso de Temer e dos seus, não a nega.
Aguardemos os próximos capítulos.
A corrupção é uma obra aberta.
O autor se diz morto.
Os seus personagens vivem à solta.
O protagonista tem ar de espectro.
Até quando será?
Quando sairá do nada para virar nota de rodapé na história?JM

quarta-feira, junho 21, 2017

Pessoas ou partidos?


      Emmanuel Macron surgiu quase do nada e ganhou, aos 39 anos de idade, a eleição presidencial francesa enterrando elefantes. Para isso, fundou um partido, “Em Marcha”, que até ontem não existia. Neste domingo, confirmou a maior vitória eleitoral legislativa das últimas décadas na Europa. Obteve 350 cadeiras, sobre 577, no parlamento. Pulverizou mastodontes como o Partido Socialista, que caiu de 284 deputados para 29. O que isso indica? O óbvio: cada vez mais se vota em pessoas e não em partidos. Qual é o problema? Por que se deveria privilegiar essas estruturas do século XIX em detrimento de homens e mulheres de carne e osso? Quem realmente, salvo militantes, confia no PMDB, no PT e no PSDB mais do que em algumas pessoas desses partidos? 57,4% dos eleitores franceses não foram votar. A renovação do parlamento chegou a 75%. São 224 mulheres na Assembleia Nacional.
O Brasil estuda mais uma reforma eleitoral. É só jogo de cena. Caciques partidários defendem voto em lista fechada. É assalto à mão armada ao direito de cada cidadão de escolher um nome e recusar os demais. Afirma-se que hoje, no sistema proporcional e com as coligações, o eleitor vota num candidato de esquerda e elege um de direita ou vice-versa. Acontece mesmo. A solução é simples: acabar com as coligações nas proporcionais. Ou optar pelo voto distrital. Elege-se quem fizer mais votos num distrito. Corre-se o risco de uma distorção e de eliminar as minorias do parlamento? Não há sistema perfeito.
Em todos sempre se perde alguma coisa.
As minorias podem trabalhar para virar maioria em alguma circunscrição. É a democracia.
Nada pode ser pior do que votar num e eleger outro ou ver o mais votado ser superado pelo menos votado graças ao sistema de cesta eleitoral baseado em quociente partidário. Partido é uma sinalização de que as pessoas nele reunidas comungam de certas ideias. Uma verdadeira democracia precisa aceitar candidaturas avulsas. O marxismo inventou o partido sem parte, o partido único acima do eleitor e do Estado. O capitalismo adapta-se até a ditaduras se for rentável. Os eleitores do século XXI indicam cada vez mais que gostam de pessoas com ideias votando numa mesma eleição em vários partidos. Podem se enganar, ser enganados, errar. Tem sido assim com os partidos. Entregar aos partidos brasileiros mais poder no momento em que eles apodrecem ao ar livre é uma ideia absurda. Uma ideia deles, evidente.
Lista fechada no Brasil significa eleger para sempre Romero Jucá, Renan Calheiros e até, certamente entusiasmados com uma nova regra do jogo tão generosa com o caciquismo, Carlos Lupi, Rui Falcão e todos os burocratas ou controladores de siglas. A Alemanha tem voto distrital misto. Inglaterra e França praticam o distrital. Todos se queixam um pouco. Onde está pior? Lá ou aqui? A lista fechada dispensa o eleitor de comparar nomes, de estudar biografias, de conhecer pessoas. Basta confiar na pizza entregue por seu partido. Macron faz pensar em Collor. Foi horrível. Os grandes partidos brasileiros posteriores não se comportaram muito melhor. Há petistas, claro, que se consideram vítimas de uma conspiração. Já o deputado Alceu Moreira acha que a conspiração é contra o reformista Michel Temer. Que coisa!JM

sábado, junho 17, 2017

Tiroteio!


Depois de falar sandices para cirurgiões plásticos, ‘Deusllagnol’ tem que ser convidado agora para abrir o congresso de psiquiatria.
DO CRIMINALISTA ANTONIO CARLOS DE ALMEIDA CASTRO, o Kakay, sobre Deltan Dallagnol debater a Lava Jato na 37ª Jornada Paulista de Cirurgia Plástica.

quinta-feira, junho 15, 2017

Ciro, presidente!


O deputado distrital Chico Vigilante (PT) afirmou que — caso o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva não seja o candidato do partido — ele avalia como positiva uma aliança com Ciro Gomes, do PDT, para 2018. "O PT tem nomes excelentes para serem candidatos a presidente da República, mas também poderá fazer uma aliança", disse o parlamentar em entrevista. "Eu, particularmente, caso o PT não tenha o Lula como candidato, tenho uma simpatia muito grande com a candidatura de Ciro Gomes, pelo que ele representa."
Políticos do PT, porém, temem que Ciro seja desagregador e possa dificultar a performance do partido, por isso o nome do pedetista sobe e desce nas bolsas de apostas. "Eu não sei se Ciro vai aglutinar o PT, mas vai dizer coisas que muita gente não tem coragem. Ele seria um grande presidente, vai enfrentar determinados setores deste país e está na hora de ouvir umas verdades", disse Vigilante. Alguns petistas temem que Lula não possa disputar no ano que vem por causa das investigações da Lava-Jato. Não é o caso de Vigilante, que, na entrevista, disse acreditar que o ex-presidente esteja na disputa. “Ele é o líder das pesquisas e nada foi provado contra ele.” No cenário local, Vigilante não crava um nome do PT. Ele deve concorrer à reeleição. "Duvido que alguém conheça Brasília mais do que eu", disse ele.

domingo, maio 07, 2017

Aposentadoria e novas regras

TIROTEIO
Manifestações, emendas de deputados da base do governo e o efeito Janot… O gato, digo, a reforma de Temer subiu no telhado.
DO DEPUTADO FEDERAL NILTO TATTO (PT-SP), sobre a série de acontecimentos recentes que, avalia, dificultam a aprovação das novas regras de aposentadoria.

sábado, maio 06, 2017

Advogado criminalista

A última sociedade que viveu na base do ‘like’ e do ‘unlike’ morreu no coliseu entre adagas, bigas e leões, condenada por um imperador.
DE TICIANO FIGUEIREDO, sobre as manifestações do coordenador da força-tarefa da Lava Jato, Deltan Dallagnol, nas redes sociais.

sexta-feira, maio 05, 2017

Nada mudou!


 Temer, quem diria, já detonou a reforma de FHC
O presidente Michel Temer (Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/11.04.2016/Agência Brasil)
"Vê-se que o aparelho de Estado está minado por todos os lados. É uma espécie de quinta-coluna permanente. Não há mais reserva de nada. Isso não é o governo, não. O Estado é que é assim. Como é que a gente reconstrói esse Estado tão apodrecido?" (Ex-presidente Fernando Henrique Cardoso na contra-capa do primeiro volume do seu livro Diários da Presidência, Companhia das Letras).
***
FHC já lançou mais dois volumes desta coleção, mas até hoje não respondeu à pergunta sobre o Estado apodrecido reproduzida na epígrafe deste texto.
À luz do presente debate da reforma da Previdência, a leitura das memórias presidenciais do antigo sociólogo serve para mostrar que na política brasileira tudo muda para tudo continuar no mesmo lugar. Até as moscas são as mesmas.
No jantar de quarta-feira com a cúpula tucana, o presidente Michel Temer queixou-se do desgaste que vem sofrendo com as reformas e foi consolado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.
O ex lembrou que também tentou fazer um governo de reformas, mas teve oito anos para fazê-las, e agora Temer está sendo corajoso por tentar aprová-las com tão pouco tempo de mandato que lhe resta.
Só não sei se os dois se lembraram do que aconteceu em 1996, quando estavam em campos opostos.
No primeiro mandato de FHC, Michel Temer, já então cacique-mor do PMDB, era o relator do projeto de reforma previdenciária do governo enviado à Câmara.
Está no livro citado, um catatau de 929 páginas, que eu consegui ler até o fim:
"Na última hora, o Michel Temer mudou coisas muito importantes que havia combinado conosco, tornando a reforma previdenciária muito pouco eficaz para combater uma porção de abusos (...) A reforma da Previdência foi desfigurada, o Temer cedeu além de todos os limites".
Ou seja, tudo mais ou menos como está acontecendo agora, vinte e um anos depois _ e pelas mesmas razões.
Em comum, os abusos a que FHC se referia são os direitos adquiridos pelas corporações do funcionalismo público em todos os níveis, mais unidos do que nunca na luta pela manutenção dos seus privilégios na legislação previdenciária.
Estes eternos direitos adquiridos são na verdade privilégios adquiridos desde os tempos de dom Joãozinho no Império, os principais responsáveis pelos crescentes rombos nas contas da Previdência.
Assim como aconteceu esta semana, o projeto original do governo foi aprovado com muitas mudanças em primeiro turno na Câmara, mas acabou mutilado no final do caminho na votação final em plenário, o que levou FHC a desabafar:
"O Congresso não quer mesmo mudar. Vamos ter 30% do que queríamos. É pouquíssimo".
Quanto vai sobrar desta vez?
Para evitar que se repita com ele o que fez com FHC na sua fracassada tentativa de reforma da Previdência, Michel Temer agora chamou o ex-presidente e o alto comando do aliado PSDB para garantir o apoio do partido quando o atual projeto for a plenário, ainda sem data marcada.
Fiéis ao seu estilo, os tucanos juraram fidelidade, mas desde que o PMDB, o partido do governo, feche questão antes.
Como isso ainda não aconteceu, e o líder do PMDB no Senado, Renan Calheiros, faz franca oposição ao projeto, pode se repetir com Temer o mesmo que aconteceu com FHC, traído pela própria base aliada na maior derrota do seu governo.
No dia 6 de maio de 1998, faltou um voto para os 308 necessários para a aprovação da idade mínima (60 anos para homens e 55 para mulheres) nas regras permanentes da reforma, só para os trabalhadores da iniciativa privada.
Os jornais da época registram que FHC ficou à disposição durante todo o dia para conversar com parlamentares e montou uma tropa de choque com ministros e líderes partidários para garantir a aprovação.
Vejam quem estava lá: Paulo Maluf, então presidente do PPB (hoje PP), tentando convencer os dissidentes do seu partido; os ministros Eliseu Padilha (Transportes) e Renan Calheiros (Justiça).
"Vou ficar no ministério recebendo telefonemas e deputados", disse Padilha à Folha, ao deixar a Câmara pela manhã, enquanto Renan Calheiros despachava no gabinete do líder do PMDB.
Tenho ou não razão ao dizer que nem as moscas mudaram? Estão todos lá novamente, e o notório Eliseu Padilha hoje é o chefe da tropa de choque do governo Michel Temer na batalha pela aprovação da reforma. Só Renan desgarrou.
Ao final do jantar com os tucanos, Michel Temer informou que pretende levar a reforma da Previdência ao plenário da Câmara dentro de três semanas, em busca dos mesmos 308 votos que FHC não alcançou num mês de maio de quase duas décadas atrás.
O que mudou?RK